O rapto da Europa
1.
A mobilização a favor do SIM foi no começo
institucional. Os
media
públicos e mesmo republicanos receberam as palavras-de-ordem adequadas.
Os funcionários mostram-se muito activos, não somente os ligados
à difusão de noticias, locutores
(speakers e spikerines),
jornalistas, cronistas, apresentadores de rádios e televisoes, mas os
próprios especialistas. Um só exemplo: o eminente linguista
Alain Rey, presente em France Inter das 8 às 9 horas, exibindo toda a
sua ciência sobre o tema
dumping social,
e revelando, sobretudo, o significado de
lixo de dumping,
permitiu-se, à revelia de uma deontologia elementar (porque não
é pago para isso) concluir: "que tudo isso não vos
impeça de votar sim pela constituição europeia!"
(23/03). O improvisado propagandista junta-se assim à coorte
também servil dos intelectuais Hi Fi, agrupada atras da parelha
Lang/Wiesel. O argumento principal oposto aos partidários do
não, esgrimido em primeira mão por esse outro especialista que
é o historiador Alain Decaux, consiste em apontá-los como uns
sacanas. O referido argumento é trombeteado em todos os tons: o
"apelo à inteligência", lançado pela
direcção socialista, que teria garantido, segundo a senhora
Ségolène Roval, uma maioria de Sim no partido (não
esquecer que as coisas evoluíram rapidamente em beneficio dos deixa
disso); o caracter "refilão" bem típico dos franceses
(uma deputada belga); a insuficiência de reflexão"; uma
patologia; a "confusão mental"?... Tudo isso é bem
conhecido e ainda não vimos tudo.
O meu objectivo aqui será diferente. Gostaria de agarrar as coisas pela
raiz, colocar as questões que se colocam depois das questões que
nos colocam, isto é assumir o papel de advogado do diabo
personagem muito esquecida nestes tempos de blá blá blá
burocrático. De machado em punho por falta de tempo.
2.
A Europa, o que é isso? Um conjunto geográfico?
Então, porquê a Turquia? Ou Israel, exigido por alguns
parlamentares europeus? E por que não a Rússia, pelo menos
até aos Urales. Ou a Suíça, que não quer ouvir
falar disso. É difícil especificar qual seria o exterior desse
dentro
Um conjunto cultural? O documento a submeter ao voto evoca as
tradições "culturais, religiosas", etc. O debate sobre
esse "religioso" que segundo alguns, deveria cingir-se ao
"cristão" permite imaginar o que seria o debate sobre o
"cultural" -- da caldeirada ao
bortch,
da
sauerkrat
ao
couscous
(prato francês típico, claro, claro) para não ir alem do
terreno culinário. Um conjunto político? Mesmo definido no
presente, como sair, por exemplo, dessa embrulhada de figuras
democráticas mal identificadas e de (numerosas) sobrevivências
monárquicas?
Um povo? Cujo por-si e em si são invisíveis? seria o mesmo que
voltar ao debate sobre o sexo dos anjos. Um mercado? Aí a coisa
escalda e reaparece o cultural sob a forma unificadora, já em
andamento, do hamburger e da coca. Mas em que se é, afinal, europeu?
3.
Que fazer da Europa? A avaliar pela terminologia mais banalizada,
apresentam como aquisição indiscutível e indiscutida a
"necessidade da construção europeia".
Necessária para quê? E para quem? Para contraponto, sobretudo
nos terrenos económico e cultural, aos conjuntos estadunidense e
nipónico? Mas perante o resto do mundo (o que fazer do mundo )
porventura a Europa não é há muito o terceiro
ladrão da Tríade Imperialista, cuja unidade não
obstante as aparências e apesar de contradições e
rivalidades internas se mantem sob a égide da superpotência
à qual não escapa nem a famosa "excepção
cultural"? A harmonia económica? Seria esquecer as desigualdades
que não estão prestes a diminuir (deslocalizações,
concorrência de trabalhadores, ver a circular Bolkenstein) e as
excepções de que beneficiam já os mais poderosos (a
Grã Bretanha , golpes no pacto de estabilidade). O euro que poderia
encontrar-se em posição de força no plano internacional
(no intercâmbio com a China, o Irão, o Sudão, a Venezuela)
não parece empenhado em cortar o cordão umbilical com o deus
dólar. Uma política exterior autónoma? Limitemo-nos a
pensar no Iraque. Após as bravatas de mata-mouros, a volta ao redil
(eleições, missões diplomáticas, financiamentos).
