Risco de convertibilidade: Reconhecido mas não tratado
"baixa probabilidade de a Eurozona sobreviver"
por Yannis Varoufakis
Após o meu post anterior sobre o recente questionamento do presidente do
BCE, o sr. Draghi, Gavyn Davies do
Financial Times
escreveu o seguinte: "É arriscado para um banqueiro central
reconhecer que o sistema de pagamentos sobre o qual repousa a divisa pode
não ser plenamente crível. O sr. Draghi podia simplesmente ter
repetido o velho refrão de que a operação do sistema
Target 2 é suficiente para assegurar que o euro nunca se possa
desintegrar. Ao admitir a realidade de que o sistema já não
é mais 100% crível aos olhos do mercado, o presidente do BCE
convidou investidores a perguntarem se as suas propostas
intervenções são suficientemente poderosas para tratar do
problema que ele levantou". E, como tenho argumentado, investidores
inevitavelmente chegarão à conclusão de que estão
muito longe de serem suficientemente poderosas. Dito simplesmente, a
política de manter a utilização do EFSF-ESM
[1]
[2]
com o seu poder de fogo gravemente restringido, em conjugação
com um limitado programa de compra de títulos por parte do BCE, para
pressionar em baixa os rendimentos espanhóis e italianos,
fracassará tão miseravelmente como em 2010/11 fracassaram os
esforços combinados do EFSF e do BCE para impedir Portugal e a Irlanda
de seguirem a Grécia para dentro do pântano.
A questão agora torna-se (ainda que em modo académico): O que
seria preciso para convencer investidores de que as medidas propostas
anularão o "risco de convertibilidade" que o sr. Draghi agora
reconhece ser "não insignificante"? Toda a gente, incluindo
Gavyn Davies e Tim Geithner, parece acreditar que a resposta está em dar
ao MEE uma licença bancária, permitindo-lhe portanto utilizar o
balanço do BCE como meio de levantar quaisquer dinheiros que ele tenha
disponíveis (desde os menos de 200 mil milhões até os
necessários 2 milhões de milhões!).
Não tenho dúvida de que um anúncio de acordo com estas
linhas provocaria um frenesi de entusiasmo nos mercados monetários e que
os spreads por toda a Eurozona entrariam em colapso. Mas também
não tenho dúvida de que isto seria mais uma medida
temporária. A razão? A toxidade da estrutura financeira do
EFSF-MEE
[NR]
. Toxidade? Sim, toxidade. Como expliquei há muito, os títulos
emitidos pelo EFSF (os quais terão a mesma estrutura daqueles que MEE
emitirá, assumindo que o tribunal constitucional alemão dê
o sinal verde em Setembro próximo) são estruturados de modo muito
semelhante às odiosas CDOs
[3]
que em 2008 deitaram abaixo o castelo de cartas. Se esta análise do
Verão passado esta correcta, então alavancar o EFSF-ESM,
concedendo-lhes uma licença bancária, seria o equivalente a criar
uma montanha CDO com esteróides e plantá-la no
coração da Eurozona. Isso pode funcionar por algum tempo (assim
como o mercado de CDOs esteve florescente por algum tempo) mas no fim aquele
novo castelo de cartas, construído na Eurozona, virá abaixo. E se
os investidores aprenderam alguma coisa do passado recente, eles muito cedo
deveriam ver a vinda dos emagrecimentos, o que significa que a semi-vida de uma
nova licença real para o MEE provocará mais problemas do que os
que resolverá a muito, muito breve prazo.
E então? Que política pode tratar eficazmente o "risco de
convertibilidade"? A resposta é: Nada menos que a adequada
mutualização da Complacente Dívida de Maastricht. E uma
vez que não temos um Tesouro Federal para fazer isto (e não
teremos um antes de o "risco da convertibilidade" transformar-se em
"realidade da convertibilidade), a única ferramenta que penso
permitir chegar ao resultado desejado é a dos títulos BCE de
acordo com a Política 2 da nossa Modest Proposal. Que isto não
está na ordem do dia é tão evidente quanto é
indicativo da baixa probabilidade de que a Eurozona venha a sobreviver.
06/Agosto/2012
Ver também:
Spain And Italy Are Toast Unless Germany Allows The ECB To Print Trillions Of Euros
[NR] Ver capítulo "Porque a dimensão do EFSF não
importa", em
Ascensão e queda do euro
, Lisboa, Ed. Chiado, 2012, 351 pgs., ISBN: 978-989-697-548-7
[1]
EFSF
: European Financial Stability Facility
[2]
ESM
ou MEE: Mecanismo Europeu de Estabilidade
[3]
CDOs
: Collateralized debt obligations
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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