A Comissão Europeia é ele
por José Goulão e Pilar Camacho
A Comissão Europeia é ele. Entrou por golpe palaciano; o
Parlamento Europeu exige-lhe, provavelmente em vão, que se vá
embora; nenhum comissário lhe faz frente; chamam-lhe "O
Monstro","Rasputine de Bruxelas", põe e dispõe de
Juncker enquanto este titubeia de reunião em reunião, está
de pedra e cal e dispôs as pedras do xadrez para assegurar o futuro.
Martin Selmyr
secretário-geral da Comissão, alemão, ao
serviço do governo alemão, num órgão alemão
que dirige uma
comunidade germânica
.
Martin Selmyr personifica como poucos o que é a Comissão
Europeia, a sua relação com os cidadãos, com os restantes
órgãos da União, com as leis que a deveriam reger: uma
autocracia burocrática e tecnocrática.
O Parlamento Europeu chegou agora à conclusão, por esmagadora
maioria, de que Martin Selmyr "deve demitir-se". Do cargo oficial que
desempenha, o de secretário-geral da Comissão Europeia, porque
"não respeita os princípios da transparência, da
ética e do Estado direito". Uma coisa é o Parlamento decidir
e outra coisa, nesta União Europeia, seria o Parlamento alimentar a
ilusão de que a sua exigência irá cumprir-se. Era como
acreditar no Pai Natal.
"O Monstro"
Martin Selmyr é secretário-geral mas também chefe de
gabinete, de facto, do presidente da Comissão Europeia, seu enviado para
as negociações internacionais. Entrou em Fevereiro de 2018
mercê de um golpe palaciano logo denunciado em Abril pelo Parlamento
Europeu, mas sem quaisquer consequências práticas.
Está em toda a parte, desmantelou os serviços jurídicos da
Comissão, distribuiu cargos pelos seus peões, afastou quem
não lhe convinha ou não lhe agradava, comanda os múltiplos
processos de caça às bruxas. Faz tudo o que interesse ao governo
alemão: quando Donald Trump decidiu carregar os produtos europeus com
tarifas alfandegárias foi Selmyr quem realmente negociou com Washington
a isenção temporária dos seus efeitos sobre a
indústria automóvel, isto é, os grandes impérios
alemães do sector. Selmyr cedo granjeou o cognome de "O
Monstro", com o qual vive confortavelmente.
Na posição tomada em Abril, o Parlamento Europeu "lamentou
vivamente" que a Comissão tenha decidido manter Selmyr no cargo,
"apesar das numerosas críticas dos cidadãos da União
e dos prejuízos que tem causado ao prestígio da
União". Há um óbvio exagero de
avaliação do Parlamento Europeu, porque ninguém
desprestigia mais a União do que o seu próprio funcionamento
geral, mas não foi certamente por isso que Selmyr prosseguiu e prossegue
a sua tarefa.
Já com os olhos no futuro próximo, em que vai haver
eleições e mudanças em alguns órgãos da
União, que não seguramente nos seus procedimentos e guiadas pela
vontade dos cidadãos.
Um homem com futuro
Martin Selmyr foi-se prevenindo a tempo. Contribuiu a fundo para que o
principal candidato a substituir Jean-Claude Juncker seja o direitista
alemão
Manfred Weber
, com o qual terá o cargo de secretário-geral assegurado por
inerência. Um dos seus principais parceiros políticos
alemães, na esteira de Angela Merkel e respectiva sucessora, é o
ministro da Economia, Peter Altmaier, que deverá ser o próximo
comissário alemão.
Porém, pode dar-se o caso improvável, é certo
de o próximo presidente da Comissão não ser
alemão, mas sim francês. Ao contrário das previsões
iniciais perante eventuais favoritos, o principal candidato dessa área
é agora
Michel Barnier
, sobretudo depois de ser o titular da pasta de negociação do
Brexit, que caiu nas suas mãos graças aos esforços
diligentes de Martin Selmyr.
Entretanto, prevenindo-se de uma hipotética derrota perante a
França, a Alemanha conseguiu um antídoto nos bastidores
palacianos: garantir o cargo de secretário-geral da Comissão para
um alemão, isto é, Martin Selmyr, a quem Michel Barnier deve o
grande favor da ascensão. Uma mão não se lava
sozinha
A política da Comissão Europeia é ele, Martin Selmyr. E
assim se faz a política da União Europeia, em nome, naturalmente,
dos cidadãos, da democracia e dos direitos humanos.
Martin Selmyr é o homem certo, no lugar certo, por ser o mais
apetrechado para lá chegar. Não apenas por ser alemão,
requisito indispensável; mas também porque é, segundo as
palavras com as quais se apresenta a visitantes, "o homem mais inteligente
da Comissão", e também aquele sem o qual "nada disto
funcionava".
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=172
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