Sobre a necessidade de uma posição anti-Euro e anti-UE
por Panagiotis Sotiris
[*]
O que tem acontecido na Grécia, desde o início dos pacotes de
austeridade em 2010, só pode ser descrito em termos duma gigantesca
experiência de engenharia social neoliberal. Em termos de magnitude e
âmbito, ultrapassa em muito os efeitos dos famosos 'programas de
ajustamento estrutural' do FMI, sobretudo se tomarmos em
consideração que todos eles ocorrem no contexto duma democracia
europeia liberal e não duma qualquer ditadura militar latino-americana
dos anos 70. Pode dizer-se que é a tentativa da União Europeia
para provar que pode ser mais eficaz do que o FMI em implementar violentos
programas de austeridade.
A economia grega sofreu uma contracção acumulada de quase 25 por
cento, uma enorme recessão económica que só pode ser
comparada à Grande Depressão dos anos 30 ou às
consequências de uma grande guerra. A taxa oficial do desemprego anda
perto dos 28 por cento na realidade é maior e há um grande
número de empregados que não estão a ser pagos com
regularidade e o desemprego juvenil atinge 60 por cento, uma
situação duma 'geração perdida', com uma hemorragia
de mais de 100 mil jovens universitários que migraram para o estrangeiro
à
procura de trabalho. A redução média dos salários
reais excede bastante os 25 por cento e em muitos sectores ainda é
maior. O desmantelamento das infra-estruturas de saúde pública
em que a última medida foi o encerramento temporário de
todos os centros de saúde primários públicos, com
excepção dos hospitais aliado aos efeitos na saúde
da crescente insegurança e stress socioeconómico, já criou
uma situação de crise humanitária.
Está em marcha uma pilhagem total do património público,
acompanhado por um desprezo total pelas preocupações ambientais,
exemplificado nos projectos desastrosos para a exploração do ouro
na região Chalkidiki, que têm enfrentado a luta heróica dos
habitantes locais. A 30 de Março, mais um conjunto de mudanças
radicais. Na nova arquitectura europeia, a Grécia está a ser
empurrada cada vez mais para sectores como o turismo e as energias
renováveis em lugar de sectores de valor acrescentado.
Erosão da soberania Entrada da Troika
A experiência grega também tem sido um exercício na
erosão da soberania popular. Sob todos os aspectos, a Grécia
é um país de soberania reduzida. São os representantes da
chamada 'Troika' (Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e
Fundo Monetário Internacional (FMI)) quem dita medidas em nome da
'liberalização do mercado' e da 'competitividade' e o governo
grego não pode iniciar nenhuma iniciativa legislativa sem a
aprovação explícita dos representantes da Troika. A
execução do orçamento grego e do processo de
cobrança de impostos é vigiada de perto pelos funcionários
da Troika. Sem a aprovação da Troika, a Grécia não
pode receber a próxima parte dos empréstimos acordados com os
seus credores, e assim quem controla a vida financeira do país é
a Troika.
No entanto, isto não é um caso excepcional. A Grécia
representa a extrema violência social mas também a profunda crise
do Processo de Integração Europeia e, em especial, a
crise da zona do euro
. A austeridade, em todas as suas formas, é o principal item
no programa político da maior parte dos países europeus. Os
milhões que desfilaram em Espanha, pela dignidade', estavam
exactamente a lutar contra as políticas de austeridade impostas e que
fazem parte das disposições dos tratados europeus, em troca do
Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) e das operações de
salvamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF).
Portugal sofreu imenso com os programas impostos pela UE e o custo da crise
irlandesa também foi enorme. Em Itália, desde o governo de Mario
Monti (2011-2013), foram impostos pacotes de austeridade na tentativa de se
manterem dentro das normas da União Europeia. Parte da
irritação e descontentamento expresso nas eleições
autárquicas francesas é exactamente o resultado dos pacotes de
austeridade destinados a manter a França no núcleo central da
zona do Euroe de uma crescente desilusão com o 'Projecto Europeu'.
