Mais trampas do Banco Central Europeu para encobrir Merkel
por Juan Torres López
[*]
Há alguns dias publiquei um artigo mostrando como o presidente do Banco
Central Europeu havia apresentado aos líderes europeus dados sobre a
evolução da produtividade e dos salários em diferentes
países que estavam manipulados ou manifestavam uma tremenda falta de
conhecimentos de questões económicas básicas (
Las trampas de Draghi para bajar salarios
). Qualifiquei esse facto como uma aldrabice, porque dessa forma se confundiam
as pessoas para poder levar por diante propostas que não têm
nenhum outro fundamento a não ser a ideologia neoliberal de quem as
propõe.
Agora temos novamente que denunciar outra publicação do Banco
Central Europeu cujos resultados confundem a população e
são difundidos para ajudar a política reaccionária da Sra.
Merkel e seu governo, determinados a justificar a sua guerra económica
contra a Europa dizendo aos seus compatriotas que a negligência dos
países do Sul da Europa obriga as famílias alemãs, que
são as mais pobres, a pagar os seus excessos.
Diversos meios de comunicação tão influentes como
The Wall Street Journal, Financial Times
e o
Frankfurter Allgemeine
têm reproduzido nos últimos dias um trabalho publicado pelo Banco
Central Europeu na revista
Statistics Paper
(
"The Eurosystem Household Finance and Consumption Survey, Results from the First Wave"
) em que se quantifica a riqueza das famílias dos países europeus
mostrando que a das alemãs é menor do que a dos outros
países da periferia europeia.
Os títulos destes artigos são significativos: "Ricos
cipriotas, pobres alemães"
Reiche Zyprer, arme Deutsche
), em
Frankfurter Allgemeine
; "Os mais pobres da Europa? Olhe para o Norte." (
Europe's Poorest? Look North
) em
The Wall Street Journal;
ou " Os pobres alemães cansados de resgatar a zona euro
"(
Poor Germans tire of bailing out eurozone
) no
Financial Times.
Mas este estudo que serve para proclamar aos quatro ventos como é
injusto que sejam precisamente os alemães a pagar a dívida destes
países que têm famílias mais ricas, tem truque. Como acabam
de demonstrar os pesquisadores Paul De Grauwe e Juemey Ji num artigo publicado
no
Social Europe Journal
(
Are Germans Really Poorer Than Spaniards, Italians And Greeks?
), os dados que
o Banco Central Europeu apresenta neste estudo não permitem tirar
semelhantes conclusões, porque se referem à mediana da riqueza
das famílias estudadas e não à riqueza média.
Para aqueles que não estão habituados a estes conceitos,
mostrarei a diferença com um exemplo simples.
Suponhamos que se trata de comparar a riqueza das famílias de dois
países A e B e que a riqueza das cinco famílias do país A
é 12, 13, 14, 15, 16 e a das famílias do país B é
de 7, 8, 9, 10, 71.
A mediana é o valor da variável que tem acima e abaixo o mesmo
número de observações. Assim, no país A a riqueza
mediana seria 14 e no país B seria 9.
Vejamos porque é incorrecto dizer que as famílias do país
A são mais ricas do que os do B, ou que o país A é mais
rico que o B.
Se em lugar da mediana tomarmos a média (média das
observações, ou seja, o resultado da divisão do valor
total pelo número de famílias) conclui-se que a riqueza familiar
média no país A é 14, enquanto nas famílias do
país B é 21.
O que aconteceu é lógico: a mediana "escondeu" a grande
riqueza que se acumula na quinta família do país B.
Este simples exemplo permite verificar, portanto, que o que importa não
é a mediana (neste caso, da riqueza), mas sim ter em conta a
diferença que há entre a mediana e a média porque essa
diferença é que indica o grau de desigualdade entre as
variáveis observadas.
No exemplo, vê-se claramente que o país B que aparece como mais
pobre se a riqueza for medida pela mediana, é na realidade muito mais
rico.
No seu comentário ao estudo do BCE, de Grauwe e Ji mostram que, se se
levar em conta a desigualdade, os resultados a que se chega são outros.
Assim, provam que a diferença entre a riqueza dos 20% das
famílias mais ricas e os 20% das mais pobres é 149 para 1, na
Alemanha, uma desigualdade entre dez e quinze vezes maior do que a registada em
Espanha, Itália, Grécia ou Portugal, por exemplo.
Portanto, não se pode dizer, como se faz, que as famílias
alemãs, como um todo, são mais pobres do que as dos outros
países. Ao dizer isso, está-se a esconder que na Alemanha a
riqueza das famílias está muito mais concentrada que nos outros
países e que uma pequena parte das famílias, os muito ricos,
detém a maior parte da riqueza.
Além disso, de Grauwe e Ji indicam que observar apenas a riqueza das
famílias, quando se pretende tirar conclusões sobre como é
injusto um país resgatar outro, também não é muito
adequado. Afirmam, justamente, que se deveria levar em conta, para além
da riqueza das famílias, aquela que detêm as empresas e o governo.
Acontece que na Alemanha a parcela da riqueza total que corresponde às
famílias, em relação à das empresas e do sector
público, é menor que em outros países europeus.
Se a riqueza for vista como um todo, e não apenas na família, por
exemplo, através do stock de capital per capita, acontece que a da
Alemanha é quase o dobro da que corresponde a países como
Espanha, Grécia, Portugal, Irlanda e até Itália.
Em suma, mais uma vez o Banco Central Europeu engana, difundindo uma
visão parcial da realidade, que é usada pelos grandes meios de
comunicação para apoiar a estratégia do governo
alemão, orientada para favorecer cada vez mais as suas grandes
corporações e bancos.
O BCE é um instrumento dos grandes grupos empresariais e financeiros da
Europa, cujo melhor representante político é o actual governo
alemão, e neste momento isso é demonstrado pela ajuda na
ocultação de que o que acontece na Alemanha não é
que o país como um todo, ou todas as suas famílias, estejam a
empobrecer por causa dos países do Sul. É outra coisa: há
cada vez mais famílias alemãs a empobrecer, mas porque a riqueza
se concentra em cada vez menos ricos alemães. Alemães ricos, que
também o são devido à pilhagem que as suas empresas e
bancos, com a inestimável ajuda do Banco Central Europeu, efectuam nos
países do Sul.
Merkel e o seu governo são não só o inimigo número
um da Europa como também da imensa maioria dos alemães.
18/Abril/2013
[*]
Professor da Faculdade de C. Económicas da Universidade de Sevilha.
O original encontra-se em
juantorreslopez.com/...
. Tradução de Guilherme Coelho.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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