É preciso romper com o euro
A derrocada da Espanha também se pode dar
dentro
da zona euro, afirma investigador espanhol
por Alberto Montero Soler
[*]
entrevistado por Natalia Aruguete
- Por que chama a Espanha de país "falido"?
Porque o volume dos seus passivos, das suas dívidas, é maior
do que o dos seus activos. Se fosse uma empresa, a Espanha estaria falida. O
volume
da dívida que contraíram os particulares, as empresas, as
famílias e o sistema financeiro, somada à que agora está
contraindo o sector público, num contexto marcado por problemas de
défice fiscal, torna absolutamente impossível pagar a
dívida.
- Que decisões o governo deveria tomar?
-Reestruturar a dívida, não só alargando os prazos,
mudando as taxas de juro e estabelecendo um período de
carencia, mas também fazendo uma quitação . Grande parte
dessa dívida deve ser assumida pelos credores, que
emprestaram dinheiro e não avaliaram correctamente a parte do risco em
que estavam a incorrer ao emprestar globalmente tal valor. Embora cada credor,
individualmente, tenha tido uma postura cuidadosa, o resultado geral é
uma dívida impossível de cumprir.
- Acha que há vontade política para implementar essa iniciativa?
-Não, nenhuma. Isto é a América Latina dos anos 80 e
início dos 90. Trata-se de os credores espremerem os devedores
até mais não poder. E depois será o que já se sabe.
- O que é que já se sabe?
- Que não vamos poder pagar a dívida. Então, para
quê tanto ajuste, tanto sacrifício, se vai chegar um momento em
que esta solução terá de se colocar? Por quê tanta
dor nas pessoas, na sociedade, quando a solução final é
uma só? Não se pode pagar a dívida.
-Alguns países têm solicitado uma reestruturação da
sua dívida, embora com diferenças. A Argentina é um caso,
a Grécia é outro. Que análise faz dessas decisões?
-Nenhuma crise financeira desta natureza se resolveu quando há um
tamanho endividamento sem um processo de reestruturação da
dívida. A primeira coisa que deve ficar clara é existirem
precedentes a mostrar que a solução passa sempre por essa via. Os
credores perdem uma parte, os devedores perdem outra, estabelecendo-se um
compromisso de pagamento que seja viável para uma parte e não
prejudique a outra. Quanto mais cedo se der a reestruturação
entre credores e devedores, menos sofrem os povos. Quando já não
se puder retirar mais água das pedras, a reestruturação
começa a aparecer na agenda política.
- Num cenário marcado por esta falta de vontade política para
pressionar uma reestruturação da dívida, como avalia a
posição da esquerda espanhola acerca desta decisão?
-O governo está comprometido com um discurso absolutamente ortodoxo:
devemos "honrar" as dívidas. Essa palavra tem uma carga
simbólica importante. Acho que a esquerda não aceitou
completamente que o projecto da Eurozona e do euro não é um
projecto que a esquerda possa defender, neste momento, sob nenhuma perspectiva.
Durante todo o processo de Maastricht e a criação da Eurozona, a
ofensiva da esquerda era: "Esta vai ser a Europa do capital ". E
hoje, esta é a Europa do capital. Agora, descobrimos que temos uma
Europa totalmente controlada pelo capital, que se tornou uma área de
rentabilização dos capitais periféricos e centrais, mais
centrais do que periféricos. A esquerda vai transitando entre a
incredulidade de não ter qualquer tipo de discurso face a isto
não consegue entendê-lo nem admiti-lo e ter, em alguns
casos, uma resposta social-democrata keynesiana.
- Qual é essa resposta, concretamente?
-A esquerda diz: "Podemos ficar dentro (da zona euro), mas articulando
políticas fiscais diferentes, sobre os quais tenhamos soberania".
Isto é absolutamente impossível a partir do momento que se tem
regras cada vez mais fechadas e menos espaço para poder fazer
política a nível de toda a Europa. Menos margem de
discricionariedade para os governos nacionais.
- Acha que os governos deveriam ter mais discricionariedade?