Além do mais, estas medidas serão em breve a norma para toda a
Europa. As actuais propostas de uma 'governação económica
europeia', o facto de que já estão em vigor
restrições (e mecanismos de penalização) relativas
aos défices orçamentais (de acordo com as condições
do 'Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e
Governação'), e os planos para uma União Bancária
que eliminará todas as formas de controlo nacional sobre o sistema
bancário, tudo isso atesta o carácter antidemocrático do
projecto europeu. É, na realidade, uma coisa híbrida entre a
coordenação intergovernamental e o co-federalismo, que se baseia
num conceito antidemocrático de um 'constitucionalismo' sem legitimidade
democrática. Favorece as forças do capital em toda a Europa, dado
que oferece a promessa de o libertar das conquistas que o movimento laboral
ainda tem e, simultaneamente, de garantir as prerrogativas do capital
multinacional. Além disso, a complexa arquitectura institucional da
União Europeia significa que, para além das formas de
'deliberação' sem grande peso, o processo de decisão
está perfeitamente protegido contra qualquer intervenção
de movimentos sociais e exigências das classes subalternas.
Actualmente, é impossível que alguém afirme que não
há justificação para a crítica do Euro e de toda a
arquitectura financeira, monetária e política da zona do euro.
Pelo contrário, podemos dizer que o Euro não representa nem
prosperidade nem estabilidade. Por um lado, a introdução do euro,
enquanto divisa única, cria uma coisa semelhante à
'gaiola de ferro'
de Max Weber, da modernização capitalista. Os governos, mesmo de
economias nacionais menos competitivas, decidiram abdicar da sua soberania
monetária, a fim de tirar partido da constante pressão
competitiva para a reestruturação e reformas neoliberais. Por
outro lado, o Euro criou as condições para uma nova forma de
hegemonia imperialista no seio da Europa. A divisa única foi uma
vantagem para as principais economias da Europa, e em especial para a Alemanha,
visto que não só ofereceu a estabilidade da divisa e um amplo
espaço para exportações e investimento, mas também
a vantagem adicional duma desvalorização competitiva permanente
contra economias periféricas menos competitivas.
Neste sentido, podemos dizer que os desequilíbrios do euro, enquanto
divisa única, são estruturais e inerentes ao projecto desde o seu
início. Em períodos de relativa estabilidade, estes
desequilíbrios podem ser tolerados, sobretudo quando até as
elites periféricas podem beneficiar de um crédito mais barato e
de importações que alimentam o consumismo e as bolhas do
imobiliário, que levam ao endividamento. Mas, num período de
crise e de recessão, estes desequilíbrios podem tornar-se
desestabilizadores, sobretudo quando as economias menos competitivas não
dispõem de instrumentos cruciais de política económica,
por causa das condições estritas que lhes são impostas
pelos tratados europeus. Neste sentido, a crise grega ou as crises noutros
países do sul europeu não são uma simples
manifestação da crise económica global, nem o produto de
particularidades nacionais (exemplificadas nos estereótipos quase
racistas relativos aos gregos e espanhóis 'preguiçosos');
são também o resultado directo da crise da zona do euro.
UE: Autoritária, racista e imperialista
Apesar dos esforços continuados dos propagandistas da UE para
apresentá-la como um modelo de democracia e dos direitos humanos, a UE
está a tornar-se cada vez mais autoritária, racista e
imperialista. Para além da permanente erosão da soberania
popular, já referida, temos o racismo institucionalizado de
políticas europeias anti-imigração. A política
oficial de 'desencorajar' imigrantes de chegarem à Europa é, na
realidade, uma política que, de forma consciente e planeada, leva
à repetição de tragédias como as de Lampedusa, de
Farmakonisi, etc.
Simultaneamente, a 'política externa' da União Europeia
também representa o carácter abertamente imperialista do
'Projecto Europeu'. Contra o pleno apoio à agressão contra a
Jugoslávia, aos actuais planos para intervenções militares
na África central e o apoio aberto aos elementos reaccionários e
fascistas na Ucrânia, a União Europeia nunca se ergueu pela paz ou
pelos direitos dos povos.
À luz do que acima se refere, é óbvio que precisamos de
sair do círculo vicioso da austeridade, da recessão e do
desemprego. Precisamos de um programa de medidas radicais e ao mesmo
tempo urgentes para lutar contra a devastação social, um
programa que exija uma estratégia para a saída da zona do Euro e
para a rotura com a União Europeia.
-
A necessária cessação imediata dos pagamentos da
dívida e a anulação da dívida implica um corte com
a União Europeia, que está actualmente entre os principais
credores da Grécia e o mesmo se passa em relação a
libertarmo-nos de toda uma série de leis neoliberais ditadas nos termos
dos acordos de empréstimos.
-
Não pode haver aumentos nas despesas públicas nem
protecção social contra a violência sistémica dos
fluxos de capital internacional sem uma saída imediata da zona do Euro e
sem reconquistar a soberania monetária.
