Saída do Euro?
por Alberto Montero Soler
[*]
entrevistado por Gorka Larrabeiti
Gorka Larrabeiti: Acontece que Hollande e Merkel, assim como o presidente do
Banco Central Europeu, Mario Draghi, querem que a Grécia se mantenha no
euro. Nas páginas do
Financial Times,
Arvind Subramanian diz que a saída da Grécia pode tornar-se um
exemplo para a zona do euro, já que outros países podem querer
seguir-lhe as pisadas. O senhor escreveu, já há muito, que o
problema não é a Grécia mas o euro. Euros que os gregos
estão a levantar dos bancos. O que é que pensa quanto ao que
está a acontecer actualmente? Explique-nos: quais serão os
efeitos positivos da saída do euro?
Alberto Montero Soler: Antes de mais nada, devo dizer que esses efeitos
só se manifestarão a médio prazo. Propor a saída do
euro como solução imediata para a deterioração das
condições de vida das pessoas seria enganá-las.
Encontramo-nos numa encruzilhada em que as economias periféricas
só podem escolher entre dois males.
O primeiro, que parece ser o mais provável, é um ajustamento
lento mas sem fim no seio da zona do euro, cujas condições
económicas e produtivas e condições de vida serão
polarizadas entre o núcleo e a periferia. A divisão internacional
do trabalho que tem vindo a ser imposta ao longo dos anos é
difícil de inverter e, num contexto de deslocalização da
produção, que é o nosso contexto, é praticamente
impossível a reindustrialização do Sul (com
excepção talvez do caso da Irlanda graças à sua
"generosidade" fiscal para os lucros empresariais, uma forma
espúria de competição como qualquer outra). Estamos
condenados a ser economias de serviços orientadas para os
cidadãos de um centro próspero e além disso temos que
competir com novos actores que entram na competição internacional
(por exemplo, as economias africanas no que diz respeito ao turismo).
O segundo é a saída do euro que, apesar do provável choque
muito grave para a economia, ou seja, do seu impacto forte e rápido, nos
permitirá estabelecer as bases de recuperação a
médio prazo. Obviamente, este caminho tem muito menos poder para
mobilizar socialmente as pessoas do que o primeiro, já que significa que
as pessoas têm que aceitar que, de um dia para o outro, os seus
níveis de vida vão diminuir muito. Mas, dada a tensão
social que está a ser provocada pelo ajustamento no seio da zona do
euro, esta possibilidade, num contexto de deterioração continuada
dos padrões de vida das pessoas, está a tornar-se cada vez menos
remota. Cá no fundo, sabemos o que nos espera: lá fora talvez o
sol volte a brilhar. E o que as experiências recentes de incumprimento de
dívidas e de desvalorização nos têm ensinado
é que o Sol voltará a brilhar mais cedo do que se pensa.
Para isso, é necessário ter em conta o facto de que o principal
efeito da saída do euro será uma desvalorização
muito acentuada e significativa, inicialmente, da nova divisa nacional. Por
exemplo, no caso da Grécia, o banco de investimentos Nomura, calculou
que, num horizonte de cinco anos, a nova divisa grega deverá
depreciar-se em mais de 57% em relação à paridade
euro/dólar (no caso da Espanha essa depreciação
será superior a 35%).
Isso tem um impacto tremendo na economia: colapso do PIB; desemprego mais alto;
crise da banca que levará à falência grande parte do
sistema financeiro; e inflação mais alta em consequência de
preços de importação mais altos.
Sem entrar noutro tipo de considerações relacionadas com o facto
de que a saída do euro será necessariamente acompanhada pela
suspensão de pagamentos ordenados e pela renegociação da
maior parte das dívidas ainda em vigor, posso dizer que essa fase
abrirá possibilidades insuspeitadas numa situação que, se
tivermos em atenção as lições da história
recente de crises provocadas pelas suspensões do pagamento de
dívidas e pelas desvalorizações, será muito menos
catastrófica do que os economistas convencionais costumavam prever antes
destas crises. Como diz J.K. Galbraith, "A única
função das previsões económicas é fazer com
que a astrologia pareça respeitável".
Há diferentes ordens de possibilidades nessa nova situação.
Primeiro, as possibilidades relativas à possibilidade de o governo
recuperar ferramentas de política económica e portanto
também de soberania económica, até agora enfeudadas a
órgãos supranacionais cujos interesses não coincidem
necessariamente com os dos cidadãos, ou melhor, lhes são
perfeitamente opostos, conforme esta crise demonstrou de forma brutal.
Penso que quem acredita na necessidade de ultrapassar o capitalismo ou,
pelo menos neste momento, de ultrapassar esta sua versão
implacável terá que ter muito claro este ponto: este
projecto de emancipação é impossível no seio da
zona do euro e, portanto, ou este projecto é construído fora dele
ou será posto de lado por impossível de concretizar. E, apesar de
não haver evidentemente garantias de que esse projecto será
construído fora dele, não o construir será o resultado
duma decisão soberana e não duma imposição velada.
Segundo, possibilidades de recuperação económica que, a
princípio, surgirão necessariamente através de
exportações estimuladas pela desvalorização da nova
divisa, exportações que só podem ser estimuladas hoje pela
deflação dos salários dos trabalhadores. É esta
exactamente a principal vantagem que os economistas convencionais atribuem
à saída de um país do euro.
Apesar disso, essa não é a única vantagem porque, para
além disso, a desvalorização, tornando as
importações dispendiosas, oferecem novas possibilidades fora dos
parâmetros da lógica económica convencional. Assim, o
choque permitir-nos-á reconstruir uma rede de trabalho muito mais
centrada internamente, menos dependente do comércio internacional
flutuante e muito mais virada para a economia interna. Dessa forma, será
possível estimular, quase naturalmente, o comércio com os
vizinhos, formas de produção de economia social, orientada para a
comunidade, e a produção para o bem-estar dos cidadãos
através do fornecimento de serviços sociais, i.e.,
reforçar uma estrutura de produção de bens e
serviços centrada na satisfação das necessidades dos
cidadãos, tendo mais respeito pelo ambiente.
Neste aspecto, a experiência da Argentina durante a crise mostra-nos mais
uma vez coisas interessantes como o aparecimento de formas de
produção, propriedade e comércio fora da lógica
capitalista, algumas das quais ainda se mantêm, por exemplo o caso de
fábricas ocupadas e sob o controlo dos trabalhadores.
E, por fim, a bancarrota de grande parte do sistema bancário
também constitui uma oportunidade para reconstrui-lo numa base social de
bancos públicos orientados para o financiamento de empresas produtivas e
para o acesso da população a um consumo equilibrado, ao
contrário dos padrões financiarizados do actual desempenho da
banca.
Creio que estas, entre outras, são algumas das oportunidades que se
abrirão a um país que enfrenta a perspectiva da saída do
euro. Uma perspectiva que cada dia se torna menos longínqua e mais
presente, principalmente para os principais poderes económicos
basta ver que a maior parte dos grandes bancos de investimento mundiais
analisam nos seus relatórios os impactos que a dissolução
da zona euro terá nos seus negócios. E não só eles
as empresas alemãs, por exemplo, também estão a
preparar-se para isso.
[*]
Professor de Economia Aplicada, Universidade de Málaga, e Presidente
da Fundação CEPS. O texto acima é um excerto de "Los
vampiros de Europa; Entrevista al economista Alberto Montero Soler"
(Rebelión, 01/Junho/2012).
A versão em inglês encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/2012/ams080612.html
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Tradução de Margarida Ferreira.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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