Conversa$ sobre dinheiro
por Yanis Varoufakis
Na sequência do brutal pacote de austeridade com cortes de 3,3 mil
milhões de euros em salários, pensões e benefícios
que acabou de ser aprovado pelo parlamento grego, o Professor Yanis
Varoufakis, professor de teoria económica na Universidade de Atenas,
dá a
Occupied Times
esta visão especial sobre os dias negros que se perfilam à nossa
frente
OCCUPIED TIMES O senhor diz que Atenas se encontra numa profunda
depressão como é viver nela?
Yanis Varoufakis As pessoas quase não falam de mais nada a
não ser da crise. Encontramos pessoas que não vemos há
décadas e, em vez de perguntarmos como é que foi a vida delas,
entramos numa discussão sobre o 'desastre'. As luzes vão
desaparecendo da cidade, à medida que muitas famílias vêem
ser-lhe cortado o fornecimento de energia eléctrica. As lojas fecharam
uma em cada duas, mesmo nas áreas elegantes de Atenas. Os
negócios que ainda se aguentam estão a preparar-se para o cair do
pano. Toda a gente deve dinheiro a toda a gente e ninguém pode pagar. Os
empregos são uma miragem, com o desemprego entre jovens a atingir os 45%
da população.
OT As contas de electricidade na Grécia não estão a
aumentar, e não há uma nova taxa qualquer sobre a
electricidade
?
YV Ambas as coisas. A electricidade acaba de subir 12% enquanto, ainda
por cima, o governo introduziu novas taxas fixas na conta da electricidade. Se
não fosse tão trágico, seria de morrer a rir.
OT As pessoas falam do mal-estar grego. O que é isso
exactamente?
YV Deixe que lhe recorde que até 2008, a Grécia estava a
ir muito bem. A economia estava a crescer mais depressa do que a média
na Europa, o investimento estava a aumentar, tanto no domínio
público como no privado. Então, porque é que a
Grécia implodiu em 2009/2010? A razão é muito simples e,
ao mesmo tempo, muito complexa. A história simples é que a
indústria grega recuou nos finais dos anos 70, na sequência dos
choques conjuntos das crises de petróleo (que aumentaram muito os custos
da energia) e do levantamento da protecção tarifária, a
fim de apoiar a entrada da Grécia para a CEE a antecessora da UE.
Nessa altura, os prejuízos do sector privado foram transferidos para o
sector estatal, inflacionando a dívida pública (em especial
quando se utilizou o estado para empregar os operários e os empregados
que a indústria estava a dispensar). Acrescente a esta mistura uma dose
crónica de evasão fiscal (que começou com os ricos e
depois se espalhou pelas classes 'mais baixas') e obtém as razões
do aperto no erário público. Antes do euro, a Grécia
conseguia gerir crises através de desvalorizações
frequentes. Mas depois de entrarmos para o euro, o amortecedor de choque da
desvalorização desapareceu. Houve uma época em que rios de
dinheiro tóxico barato (na sua maioria produzido por Wall Street, pela
City e pelos grandes bancos do norte da Europa) inundaram países como a
Irlanda, a Espanha, etc. Deram a toda a gente uma sensação falsa
de condescendência, mas na realidade estavam a criar uma expansão
conduzida pelo consumo. Por isso, quando a Queda de 2008 nos atingiu, foi
apenas uma questão de tempo para que o capital que estava a entrar
fugisse de novo, deixando atrás de si apenas devastação.
E, dada a impossibilidade de desvalorizar a divisa da Grécia, para
absorver o choque, o resultado é que alguma outra coisa tinha que ceder
a economia social da Grécia.
OT E as agências de avaliação do crédito,
como é que se encaixam em tudo isso
?
YV Esses grupos realizaram o seu milagre criminoso durante os bons
tempos, principalmente na Wall Street e na City. Desempenharam um papel
fundamental ajudando os bancos a imprimir o seu dinheiro tóxico privado
(por exemplo, as obrigações de dívida com garantia
CDO, collateralised debt obligations
), rotulando-as com AAA ou seja 'sem risco'. A santa aliança entre essas
agências e os bancos criaram as pirâmides que ruíram em
2008, com os resultados que todos sentimos no mundo inteiro até hoje.
Actualmente, acho que não contam para muito. E se contam, a culpa
é dos governos por exemplo, quando um Banco Central (como o BCE)
afirma que só aceitará, como títulos caucionados os que
obtenham uma determinada avaliação mínima da S&P ou da
Moody's, de quem é a culpa por a S&P e a Moody's exercerem um poder
exorbitante?
OT Parece que os tecnocratas estão na mó de cima (em
Itália & Grécia) acha que eles podem fazer um trabalho
melhor?
