UE, "Nós somos o povo!"
Londres, Berlim, Roma, Madrid, Bruxelas, Estocolmo. E Paris. Se um
europeísta tivesse saído da UE há alguns anos e voltasse
hoje, ficaria aturdido, desorientado e aniquilado. Para onde quer que olhasse,
só descobriria ruínas e cataclismos...
Começando por um facto literalmente histórico: pela primeira vez,
um país deixará a União Europeia depois o de ter decidido
democraticamente. Certamente, os sobressaltos não acabaram. Mas, de uma
maneira ou de outra, mesmo num momento um pouco mais tarde que o esperado por
alguns, o Reino Unido recuperará o controlo sobre as suas leis, o seu
dinheiro, as suas fronteiras.
A Alemanha, por sua vez, tem mergulhado desde as eleições de
Setembro de 2017 numa instabilidade política duradoura.
Eleições regionais calamitosas, coligação hesitante
e renúncia forçada da patroa dos democratas-cristãos:
ninguém se atreve a prever o fim deste caos que paralisa Berlim no
cenário europeu.
Em Roma, o pesadelo da Comissão Europeia tornou-se realidade: a
coligação barroca de "populistas" e
"extrema-direita" está no poder e não se sente
vinculada pelas regras sagradas do euro. É certo que sinais de
compromisso são enviados para Bruxelas. Mas o facto está
aí: um dos países de maior reputação
euro-entusiasta durante décadas virou a casaca.
A Espanha foi há alguns meses ainda descrita como um dos últimos
países imunizados contra a extrema-direita. No entanto, o partido VOX,
até agora marginal, acaba de entrar de forma estrondosa no parlamento
regional da Andaluzia, e tem esperanças realistas de unir forças
com o Partido do Povo (conservador) para se associar ao poder em Madrid, talvez
já em 2019. A Bélgica mergulhou numa crise governamental. A
Suécia ainda não tem governo, quase quatro meses depois das
eleições.
E se o nosso recém-chegado tentasse consolar-se voltando-se para o
Leste, o show terminaria em desespero. A Polónia, e mais ainda a
Hungria, está em conflito com a UE, que iniciou um processo contra eles
por "danos graves ao Estado de direito". Quanto à
Roménia, está prestes a juntar-se ao campo das ovelhas negras
"iliberais", mas lá com um governo social-democrata. Pior de
tudo: Bucareste assumiu a partir de 1 de Janeiro a presidência semestral
do Conselho da UE.
No que representa para os fãs da Europa um campo de ruínas e
minas, a França não pode ser esquecida. Pode até pensar-se
que o movimento dos coletes amarelos constitui, entre os vinte e oito e fora do
Brexit, a crise mais ampla, profunda e perigosa para a integração
europeia.
Partindo de uma rejeição muito legítima de um imposto
adicional sobre o combustível que visa oficialmente impor a
"sobriedade energética" para "evitar o fim do
mundo", essa mobilização combina na mesma dinâmica a
irrupção da questão social, através da
revelação que a pobreza e o mal-estar não são o
destino dos "excluídos", mas de milhões de
famílias que compõem o mundo do trabalho e a proeminência
da questão nacional, evidenciada pela omnipresença da bandeira
tricolor e da Marselhesa.
Duas palavras voltaram como leitmotiv: poder de compra para viver com
decência e soberania popular, para decidir juntos. Uma
auto-politização acelerada resumida em uma fórmula:
"nós somos o povo". Explosivo e devastador para um Presidente
da República que simboliza a riqueza descarada e uma assumida
arrogância.
Mas ele não é apenas demonizado no Hexágono francês.
Ele perdeu grande parte do seu crédito entre a elite da UE que,
há um ano, o via como o jovem e brilhante salvador da Europa. A imprensa
alemã, em particular, não lhe perdoa ter caído do seu
pedestal jupiteriano. É o fim das esperanças em reformas
"audaciosas e ambições europeias declamadas no
discurso da Sorbonne.
Concluindo a sua intervenção solene de 10 de Dezembro, o senhor
do Eliseu usou em particular duas fórmulas: "a minha única
preocupação sois vós"; "a nossa única
batalha é pela França". A primeira é uma
admissão involuntariamente humorística; a segunda é
obviamente uma fraude, mas revela a força de um movimento que obrigou o
campeão da "soberania europeia" a fazer passar naquela noite a
Europa por um ajuste de contas.
Já nada será como dantes.
[*]
Redactor-chefe do mensário
Ruptures
O original encontra-se em
ruptures-presse.fr/...
e em
www.legrandsoir.info/nous-sommes-le-peuple.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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