Porque a união energética da UE irá fracassar
Na quarta-feira, 25 de Fevereiro, o Comissário para a Energia da UE,
Maros Sefcovic, apresentou uma proposta de União Energética para
abastecer a Europa Oriental com gás de fontes internas. Este documento
preliminar, o qual foi disponibilizado por
The Guardian
, pormenoriza outro plano "no papel" de responsáveis da UE
que está completamente desligado de qualquer espécie de sistema
realista para fornecer energia bem como dos interesses da indústria do
petróleo e do gás nos países dos utilizadores finais.
Dentro da rica história de documentos e projectos sem significado sobre
o tema da auto-suficiência da UE em energia, o projecto de Maros Sefcovic
foi antecedido pelo natimorto gasoduto Nabucco, pelo Southern Gas Corridor e
por um conjunto de outras iniciativas. Nenhuma delas chegou a
ultrapassar a etapa da emissão de memorandos de
cooperação. Na primeira oportunidade, as
corporações energéticas abandonam os idealistas de
Bruxelas e continuam a centrar-se nos interesses dos seus clientes.
Além da habitual cobertura da UE, desta vez a apresentação
da nova União Energética foi acompanhada por pomposas
referências às origens da união em 1950, à
aliança de produtores de carvão e aço e ao New Deal de
Franklin Roosevelt ("um new deal para consumidores de energia").
Não é nenhuma revelação nova que quando um
burocrata da UE subitamente menciona "valores" e começa a
lamentar os interesses egoístas de actores corporativos nacionais, as
coisas em Bruxelas estão a ir pior do que nunca. Toda a narrativa da
"excomunhão" da Rússia em relação aos
consumidores da UE devido aos seus pecados na Ucrânia começa a
parecer-se à famosa fábula de Esopo acerca de uma assembleia de
ratos que concordou em pendurar um guiso num gato ("Eles aceitaram a
proposta com grande entusiasmo e aplauso, até que um rato silencioso
pediu a palava: 'Isto está bem dito, mas qual de nós
colocará o guiso em torno do pescoço do gato?' ").
A verdade é que a novíssima recusa da Ucrânia a pagar suas
contas de gás foi uma surpresa desagradável para
responsáveis da UE. Maros Sefcovic disse mesmo numa conferência de
imprensa que as questões dos fornecimentos e do preço do
gás para as regiões de Donetsk e Lugansk serão tratadas
separadamente do "pacote de gás de Inverno" que garante
entregas neste Inverno. Por outras palavras, Bruxelas confirma de facto o
status económico especial destes territórios disputados.
Ninguém quer ser responsável pelo apagamento da Ucrânia
como um país de trânsito por causa de uma guerra civil no centro
da Europa. Portanto, a ideia de uma "uma união energética
que fala a uma só voz nos assuntos globais" está a ser
apressadamente cozinhada. Países com diversas composições
(mixes)
energéticas, várias configurações no seu consumo
nacional de energia e diferentes níveis de desenvolvimento industrial
estão a ser fortemente aconselhados a coordenar sua agenda de energia
com o antigo Comissário Europeu para a Juventude. O documento silencia
sobre se os conglomerados alemães de energia e os peritos nucleares
franceses desejarão "falar a uma só voz" junto aos
consumidores na Moldova faminta em energia. Não é
irrazoável acreditar que aquelas vozes serão diferentes.
Os problemas de acção colectiva na UE não decorrem de
valores conflitantes ou simpatias de Moscovo. A cooperação com a
Rússia é benéfica para a Hungria, Grécia e outros
actores regionais porque eles passaram décadas (1970-1990) a forjarem
laços energéticos com outros países da Europa Oriental com
a ajuda da antiga União Soviética. Forçados a optar entre
projectos no papel vs. energia barata para os seus eleitores, qualquer
político sensível optaria por esta última. Além
disso, qualquer chefe de estado que autorizasse Bruxelas a "vetar" um
acordo bilateral sobre uma parceria energética pareceria, aos olhos dos
seus próprios concidadãos, estar a liquidar a soberania da
nação. O facto é que as 28 estruturas regulamentares
nacionais que actualmente são adoptadas pelos estados membros da UE, em
contraste com os muitos documentos vindos de Bruxelas, não existem
meramente para apresentar os seus belos gráficos em conferências
de imprensa.
As legislações nacionais sobre energia reflectem os interesses
específicos das indústrias de petróleo, gás,
carvão e nuclear, bem como dos sindicatos de cada país.
Curiosamente, o objectivo político de permitir estrita
regulamentação supranacional de Bruxelas sobre a economia
coexiste no documento com apelos totalmente liberais para "reduzir
barreiras administrativas". Conceptualmente a nova União
Energética é uma bizarria, um monstro com duas cabeças,
nascido deve-se entender a partir dos desejos dos
comissários da UE de regular o comércio externo de
corporações dentro dos estados nacionais. De um ponto de vista
prático, o documento tem apenas uma importante função
psicológica, a qual é de actuar como um tipo de conto de fadas
inspirador para a enfraquecida economia da Ucrânia um gesto de boa
vontade da UE àqueles que em Kiev são responsáveis pelas
conversações do gás.
01/Março/2015
[*]
Jornalista, russo, colaborador de
Strategic Culture Foundation
,
The Energy Collective
e
Route Magazine
. Escreve sobre petróleo e gás, segurança
energética euro-asiática e navegação no
Árctico.
O original encontra-se em
oilprice.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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