YV Não, isto não é uma questão de
personalidades. É uma profunda falha estrutural nas entranhas do
capitalismo financiarizado em geral e na arquitectura insustentável da
zona euro em particular. Nalguns aspectos, uma certa competência pessoal
não é uma coisa má. O Mario Monti da Itália
é certamente melhor do que Berlusconi. O mesmo já não
posso dizer do nosso 'tecnocrata', Lucas Papademos, cujo maior trunfo, na minha
opinião, tem sido a rapidez com que actua ao som da voz do dono, desde
há muito, muito tempo (o dono é o Banco Central Europeu). Embora
de certa forma ele esteja a fazer um magnífico trabalho, dado que a sua
função era, desde o primeiro dia, orquestrar a
aceitação desses empréstimos pelo parlamento grego. Lacaio
uma vez, lacaio toda a vida!
OT Há mais alguma coisa a dar? Mais activos a entregar?
YV É importante sublinhar que o pior aspecto dos 'resgates'
gregos é que não têm como objectivo espoliar a
Grécia dos seus activos. O seu objectivo é esconder o estado real
e lamentável dos bancos europeus. Por essa razão, pede-se ao
estado grego insolvente, e aos seus maltratados cidadãos, que
contráiam empréstimos que não podem pagar por uma simples
razão: para que os passem para os bancos insolventes. Mas para passar
esses empréstimos no parlamento alemão, cujos membros não
querem aprovar esses empréstimos, o governo alemão tem que
demonstrar aos seus deputados que a Grécia 'merece' esses
empréstimos porque está a sofrer, a sangrar, e a liquidar. Assim,
a Grécia é espoliada dos seus activos a fim de acalmar os
parlamentares alemães e passar os empréstimos para os bancos
falidos.
OT O que é que pensa do PSI (Private Sector Involvement,
Inclusão do sector privado) e da 'restruturação' da
dívida a que vamos assistir?
YV A minha opinião é que é fraudulenta. Sou a favor
de apertar o cinto. Se um empréstimo corre mal, tanto o que pede como o
que empresta têm que sofrer com isso. Até aqui, a carga e o
sofrimento têm recaído apenas no povo grego, enquanto a UE e o FMI
vão empilhando uma nova dívida sobre os ombros débeis da
Grécia, para que os banqueiros não percam um tostão do
dinheiro e dos juros que lhes são devidos. A razão por que a PSI
é fraudulenta é que força os banqueiros a sofrer um golpe,
mas também os força a fingir que o fazem voluntariamente.
Porquê? Para garantir que os contratos de Credit Default Swap (na
verdade, políticas de seguros, que alguns fundos de investimentos
especulativos e bancos compraram a outros bancos e a outros fundos de
investimentos, que pagam dinheiro aos seus devedores no caso de um
incumprimento involuntário da Grécia) não 'ardam'
porque, se isso acontecer, então esses banqueiros que emitiram os CDS
vão acabar por ficar insolventes também (visto que não
têm dinheiro para pagar aos detentores dos contratos de seguro). Assim,
pretende-se agora que a Grécia negoceie com os banqueiros o golpe que
estes últimos vão assumir 'voluntariamente'. É como pedir
a um rato para negociar com um gato sobre que parte do rato é que o gato
pode comer. E tudo isto como uma pré-condição para que a
UE e o FMI concedam mais empréstimos à Grécia,
empréstimo esses que a Grécia vai utilizar para pagar aos
banqueiros, provocando uma austeridade ainda mais anquilosante enquanto
fica proibida de usar nem que seja uma pequena parte desse dinheiro para
impulsionar a sua economia ou financiar hospitais.
OT Consta que certos cambistas estão a preparar-se para o
regresso do dracma acha que isso vai acontecer? Que acontece se a
Grécia sair do euro?
YV Será uma negligência criminosa os nossos governos
não estarem a preparar planos de emergência para essa
eventualidade. Tendo dito isto, acho que um colapso do euro seria
terrível para todos nós; tanto para os que estão dentro
como para os que estão fora da área do euro. Além disso, o
custo humano com a saída do euro num sítio como a Grécia,
enquanto o euro se mantiver moeda legal, seria catastrófico.
OT As pessoas seriam forçadas a sair das grandes cidades (Atenas,
Roma. Lisboa, etc) e voltar às áreas rurais?
YV De facto há uma série de pessoas a sair de Atenas e a
ir para a província, na esperança de construir uma vida mais
sustentável. Mas isso não é solução. Vivemos
em sociedades urbanizadas, cosmopolitas em que as cidades são os
alicerces da nossa sociedade. A tarefa que enfrentamos é fazê-las
funcionar. Não é abandoná-las.
OT Porque é que a 'dívida' tem tanto poder?
YV Porque os credores possuem poder de monopólio sobre o sistema
político. Principalmente depois da Queda de 2008, vivemos num sistema a
que eu chamo Bancarrotocracia domínio dos bancos em bancarrota.
Quanto maior for o buraco negro no seio deles, maior é a sua capacidade
de mobilizar o estado a fim de extrair rendas do resto da economia social.
OT Acha que as pessoas alguma vez vão retomar o controlo do seu
sistema bancário?
YV Não, pelo menos enquanto a classe média não se
revoltar também, e o sistema político perceber que têm que
ceder às massas, senão estão condenados.
OT O que pensa do movimento Occupy?
YV É o único raio de esperança numa noite
particularmente escura.
O original encontra-se em
http://theoccupiedtimes.co.uk/?p=2604
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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