Consequências do mundo unipolar

por Alexander Lukashenko [*]

Sr. Presidente,
Senhoras e Senhores,

Ter uma visão honesta do mundo de hoje é a razão porque tantos chefes de estado congregaram-se aqui nas Nações Unidas. Em conjunto devemos ganhar a compreensão do principal: será que conduzimos os nossos países e a espécie humana pelo caminho correcto? Deveríamos responder esta pergunta a nós mesmos e aos nossos países. Sem isto não temos possibilidade de sair do impasse em que nos encontramos.

Quinze anos se passaram desde a fragmentação do meu país, a URSS. Aquele evento dramático alterou a ordem mundial. A União Soviética, apesar de todos os erros e das asneiras dos seus líderes, era a fonte de esperança e o apoio de muitos estados e povos. A União Soviética proporcionava o equilíbrio do sistema global.

Hoje o mundo é unipolar, com todas as consequências que daí derivam. A outrora próspera Jugoslávia foi devastada e desapareceu do mapa da Europa. O sofrido Afeganistão tornou-se uma estufa de conflitos e tráfico de drogas. No Iraque de hoje continua uma carnificina sangrenta. O país tornou-se uma fonte de instabilidade para uma vasta região. O Irão e a Coreia do Norte são olhados através do cano das armas.

A Bielorússia é um país tal como a maioria representada nesta sala. Tendo emergido dos escombros da Guerra Fria, a Bielorússia tornou-se um estado de ciência e tecnologia avançada habitado por dez milhões de pessoas altamente educadas e tolerantes. A ONU classifica-nos como um país desenvolvido com um alto nível de desenvolvimento humano.

Tal como vocês, o que precisamos do mundo é paz e estabilidade. Nada mais. O resto criaremos por nós mesmos através dos nossos próprios esforços. O meu país está livre de conflitos. Diferentes nações e nacionalidades coexistem pacificamente na Bielorússia, cada uma a praticar as suas próprias religiões e tendo o seu próprio modo de vida.

Nós não causamos qualquer perturbação aos nossos vizinhos, nem através de reivindicações territoriais nem tentando influenciar as suas escolhas do caminho de desenvolvimento.

Nós abrimos mão das nossas armas nucleares e voluntariamente abdicámos os direitos de um sucessor nuclear para a URSS.

Hoje assinaremos a Convenção para a Supressão de Actos de Terrorismo Nuclear. Também declaramos ter decidido assinar o Protocolo Adicional para o Acordo entre a República da Bielorússia e a Agência Internacional de Energia Atómica para a Aplicação das Salvaguardas em Conexão com o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Estabelecemos uma duradoura e bem sucedida união com a Rússia, o nosso vizinho mais próximo.

Construímos o nosso país utilizando o nosso próprio engenho e na base das nossas próprias tradições.

Mas é óbvio que esta opção específica do meu povo não é do agrado de toda a gente. Ela não agrada aqueles que aspiram dirigir o mundo unipolar.

Querem saber porque?

Se não há conflitos — eles são inventados.

Se não há pretextos para intervenção — são criados alguns imaginários.

Com esta finalidade foi escolhida uma bandeira muito conveniente — democracia e direitos humanos.

E não no seu sentido original do domínio do povo e da dignidade pessoal, mas única e exclusivamente de acordo com a interpretação da liderança americana.

Será que o mundo realmente se tornou preto-e-branco, privado da sua diversidade de civilizações, de tradições multicoloridas e de modos de vida que reúnem as aspirações dos povos?

Certamente que não! Trata-se simplesmente de um pretexto conveniente e de um instrumento para controlar outros países.

Lamentavelmente, as Nações Unidas, embora pertençam a todos nós, deixa-se utilizar como ferramenta de tal política. Digo isto com particular amargura e sofrimento como Presidente do país co-fundador as Nações Unidas, depois de sacrificar as vidas de um terço do seu povo durante a Segunda Guerra Mundial por amor à nossa própria liberdade, à liberdade da Europa e de todo o mundo.

A Comissão de Direitos Humanos mantem-se mecanicamente a carimbar resoluções sobre a Bielorússia, Cuba e outros países. Estão a ser feitas tentativas para impor tais resoluções também à Assembleia Geral da ONU.

Mas como podem as Nações Unidas considerar "problemas" imaginários enquanto são incapazes de ver verdadeiros desastres e catástrofes — de um calibre e natureza que nenhum outro corpo senão a ONU, como comunidade de nações civilizadas, pode enfrentar e restaurar a justiça e a ordem?

Vamos dar uma olhadela ao mundo como ele está.

Muito recentemente, na sala próxima à nossa foram-nos mostrados mapas e gráficos que alegadamente representavam armas de destruição em massa no Iraque. Foram aquelas armas encontradas?