- Claro, absolutamente. Se não, para que elejo um governo? Se tenho
regras que me dizem como distribuir o orçamento, então eu
não posso fazer política a partir do orçamento. Uma
segunda questão é que acredito que têm muito medo disso.
- Por quê?
- Colocou-se abertamente, em alguns encontros, a ruptura com o euro. Temem que
isso possa causar um colapso na economia, que de facto pode ocorrer, ou uma
queda no padrão de vida dos cidadãos, que realmente irá
ocorrer. Mas nada garante que dentro do euro isso não vá
continuar a acontecer. O caso grego é claro. Nos últimos anos, a
Grécia perdeu 25 por cento do seu produto interno bruto (PIB). É
um ajuste brutal na economia em apenas três ou quatro anos. A Espanha
está a perder cerca de 4 a 5 por cento do PIB.
-Dada a inviabilidade de continuar no euro, como sugere, que benefícios
a saída do euro pode trazer para a Espanha, em termos por exemplo de
soberania política e económica?
- Todos. Sair do euro não significa sair da UE, que é um dos
primeiros erros que se colocam. Na verdade, de forma inteligente, nem a
Suécia, nem a Dinamarca ou o Reino Unido entraram no euro. E se virmos a
evolução de suas variáveis, todas as variáveis
macroeconómicas relevantes para os principais mecanismos internacionais
(inflação, desemprego, défice público,
dívida pública), todas, em média, ao longo dos dez anos do
euro, estão em melhor situação do que aqueles dentro da
zona euro. Isso com dados da própria Comissão Europeia. Em
segundo lugar, temos um discurso muito pouco motivador.
- Por quê?
Porque não podemos dizer às pessoas: "Olhe, para que tudo
melhore da noite para o dia, os seus padrões de vida devem cair.
"As pessoas encontram-se nesta situação, aquilo que Naomi
Klein chama de "estado de choque". A cada sexta-feira em que temos
uma comunicação dos ministros é para informar um corte nos
direitos sociais, liberdades e níveis de vida. Mas, como se vai
assumindo a conta-gotas, não nos apercebemos que é uma
redução muito importante de nossas condições de
vida.
- Que efeitos positivos teria sair do euro?
-Em princípio, recuperar a soberania e a moeda. Isso é
fundamental, porque permite não estar tão dependente dos Estados
na hora do financiamento e não serem eles quem define a política,
a não ser que haja um estímulo do Banco Central que diga:
"Muito bem, se não me compra a dívida do Tesouro, vai
comprar-ma o Banco Central e então veremos o que fazer." Há
possibilidades de recuperar a economia. A economia espanhola tem sido
desmantelada nos últimos 10 anos em sectores fundamentais: em primeiro
lugar, na construção vimos o resultado de uma bolha
imobiliária que provocou uma queda enorme no PIB e um aumento muito
significativo do desemprego. Por outro lado, o sector dos serviços.
Dentro da zona do euro previa-se desde início que o que iria acontecer
era uma especialização internacional do trabalho.
- Uma decantação entre os países poderosos, com
estruturas económicas sólidas, e países fracos, cuja
debilidade foi aumentando dentro da União Europeia.
-Por muito que integrássemos e compartilhássemos uma moeda comum,
as nossas empresas nunca seriam tão competitivas como as alemãs.
Á Espanha, restava especializar-se no que era competitiva: no turismo,
na cerveja fresca, nas praias e poucas coisas mais. Na verdade, muito da bolha
imobiliária explica-se pelas expectativas dos construtores e do governo
espanhol em relação ao turismo e principalmente ao turismo
residencial.
- Quer dizer ...
- Quer dizer que os do Norte não são estrangeiros, apenas
vêm viver os seus últimos anos no Sul, gastar as suas reformas e
viver num lugar com mais sol. Isso está ligado aos imigrantes e
mão de obra e à loucura especulativa de comprar hoje para vender
amanhã, muito mais caro ... O que é preciso para recuperar a
economia é voltar a diversificar a estrutura de produção.
