Para lá do euro
A situação do País é de uma enorme gravidade. A
política de direita da responsabilidade do PS, PSD e CDS-PP, aprofundada
nos últimos anos pelos PECs e pelo chamado memorando de entendimento,
provoca um rasto de retrocesso e injustiça e gera sérias
preocupações quanto ao futuro.
A destruição das estruturas produtivas, uma década perdida
em termos de crescimento, seguida, nos últimos três anos, da maior
recessão alguma vez registada, a alienação e
liquidação de sectores estratégicos e o brutal aumento da
dívida pública, são a expressão de um enorme salto
atrás. O povo português está a empobrecer e Portugal a
atrasar-se.
Muitos perguntam como chegámos aqui: como sair disto? Qualquer
avaliação séria da realidade não pode ignorar os
constrangimentos impostos a Portugal pela adesão ao euro, mas
também não pode ignorar, que os principais défices,
estrangulamentos e injustiças que nos condicionam, não só
começaram muito antes, como a sua superação reclama uma
profunda rutura na vida nacional que não se esgota, antes se articula,
com a necessária recuperação da soberania monetária.
A renegociação da dívida prazos, juros e montantes
, a valorização da produção nacional, a
recuperação do controlo público dos sectores
estratégicos da economia, a valorização dos
salários e pensões, a tributação efetiva dos lucros
e dividendos dos grupos económicos, a defesa dos serviços e do
investimento públicos, são elementos centrais de uma
política de facto alternativa.
Outra política para enfrentar também os desenvolvimentos de uma
crise profunda que atinge Portugal e a União Europeia e que está
longe de estar superada, e que é inseparável da
sujeição a uma mesma política monetária e cambial
de países com profundas disparidades nos níveis de
desenvolvimento económico e social e que, por isso mesmo, tinham e
têm necessidades diferenciadas. O País perdeu muito com a entrada
para o euro e pode perder mais, seja com a permanência, seja numa
eventual crise aguda da zona euro, que a estilhace e empurre os países
fragilizados para a saída de uma forma caótica.
Há que recusar quer opiniões catastrofistas sobre uma eventual
saída do euro difundidas sobretudo por aqueles que querem continuar a
atrelar Portugal aos grandes interesses, quer opiniões aventureiristas
que fingem ignorar que uma coisa é uma saída do euro conduzida
por um governo patriótico e de esquerda, outra, diferente, é uma
saída do euro conduzida pela mesma política de direita que nos
trouxe à atual situação e que não deixaria de fazer
recair sobre o povo os custos de tal decisão.
A saída do euro seja por decisão soberana do Estado
Português ou por agudização das contradições
no seio da zona euro, ou mesmo a sua dissolução , sendo
sempre uma condição necessária, embora não
suficiente para romper com o atual ciclo, exige na sua
concretização assegurar condições e medidas que
preparem tal mudança. E ninguém pode recusar tal debate.
24/Março/2014
[*]
Deputado do PCP no Parlamento Europeu
O original encontra-se em
Diário Económico
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|