Elas não existem. Entretanto, o Iraque foi arrasado com bombas, devastado, o povo levado ao absoluto desespero.

Terroristas estão ameaçando utilizar armas de destruição em massa contra cidades na Europa e na América.

Terá havido um julgamento aberto e independente sob a supervisão da ONU dos prisioneiros de Guantanamo? Quantos deles estão ali e quem são eles?

Quem defenderá os direitos das vítimas de Abu Graib e punirá todos os seus torturadores, sem excepção?

O Afeganistão foi devastado com rockets e bombas sob o pretexto de descobrir Bin Laden.

Foi o "terrorista número um" do mundo capturado? Onde está ele agora?

Ele está foragido, mas os territórios do Afeganistão e do Iraque começaram a gerar centenas e milhares de terroristas internacionais.

Tropas estrangeiras ocuparam o Afeganistão independente, mas a produção de drogas aumentou dez vezes. Será que aquelas tropas entraram no país com este propósito?

Hoje, a Bielorússia, o Tadjiquistão, a Rússia e outros antigos estados soviéticos são literalmente inundados com uma onda de drogas "tradicionais" do Afeganistão, que se juntam a uma onda de drogas sintéticas anteriormente desconhecidas provenientes da Europa.

Os líderes da Jugoslávia soberana e do Iraque foram postos atrás das grades sob acusações sem fundamento, absurdas e inconvincentes. Isto foi um modo muito oportuno de esconder a verdade acerca da aniquilação dos seus países.

O julgamento de Milosevic tornou-se há muito uma caricatura.

Saddam Hussein foi abandonado à mercê do vencedor, como em tempos bárbaros. Não há ninguém para defender os seus direitos, excepto a ONU, seus estados não mais existem, foram destruídos.

Eles deveriam ser libertados para poderem defender livremente os seus direitos, a sua honra e a sua dignidade humana.

A SIDA e outros desastres estão a devastar a África e a Ásia.

A pobreza e a privação tornaram-se uma arma de destruição em massa real, não virtual — além de racialmente selectiva.

Quem será capaz de parar isto?

Quem insistirá para que os Estados Unidos da América ponham um fim aos seus atentados contra Cuba e a Venezuela? Estes países determinarão as suas vidas independentemente.

Traficar pessoas tornou-se um negócio florescente. A escravidão sexual de mulheres e crianças é vista como uma coisa comum, quase uma norma da vida. Quem as protegerá e levará à justiça os consumidores da "mercadoria viva"?

Este é, em suma, o agoniante resultado da transição para o mundo unipolar.

Terá sido para esta finalidade que estabelecemos as Nações Unidas?

Não será tempo de a ONU por um fim aos escândalos de corrupção interna e empreender a façanha de tratar das angústias e misérias do mundo? A resposta a essa questão é, do nosso ponto de vista, muito clara.

Deixem-nos sermos honestos finalmente. Não podemos enterrar a nossa cabeça na areia como um avestruz.

No final das contas, a ONU somos nós.

Portanto, estamos prontos para tomar o destino do mundo nas nossas próprias mãos.

Devemos perceber que o mundo unipolar é um mundo tacanho, um mundo unidimensional.

Devemos tomar consciência de que a diversidade de caminhos para progredir é um valor duradouro da nossa civilização, o único que pode assegurar estabilidade neste mundo. A liberdade de escolha do caminho de desenvolvimento é a principal condição prévia para uma ordem democrática mundial. Foi exactamente para isto que esta Organização foi estabelecida.

Manifesto a esperança de que os poderosos do mundo também entenderão isto. Do contrário, o mundo unipolar acabará finalmente por regredir. Grande Presidentes americanos como Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt, que lançaram as raízes da Liga das Nações e das Nações Unidas, estavam conscientes disto.

Desde que concordemos entre nós acerca deste ponto principal, então conseguiríamos implementar os princípios de multipolaridade, diversidade e liberdade de escolha tanto na realidade como nos documentos da ONU a que devemos obedecer. Protegeríamos o mundo do terrorismo e os vulneráveis, mulheres e crianças, da escravidão. Protegeríamos todos aqueles desprotegidos.

Só então a ONU tornar-se-ia a organização das nações genuinamente unidas. Isto, e não o aumento numérico dos membros do Conselho de Segurança, constitui precisamente o núcleo da reforma da ONU.

Muito obrigado.

15/Setembro/2005

[*] Presidente da Bielorússia. Pontos principais da declaração pronunciada na 60ª sessão da Assembleia Geral da ONU.

O original encontra-se em http://iraqwar.mirror-world.ru/article/63581

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Set/05