Obviamente, todos os produtos estrangeiros se vão tornar muito mais
caros, mas também se terão que produzir cá dentro coisas
que já não se poderão comprar lá fora, senão
irá gerar-se uma procura interna de produtos de dentro, que os vai
tornar mais competitivos no preço, mas não em termos de
qualidade. Nem todos teremos carros Mercedes-Benz, mas vamos ter que nos
acostumar a ter um carro mais modesto e nacional. Isso permite que se
faça uma economia ... A partir da perspectiva da esquerda isso é
positivo para a recuperação de soberania económica e da
economia auto-centrada. Sair dessa lógica louca da
globalização, onde todos os bens vêm de muito longe
enquanto, ao mesmo tempo, são desmanteladas as empresas locais que
produzem o mesmo, mas um pouco mais caro.
-Se a moeda comum não beneficia os países periféricos, em
que beneficia os países centrais?
-A Alemanha beneficiou porque teve uma taxa de juros depreciada em
relação à que tinha com o marco. A taxa de câmbio
é marcada pela dinâmica económica na Eurozona e não
só pela procura externa por produtos alemães, por isso a taxa de
câmbio do euro nos últimos 10 anos tem sido menor do que a que
deveria ter tido o marco se a Alemanha tivesse adoptado uma moeda
própria. Isso tem como resultado que a procura externa é muito
grande o que revaloriza a sua moeda. De modo que, a principio, a Alemanha
beneficiou de uma taxa de câmbio depreciada em relação
à taxa de câmbio de equilíbrio da sua economia. Depois,
permitiu-lhe a abertura de um enorme mercado, graças ao qual
desapareceu um dos principais riscos: o risco cambial.
- Por quê?
- Porque os países não podem desvalorizar a sua moeda para fazer
frente à competitividade alemã. Então, ao apoiar o
processo de construção europeia, a Alemanha garantia um mercado
em que os seus concorrentes iam estar em condições desiguais pela
menor competitividade das suas indústrias. Mas, principalmente, porque
não contariam com o estímulo necessário para reequilibrar
as condições comerciais, já que tinham perdido o mecanismo
da taxa de câmbio. Isso favoreceu a Alemanha, que substituiu a procura
interna - que tem sido tradicionalmente fraca - pela procura externa, com as
exportações muito mais potentes contra as quais não havia
possibilidade de competição, nem pela via da competitividade, nem
pela das taxas de câmbio. E, ao mesmo tempo, gerava um superávite
comercial que "lavava", financiando a compra de seus produtos aos
países periféricos. Quer dizer que isso não só era
uma vantagem para o sector industrial alemão, como também para o
sector financeiro alemão, uma vez que não ia poder canalizar a
quantidade de recursos que estavam tendo pela via do excedente comercial, e o
"lavavam" no exterior.
-Hoje, com países "falidos" como a Espanha e a Grécia,
é ainda útil para a Alemanha a permanência desses
países na zona euro?
-Enquanto eles honrarem as suas dívidas, obviamente que sim. Entre
outras coisas, porque a situação do seu sistema financeiro, seja
das caixas seja dos bancos, é muito delicada. Por exemplo, se um grande
banco espanhol decidir que os títulos hipotecários que vendeu aos
bancos alemães sob soberania espanhola valem zero, todo o sistema
financeiro alemão estará falido. À Alemanha interessa que
se faça a "lavagem" dentro do sistema bancário espanhol
para evitar que ele atinja o seu sistema, que já tem o vírus, mas
não ainda o suficiente para a doença se desenvolver.
- Quais são as consequências de o ajuste que está sendo
realizado em países periféricos da União Europeia,
representar uma tão alta percentagem do PIB?
- Os programas de ajuste duros, leves e moderados, que se estão
implementando nos países periféricos, mais a Bélgica,
Holanda e França afectam mais de 60 por cento da economia europeia. Isto
significa que temos dois terços da economia europeia com
políticas pró recessivas, que não estimulam o crescimento.