No tocante a Israel, condenado pelo Parlamento europeu, demonstrando mais uma
vez a sua impotência, o melhor é ficarmos calados. O reino da
paz entre as nações eternamente separadas pelos seus conflitos?
Apenas um caso: o da Jugoslávia, incontestavelmente situada no centro
da Europa geográfica. A defesa? Contra que ameaça? O
único inimigo potencial não tem, porventura, a NATO à
perna? A política exterior que teria um ministro comum? Em beneficio
de que políticas?
4.
"Que Europa queremos?" Há um clamor unanime entre os
defensores do Não. Se fores mais europeu do que eu, dizem aos do Sim,
morres. Não queremos essa Europa, porque queremos outra Europa? Que
Europa?
A resposta é também unanime: a Europa social, a Europa dos
trabalhadores. Mazzini esboçava já, no final do
penúltimo seculo, a "Europa dos Povos contra a Europa dos
Reis". Atenção, percebem o dilema? Se se trata da
lengalenga bem estudada de introduzir "mais social na
construção europeia" é porque se admite que
já existe uma dose, mais ou menos importante. Então, do lado
social democrata, que invoca o
mais,
apelam ao Sim enquanto o Não acha que há
menos.
Em ambos os casos permanece-se dentro do sistema: outra Europa, a da
altermundialização, sob o guarda chuva das ambiguidades. Porque,
a admitir que existam as premissas e o exemplo francês aí
está a confirmá-lo é preciso acreditar que as
referidas premissas não somente não se acham ameaçadas,
mas que funcionarão como nódoa de azeite. Será
necessário demonstrar que as democracias burguesas, isto é
capitalistas, são movidas por outra preocupação alheia
à manutenção da ordem dominante estabelecida
rentabilidade, lucros, tudo inseparável de uma maior
exploração dos dominados? Ou a união das forças
progressistas, sindicatos e partidos, outrora convocada por um Olof Palme
para funcionar como contraponto ao bloco do patronato? E as democracias em
questão, na sua diversidade, não lhes cabe a tarefa comum de
criar os instrumentos indispensáveis ao avanço da
globalização? A própria natureza da democracia, longe de
ser vista como um dado concreto, não deverá ser radicalmente
posta em causa?
Não irei mais longe nesta via, mas em próxima oportunidade
exporei o projecto antitético de cuja necessidade real estou
convencido da criação de uma federação dos
povos da bacia mediterrânica.
5.
Uma ultima palavra sobre outra lengalenga de argumentos dos defensores do
Sim: a dissociação que seria imperativo respeitar, entre o
referendo sobre a Europa e a sanção ao governo Chirac-Raffarin.
Estamos perante o tipo do sofismo e do écran de uma contra verdade. A
saída, o levantamento que em POLÍTICA representa a corrente da
recusa, após décadas de resignação e de
credulidade, significa precisamente que, enfim, se tornou consciente a
identidade existente entre a finalidade perseguida pela
construção europeia e a condução nacional dos
negócios cuja bússola a serve. A
soberania popular,
como aspiração reassumida, afirma que não tem outro
inimigo que não seja o neoliberalismo. É por isso que a
vitória do Não abrirá perspectivas totalmente novas de
responsabilidades políticas de massa cujas consequências, podemos
estar seguros, não se limitarão às nossas fronteiras.
Será conveniente assimilar rapidamente essa realidade.
O original será publicado na revista
Utopie Critique,
edição de Maio.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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