-
As medidas imediatas necessárias, como a nacionalização e
a colocação do sistema bancário e das empresas
estratégicas sob o controlo social democrático, implicam a
desobediência aos tratados e regulamentos europeus. Por
consequência, é mais que óbvio que não pode haver
alternativa radical, progressista ou socialista, no seio dos constrangimentos
económicos e políticos e dos limites impostos pela União
Europeia.
Assim, a rotura com a arquitectura monetária da zona do Euro e com a
moldura institucional da União Europeia em geral também é
um passo democrático necessário, uma tentativa para reclamar a
soberania popular como um processo de 'autodeterminação social'
colectiva através de uma ampla aliança de trabalhadores e outros
estratos populares.
Simultaneamente, este processo pode abrir o caminho para pensar numa nova
perspectiva socialista, uma alternativa de 'paradigma social' em profundo
contraste com a lógica do mercado e do capital. Isso tem que ser
concebido em termos duma experimentação, com formas de controlo
dos trabalhadores, autogestão, redes de distribuição
não-comerciais e planeamento democrático, com base na
experiência e no engenho colectivo do povo em luta.
No entanto, há muita gente de esquerda que insiste que a
'Integração Europeia' é um objectivo e um processo
histórico irreversível que não oferece uma
estratégia possível para a esquerda que não seja tentar
'mudá-la por dentro', através duma mudança do
equilíbrio de forças a favor duma política progressista.
Tem sido esta a principal linha política do Partido da Esquerda Europeia
e dos partidos nela associados ou de teóricos como Toni Negri e Sandro
Mezzandra que, numa recente intervenção pública,
insistiram no processo de a integração europeia estar 'muito para
além do limiar da
irreversibilidade'.
Somos tentados a comparar esta posição com a de muitos
socialistas no início do século XX, que insistiam no
carácter irreversível e mesmo progressista do imperialismo
colonial. É óbvio que o que falta aqui é uma
análise séria da real configuração
económica, política e institucional da União Europeia e,
em especial, da arquitectura monetária e económica da zona do
euro, e também do facto de que estamos a lidar com estratégias de
classe e não com tendências 'objectivas'.
Simultaneamente, tem havido um grande debate na esquerda europeia relativo a
esta estratégia duma saída da zona do Euro e, possivelmente, da
União Europeia. Há muita gente que acusa esta estratégia
de ser 'nacionalista', 'chauvinista' ou de 'visar uma competição
económica acrescida'. Nada está mais longe da verdade.
Para tomar o caso grego como exemplo, essa estratégia não
é uma estratégia para uma competitividade acrescida da economia
grega através da desvalorização e do aumento das
exportações. As medidas necessárias, como a
correcção da taxa de câmbio, pretendem proteger a sociedade
grega da violência sistémica inerente nos fluxos de capital
internacional e mercadorias. Nada tem a ver com um ciclo de
desvalorizações competitivas contra outros países do sul
europeu. Sabemos, pela experiência do euro, mas também por outros
sistemas de taxas de câmbio fixas (como a indexação ao
dólar) que uma divisa única leva sempre à
redução dos salários reais, a medidas de austeridade, a
privatizações e à constante pressão para reformas
neoliberais sob o pretexto de responder a pressões competitivas. Sair
destas configurações monetárias não é uma
estratégia para o 'isolamento', mas uma defesa necessária contra
políticas capitalistas agressivas. Além do mais, seria um erro
aceitar, em nome do 'internacionalismo', a actual forma de
internacionalização capitalista de produção, em que
um produto tem que dar a volta ao mundo, passar por áreas de 'dumping'
social e 'zonas económicas especiais' que têm um impacto ambiental
negativo, até chegar ao nosso mercado. A localidade, a
protecção ambiental, a auto-suficiência relativa não
são aspectos cruciais de qualquer possível alternativa
anti-capitalista?
A resposta habitual a estas perguntas, por parte de muita gente da esquerda
europeia, tanto 'reformistas' como 'anti-capitalistas' é que, a
nível europeu, através de lutas coordenadas, é mais
fácil ter lutas com êxito e movimentos vitoriosos. No entanto, a
pergunta óbvia é esta: Porque é que é mais
fácil, a nível europeu, com 28 países diferentes, com
tradições diferentes de política de esquerda e radical, e
diferentes níveis de organização do movimento laboral, com
diferentes conjunturas nacionais, económicas e sociais, do que a
nível nacional, onde podemos imaginar determinados países que
têm uma condensação de contradições e uma
dinâmica de contestação social, de protesto e de
mobilização que os podem tornar em possíveis 'elos fracos
da cadeia'?
