Alemanha: Estado persegue antifascistas
por Elsa Dias da Silva
Vinte e três anos após o fim da lei da Interdição
Profissional
(Berufsverbot)
na Alemanha surge agora, no estado de Baden-Würtenberg, um novo caso.
Michael Csaszkóczy, 33 anos, acabou o curso e o estágio em
alemão, história e arte com muito boas notas e muito estimado
pelos alunos. O início da sua carreira como professor estava previsto
para o dia 1 de Fevereiro de 2004, mas desde meados de Dezembro de 2003,
decorre um processo de interdição profissional contra Michael
Csaszkóczy, e por isso a sua colocação foi suspensa.
Segundo a Defesa da Constituição, Michael C. representa uma
ameaça contra a constituição, pois é militante de
várias organizações antifascistas, como a Iniciativa
Antifascista de Heidelberg
(AIHD Antifaschistischen Initiative Heidelberg)
e a Associação das Vítimas do Nazismo
União dos Antifascistas
(VVN-BdA Vereinigung der Verfolgten des Naziregimes Bund der
Antifaschistinnen und Antifaschisten),
e tem participado em várias manifestações antifascistas
e contra a guerra.
Numa carta da Direcção Geral do Ensino de Karlsruhe foi-lhe
comunicado que, de acordo com informações dos Serviços
Secretos da Defesa da Constituição, existem dúvidas quanto
à sua fidelidade à constituição.
Em 1972, sob a governação de Willy Brandt, iniciou-se na Alemanha
uma onda de processos de interdição profissional, essencialmente
dirigidos contra funcionários públicos de esquerda, desde
professores a funcionários dos Correios.
Nos anos 70, muitos funcionários públicos, militantes de partidos
políticos situados à esquerda da CDU União
Cristã Democrática (principalmente membros do DKP - Partido
Comunista Alemão), sindicalistas e militantes de
organizações antifascistas, foram interditados de exercer as suas
profissões, pois eram considerados uma ameaça para a Defesa da
Constituição. Na década de 70 foram realizados mais de 14
mil processos disciplinares e de interdição profissional, dos
quais cerca de 1.200 resultaram em indeferimentos de candidaturas a emprego e
mais de 260 em despedimentos de funcionários públicos. Um bom
exemplo é o caso de Klaus Lipps, professor de matemática e
francês e militante do DKP. Em 1974 inicia-se o processo contra Klaus
Lipps, em que lhe foram colocadas várias perguntas, entre as quais se
destaca a sua militância no DKP e outras organizações
políticas e sindicais, às quais ele se recusou a responder. Em
1975, apesar de alunos e pais o considerarem um professor muito bom, Klaus
Lipps é despedido. Neste e em muitos outros processos, a opinião
pública nacional e internacional representou um papel muito importante,
pois através do envio de cartas e telegramas foi exercida uma grande
pressão sobre os tribunais, antes dos julgamentos, deixando bem claro
aos juizes, que a opinião pública estava atenta e esperava que
fosse feita justiça. Em muitos casos, o processo judicial teve um
desfecho justo, tendo estas pessoas sido readmitidas ao serviço, mas em
muitos outros as pessoas foram forçadas a exercer outras
profissões, tendo a grande maioria sido obrigada a aceitar trabalhos em
situação precária e sem um local de trabalho fixo, estando
sujeitos a várias fases de desemprego e mudança constante de
profissão.
Teoricamente, a lei da Interdição Profissional já
não existe desde 1980.
Em 1995, o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos, considerou a
prática da Interdição Profissional na RFA anti-direitos
humanos, pois vai contra os direitos universais de liberdade de
associação e de pensamento.
A 25 de Agosto de 2004, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto de
Baden-Württemberg, na pessoa da sua ministra, a Sra. Annette Schavan,
militante da CDU (União Cristã Democrática) anunciou, numa
conferência de imprensa, a interdição profissional de
Michael C., contra a qual o seu advogado imediatamente recorreu junto da
Direcção Geral do Ensino de Karlsruhe.
A 23 de Outubro realizou-se em Heidelberg uma manifestação contra
a Interdição Profissional que contou com a presença de
cerca de 1000 pessoas.
A 15 de Novembro o recurso foi indeferido.
A 30 de Novembro de 2004 Michael recorreu para o Tribunal Administrativo de
Karlsruhe.
Para Michael Csaszkóczy ainda não está tudo perdido. Como
já foi referido, nos anos 70 a Opinião Pública
Internacional desempenhou um papel muito importante na resolução
de muitos casos semelhantes a este. Na Alemanha já muitas pessoas e
organizações começaram a exercer pressão sobre a
Ministra da Cultura, Juventude e Desporto de Baden-Württemberg,
enviando-lhe cartas e emails de protesto, exigindo o fim da
Interdição Profissional e a colocação de Michael
Csaszkóczy como professor. Cartas e emails, podem ser enviados para:
Frau Ministerin Dr. Annette Schavan
Ministerium für Kultus, Jugend und Sport
Baden-Württemberg
Schlossplatz 4
70173 Stuttgart
Alemanha
Email:
poststelle@km.kv.bwl.de
com cópia para o Comité de Solidariedade Contra a
Interdição Profissional de Michael C.:
berufsverbot@rotehilfe.de
Esta notícia encontra-se em
http://resistir.info/
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