Portugal estaria melhor fora do Euro
por Bernd Lucke
[*]
entrevistado por Maria João Guimarães
Bernd Lucke, professor de Economia da Universidade de Hamburgo e número
um na lista do partido Alternativa para a Alemanha às
eleições para o Parlamento Europeu, esteve em Lisboa para uma
conferência organizada pelo movimento de defesa da saída do euro
Portugal Independente. A AfD surgiu em Abril passado, quase entrou no
Parlamento alemão nas legislativas de Setembro, e tenta agora obter
representação europeia.
Quando começou a achar que havia algo errado com o euro?
Fui um defensor do euro, mas dentro das cláusulas de Maastricht e de
no bailout
[sem resgates], por isso fiquei desencantado com as políticas seguidas
depois de 2010.
O que propõe exactamente?
Que descontinuemos os resgates e que deixemos cada país escolher
livremente se quer manter-se no euro. A minha expectativa é que sem a
política de resgate a maioria dos países optaria por sair do euro.
Isso deixaria apenas alguns países na zona euro?
Sim.
Mas já defendeu o fim do euro. E a saída destes países
não levaria de qualquer modo ao fim do euro?
Isso dependeria de uma decisão de França, que está com
grandes problemas económicos relacionados com as pressões de
competitividade do euro. Se os franceses decidirem que devem manter-se no euro
sob a premissa de que não haverá resgates, acho bem. Mas imagino
que não o fariam, e acabaremos com um núcleo muito pequeno de
moeda única ou com um regresso a moedas nacionais.
Sendo a economia alemã baseada nas exportações, e sendo
40% das exportações para países da zona euro, o fim do
euro não seria um problema económico para a Alemanha?
Só cerca de 12% das exportações alemãs vão
para os países mediterrânicos. Com uma apreciação da
moeda alemã, há factores que jogam a favor das empresas
alemãs, um é que o poder de compra aumenta, o outro é que
os países mediterrânicos do Sul teriam um
boom
económico com o recomeço do crescimento e isso resultaria
também em maior procura para os bens alemães.
Mas na conferência argumentou que, num cenário de saída dos
países do Sul, a desvalorização da moeda dificultaria as
importações, estimulando a procura e produção
nacional. Como importariam mais?
Se há um aumento de rendimento, os consumidores vão comprar mais
tanto de produtos nacionais como estrangeiros.
Qual seria o custo de uma saída do euro para a Alemanha?
Custos de quotas de mercado mais baixas em exportação seriam
compensados no mercado interno. E não teríamos de nos envolver em
políticas de resgate, que são agora quantias de cerca de duas
vezes mais o nosso orçamento federal.
Uma análise do Instituto Bertelsmann diz que fora do euro, entre 2013 e
2025, a Alemanha perderia 0,5% do PIB por ano, o que corresponde a 1,2
biliões (milhões de milhões) de euros e 200 mil empregos.
O que acha destes dados?
Não acredito, nem acho que tenha sido um estudo científico,
porque não diz que modelo foi usado e como chegaram a esta
conclusão. É parte dos instrumentos de propaganda do Governo.
Se eleger deputados no PE, o partido planeia começar como observador e
não se juntar a um grupo?
Provavelmente. Não creio que esta seja uma questão urgente.
Excluiu já os partidos de Marine le Pen e de Gert Wilders.
Sim, não colaboraremos com eles.
E o britânico UKIP?
Penso que não, porque há questões sobre as quais temos
pontos de vista muito diferentes, uma delas é a posição da
Grã-Bretanha na União Europeia, o UKIP é a favor da
saída da Grã-Bretanha da UE, e nós queremos que continuem
e que o mercado comum seja preservado.
Na AfD há quem defenda uma aliança com o UKIP.
Temos tido algum debate, mas acho que é uma questão emocional, o
UKIP é visto como parecido connosco, porque são
anti-establishment
e, claro, têm muito sucesso na Grã-Bretanha.
Como novo partido na direita alemã, têm especial cuidado com a
entrada de extremistas?
A última parte da sua questão é correcta. Mas a primeira
parte não, porque não somos de direita. Economicamente somos
liberais, somos conservadores em termos de família, sociais-democratas
em termos de segurança social.
Acha que a divisão da Europa reflecte uma diferença de
ética de trabalho entre Norte e Sul?
Há mentalidades diferentes e daí podem resultar diferentes
atitudes em relação ao trabalho. Penso que todos os países
devem ser livres de tentar a sua forma particular de felicidade, quer dizer,
há um
tradeoff
[relação] entre rendimento e lazer, entre esforço de
trabalho e bem-estar, mas penso que cada país deve decidir por si
próprio que tipo de
trade-off
quer. Isso agora não é possível por causa da
pressão competitiva do euro, que requer que cada país tenha o
mesmo tipo de esforço de trabalho para ser competitivo.
Está a dizer que as pessoas em Portugal querem trabalhar menos?
Não conheço Portugal suficientemente bem para fazer um
julgamento. Mas na conferência ouvi o sr Wolfgang Kemper
[empresário da Filkemp] elogiar os trabalhadores portugueses pela sua
diligência e ele conhece melhor o país. Um país que
conheço bastante bem é Itália, e diria que a atitude de
trabalho no Sul é muito diferente da da Alemanha.
E porque é que estes trabalhadores destes países se dão
bem na Alemanha?
Fazem-no? Não tenho a certeza. Há por vezes alguma
adaptação. Se toda a gente fizer uma sesta, então
também posso fazer uma sesta. Mas sublinho que falo de cultura como algo
do país, não uma característica genética.
Falando de imigração, um tópico importante para as
eleições europeias. Há quem defenda
restrições à liberdade de movimento, na Alemanha
discute-se o perigo do turismo social. Qual é a sua
posição?
Penso que a Europa não seja nada como o
melting pot
dos EUA, onde as culturas estão simplesmente fundidas e as culturas
antigas se perdem a favor desta nova. Se não queremos isso, temos de
assegurar que nenhuma população se sinta forçada a sair do
seu país porque o seu país não lhe dá as
perspectivas económicas. Isso é diferente do direito de
movimentação livre pela UE, quando alguém quer ir para
outro local onde há um emprego que querem. Penso que o problema
não é tanto para os países que os recebem, porque
beneficiam de ter estes trabalhadores, mas para Portugal, que tem problemas com
a sustentabilidade do seu serviço social, etc.
O
slogan
do partido nas últimas eleições era coragem para a
verdade e nestas é coragem para a Alemanha.
Porquê?
Devido à nossa história, os alemães estão sempre
relutantes a falar dos seus interesses. Por isso, tendem a dizer que é
tudo para o bem da Europa. Penso que, dado os desafios da política
europeia dos últimos quatro anos, os desenvolvimentos afectam os
interesses alemães, e não há razão para esconder os
nossos interesses, os outros países também não os escondem.
Ver também:
www.ionline.pt/...
O original encontra-se no
Público
de 08/Fevereiro/2014.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|