Seria errado identificar hoje o internacionalismo com o nosso consentimento a
um projecto neoliberal agressivo e imperialista. Além do mais, nunca
podemos esquecer que a integração europeia é uma
estratégia de classe por parte das elites capitalistas e, portanto,
não servem de nada as referências fatalistas e deterministas ao
seu carácter irreversível. Especialmente, porque tal
insistência quanto à inevitabilidade da integração
europeia pode levar a cisões cruciais na direcção
política. Pode levar facilmente à cisão de uma atitude
inicial de uma posição 'radical' a favor da
'dissolução da UE' através da luta anti-capitalista
pan-europeia para uma posição mais 'realista' a favor de 'outra
Europa' e de 'outra UE' sem neoliberalismo e sem défice
democrático, com um BCE virado para a solidariedade, com
redistribuição de fundos, etc. Mas é impossível
existir uma UE 'boa'. Devemos sempre recordar a refutação do
'argumento ontológico' relativo à existência de Deus: o
facto de podermos pensar numa coisa ou de imaginá-la, não
significa que ela exista realmente.
Um dos problemas hoje da esquerda na Europa é exactamente este
europeísmo obsessivo, a recusa em pensar sequer numa possível
rotura com o processo de 'integração europeia'. Podemos
testemunhar este problema nos limites da estratégia do SYRIZA na
Grécia. Considerar como garantidos todos os constrangimentos impostos
pela zona do Euro e pela UE não deixa muito espaço para uma
política radical, a não ser o pedido duma
renegociação das condições do acordo de
empréstimo, para uma qualquer forma de 'austeridade com um rosto humano'
ou o pedido de um 'Plano Marshall' para a Europa. Nos últimos meses,
temos visto o SYRIZA a resvalar constantemente para a direita, declarando que,
quando estiverem no governo, pagarão a maior parte da dívida
depois de uma renegociação e manter-se-ão no Euro custe o
que custar (abandonando a sua posição oficial de nenhum
sacrifício pelo euro), a tentar forjar elos com grandes bancos e
grandes negócios. É mais que óbvio que estas
posições não levarão à
'renegociação' que os líderes do SYRIZA desejam, mas a uma
pressão ainda maior por parte da UE e da Troika para mais medidas de
austeridade. O problema com a direcção do SYRIZA não
é eles serem 'reformistas de esquerda', no sentido em que não
são suficientemente militantes, nem no sentido de que estão a
optar por uma abordagem gradual. O problema é que recusam a
necessária rotura política e social com a 'União Europeia'
enquanto condensação da estratégia burguesa.
Essa recusa em articular uma linha política contra a União
Europeia deixa em aberto um espaço crucial para a extrema-direita
projectar a sua versão reaccionária de 'eurocepticismo'. Apesar
do crescente ressentimento de grandes segmentos de sociedades europeias contra
o carácter neoliberal, antidemocrático e agressivo da
União Europeia, apesar da crescente hostilidade contra o Euro enquanto
divisa única, apesar da crescente descrença em
relação à UE enquanto tal, a maior parte dos partidos da
esquerda europeia não faz um esforço especial para transformar
esses sentimentos num discurso anti-UE, anti-capitalista e progressista. Por
conseguinte, cria-se um vazio político que a extrema-direita está
agora a tentar preencher. Não aparece o necessário
'eurocepticismo da esquerda' numa altura em que é preciso mais do que
nunca. Pelo contrário, a maior parte dos partidos do Partido Europeu da
Esquerda, mas também muitas tendências anti-capitalistas,
recusa-se a tomar posição numa questão tão crucial.
O caso francês exemplifica este problema: a recusa da esquerda,
principalmente por parte do Partido Comunista Francês, em pensar em
termos duma rotura com o Euro e com a UE, fez com que a Frente Nacional, de
extrema-direita, reaccionária (e pró-negócios) parecesse
ser a única força política eurocéptica.
É pois urgente abrir o debate no seio da esquerda europeia e da
elaboração colectiva duma possível alternativa radical,
anti-Euro e anti-UE. Felizmente, há sinais de que segmentos da esquerda
estão a abandonar o seu europeísmo obsessivo. Em França,
tanto no seio da Front de Gauche (Frente de Esquerda) como do NPA (Novo Partido
Anti-capitalista), há vozes que reclamam uma estratégia de rotura
com a União Europeia. Na Grécia, não só a ANTARSYA,
a Frente da Esquerda Anti-capitalista e outros grupos radicais, mas
também a 'Plataforma de Esquerda' no interior do SYRIZA, têm
insistido numa estratégia para a saída da Grécia da zona
do Euro e, possivelmente, da UE. Em Chipre, até o AKEL está a
mudar lentamente de posição, depois da experiência
desastrosa de 2013. Na Alemanha, há muitas vozes no interior do Die
Linke que criticam a divisa única. Na Grã-Bretanha, ainda
há muitas vozes na esquerda que insistem numa posição
anti-UE.