É apenas um terço da economia europeia tentando puxar todo o
comboio europeu. Em economias como a espanhola, o défice da conta
corrente não se está resolvendo por estarmos exportando mais -
apesar de ser um pouco mais - mas porque a actividade económica interna
está praticamente em estado de encefalograma ... com as
importações a cair brutalmente. O que se estava importando da
Alemanha, da Holanda ou de outros lugares já não se importa mais
porque não há nenhuma actividade produtiva. Isso faz com que os
dois terços da zona euro aprofundem a crise, arrastando necessariamente
todas as economias, porque estão todas conectadas num mesmo projecto,
mas sem os instrumentos que permitiriam compensar os desequilíbrios de
cada uma.
- Acha que a insistência em políticas "pró
recessivas" parte de uma convicção dos governantes ou, na
verdade, existem outros interesses a nível da UE que impedem de, mais ou
menos explicitamente, modificar o sentido dessas políticas?
-Não acredito que a austeridade tenha razões políticas.
Parecer-me-ia grave pensar que as políticas do Norte são para
punir o nosso "amor excessivo pela festa" (o feriado), face à
sua ética protestante e calvinista do trabalho, de algum modo em
declínio. Acho que a austeridade se impõe como um mecanismo para
cumprir dois objectivos encobertos. O primeiro é que ao aplicar
programas de austeridade irá progressivamente impor a
privatização do sector público; há capitais
privados que encontram na privatização destes serviços
públicos um nicho rentável num ambiente onde as taxas do capital
na Europa são caindo significativamente. No desmantelamento do Estado de
bem-estar social reformas, educação e pensões
encontram uma fonte de rentabilidade. E isso leva a que os planos de
austeridade se chamem de "privatização". Porque o que
se privatiza são as áreas rentáveis, ninguém iria
comprar uma empresa pública falida. Essa fica e logo se vê o que
se faz com os trabalhadores.
- Por que é que em Espanha decidiram finalmente não privatizar o
serviço de água?
-Não é que (essa decisão) tenha sido uma vitória da
mobilização popular, apenas não encontraram ninguém
que a achasse rentável. Só se privatiza a educação,
saúde, prevenção e aeroportos. O segundo objectivo
encoberto é o de que as políticas de austeridade estão
destinadas a ... por exemplo, a reforma do artigo 135 da
Constituição é um exemplo claro.
- Em que sentido?
-No sentido de que nos é dito: "O Estado pode fazer com os
orçamentos o que lhe der na gana, mas primeiro está o pagamento
dos juros da dívida". É uma política destinada a
desmantelar a área do Estado de bem-estar social e manter, ao mesmo
tempo, os pagamentos de juros e da dívida. No Orçamento Geral do
Estado deste ano destina-se mais orçamento para pagar os juros sobre a
dívida do que para o pagamento de funcionários públicos.
Não se impõem políticas de austeridade para dizer:
"Vamos estabelecer um limite para a dívida, porque entendemos que
isso supõe uma transferência de dinheiro dos cidadãos para
o sector financeiro". A austeridade é sempre imposta sobre
determinados itens e não sobre outros.
- Como por exemplo?
-Por exemplo, há uma ofensiva contra as pensões, argumentando que
"a sociedade espanhola está envelhecendo e, portanto, temos que
reformar o sistema de pensões que é insustentável." E
nós pensamos: como o financiamento das pensões depende das
contribuições para a segurança social dos trabalhadores
por um lado, e dos gastos dos pensionistas, por outro, se há desemprego
elevado e os descontos baixam, mantendo a tendência de reformas, é
evidente que temos que corrigir isso, porque há um desequilíbrio
fiscal. Parece razoável. Mas quando se olha para outras rubricas
orçamentais, tais como os militares, não há cálculo
de custo e beneficio, porque se defende que se deve ter um exército e
temos que o pagar entre todos, custe o que custar. É uma lógica
perversa que se aplica em função do resultado que queremos obter,
porque a lógica de austeridade também poderia aplicar-se á
dívida pública.
28/Janeiro/2013
[*]
Docente e investigador em Economia Aplicada da Universidade de Málaga.
O original encontra-se em
http://www.pagina12.com.ar/diario/dialogos/21-212737-2013-01-28.html
. Tradução de Guilherme Coelho .
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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