No entanto, se é errado considerar a saída da zona do Euro e,
potencialmente, da UE como uma panaceia para todos os problemas sociais,
também é errado subestimar a importância destas
questões. O anti-capitalismo não pode ser abstracto. Deve ser
sempre expresso e concretizado em questões e desafios particulares.
A questão do Euro e da UE
Actualmente, no seio da esquerda europeia, a questão da
posição em relação à zona do Euro e à
União Europeia traça a necessária linha de
demarcação. Além disso, tal como mostra a história
do movimento laboral, as questões que têm a ver com a
articulação entre lutas a nível nacional e a
configuração do sistema internacional, agem sempre como pontos de
condensação de contradições e como provas-do-nove
para a capacidade de a esquerda ser realmente antagónica da
estratégia capitalista.
Simultaneamente, tentar encarar este tipo de alternativa, não só
em termos de 'frases apelativas' quanto ao 'poder dos trabalhadores' mas em
termos da articulação duma narrativa que pode ser
antagónica do discurso neoliberal dominante, exige uma
confrontação com os problemas e paradoxos estratégicos da
maior parte das tendências da esquerda contemporânea. Exige:
-
A articulação do programa (e das linhas básicas de
demarcação como a anulação da dívida, a
saída do Euro e da UE, as nacionalizações, a
redistribuição dos rendimentos, a implementação de
formas de controlo social democrático, etc) em propostas radicais
concretas que tomem em consideração a experiência e o saber
dos movimentos.
-
A insistência na escalada das lutas e uma estratégia duma
'prolongada guerra popular', porque é impossível ter qualquer
mudança política sem um forte movimento de base, sem uma ampla
aliança social e política que esteja confiante quanto à
sua possibilidade de travar lutas vitoriosas. Em contraste, um sentimento de
derrota ou de impotência entre os trabalhadores e outros estratos
populares só pode levar à fragmentação e a uma luta
individualizada pela sobrevivência, uma tendência que dará
cabo da política de esquerda!
-
A confrontação com as questões em aberto da
estratégia revolucionária e a necessidade de elaborar uma
estratégia de esquerda que possa aliar a luta contra o governo, baseada
no necessário programa de transição, com formas de
auto-organização, autogestão, controlo dos trabalhadores e
solidariedade da base, numa versão contemporânea duma
estratégia de 'poder dual'.
-
A experimentação com novas formas de organização
política, para além tanto do modelo da seita anti-capitalista
como da frente eleitoral sem elaboração programática e
processo democrático, rumo a uma redefinição de partidos e
frentes políticas como laboratórios de massa crítica da
intelectualidade política, como processos e locais de aprendizagem
capazes de realmente produzir narrativas alternativas para as sociedades.
Porque, hoje em dia, pelo menos nos 'elos mais fracos da cadeia', como a
Grécia, o desafio não é a resistência, mas a
hegemonia. Confrontado com uma grave crise de hegemonia, provocada pela crise
do neoliberalismo e por um impressionante ciclo de protesto e
contestação de carácter quase insurreccional, uma crise
hegemónica que não é possível disfarçar com
a actual táctica de 'fuga para a frente', cínica e ultraliberal,
adoptada pelas burguesias europeias, o desafio para a esquerda em cada
país é tentar forjar um novo bloco histórico: a
combinação de uma ampla aliança das classes subalternas,
de um programa radical e de novas formas de organização social e
política. Recusar a 'Via Europeia' e o 'Projecto Europeu de
Integração', nomeadamente a principal escolha estratégica
das burguesias europeias desde o final da II Guerra Mundial, é um
aspecto indispensável de qualquer tentativa para uma nova perspectiva
socialista para o século XXI.
07/Abril/2014
[*]
Ensina teoria social e filosofia social e
política no Departamento de Sociologia da Universidade do Egeu. Este
texto baseia-se numa apresentação na reunião ANTARSYA K
(29/Março/2014) e foi publicada no seu blog
lastingfuture.blogspot.gr
.
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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