A impotência da UE face às sanções americanas contra
o Irão
O espectáculo oferecido pelo presidente da Comissão Europeia,
Jean-Claude Juncker, na cimeira da NATO em Bruxelas no mês passado,
cambaleando de tal forma que teve de ser apoiado, simboliza o status da UE na
cena mundial.
A resposta da UE à decisão de Donald Trump de activar
sanções contra empresas europeias que negociem com o Irão,
mostra que o bloco de 28 nações não é mais do que
um velho imbecil que já não se aguenta nas pernas em
matéria de política internacional.
Não há qualquer dúvida de que os líderes da UE
estão furiosos porque Trump mandou para o ar o seu querido acordo com o
Irão. O seu furor é ainda agravado pelo facto de que no fundo
eles sabem que não podem fazer nada a esse respeito. Líderes
franceses como Emmanuel Macron e seu ministro das Finanças, Bruno Le
Maire, podem deplorar o facto de que a Europa não é
"soberana",
tentando fazer da impotência da UE face ao unilateralismo dos EUA um
argumento para uma maior integração europeia. No entanto,
é a mesma política que eles seguem há mais de um quarto de
século e que os levou ao impasse onde estão hoje.
Em resposta às sanções ao Irão, a UE anunciou que
estava implementando uma lei de
"bloqueio",
uma lei que nunca foi usada antes porque não funciona. Mesmo os
grandes figurões de Bruxelas admitem que é inútil. Um
deles
teria dito
:
"É um sinal político dado pela UE. Não é uma
cura milagrosa".
Por outras palavras, esse estatuto não protegerá as
empresas europeias contra as sanções dos EUA. Centenas delas
estão actualmente a preparar-se para deixar o Irão, se é
que já não o fizeram. Entre elas estão alguns dos maiores
grupos industriais do mundo, a gigante petrolífera francesa Total e a
Airbus, cujos contratos no valor de vários milhares de milhões
acabaram por se transformar em nada graças ao presidente dos Estados
Unidos.
As instituições da UE adoptaram a posição do
Partido Democrata dos EUA de que a Rússia é a causa de todas as
"dúvidas"
e
"divisões"
dentro do bloco, mas o facto é que Donald Trump fez explodir sozinho o
sonho europeu. A UE nunca foi nada mais além de um sonho, uma fantasia
desprovida de toda a realidade. A ilusão de que a União Europeia
tornaria Estados diferentes colectivamente mais fortes. A realidade é
que a integração europeia foi, desde o início, um projecto
apoiado pelos Estados Unidos para ajudar o Ocidente a conduzir a Guerra-fria.
A integração da UE foi e continua a ser ideológica e
institucionalmente inseparável da NATO, que é dominada pelos
Estados Unidos. Por outras palavras, a integração europeia
é impossível sem o apoio dos Estados Unidos e, portanto, quando a
UE é privada dela, como é o caso com Trump, os líderes da
UE estão completamente perdidos.
Nenhum dos benefícios de uma união monetária prometida em
Maastricht em 1991 e
antes
foram concretizados. Foi dito que o euro promoveria o crescimento, mas, de
facto, desde a introdução da moeda única em 1999, os
Estados Unidos largamente suplantaram a zona euro. Foi prometido que a zona
euro protegeria os países de choques externos, mas o colapso da
produção em resultado da crise financeira de 2008 foi tão
importante na Europa como em qualquer outra parte. Acima de tudo, havia sido
dito que o euro começaria a substituir o dólar como um
instrumento do comércio internacional. Vinte anos depois, o dólar
continua a ser uma moeda quase incontornável do comércio,
particularmente no sector de petrolífero.
Foi precisamente porque o BNP Paribas, como todos os bancos, usou
dólares para contratos com o Irão e outros estados da lista
negra, que foi atingido por uma
multa gigantesca
de 9 mil milhões de dólares pelos Estados Unidos em 2015. A UE
não fez nada contra este flagrante abuso da jurisdição dos
EUA sob o gentil Sr. Obama, mesmo que tenha sido exactamente o mesmo tipo de
medidas que Trump acaba de anunciar: A multa ao BNP Paribas foi imposta
imediatamente após a crise da Ucrânia, quando a UE, como de
costume, correu para a sua babá americana a fim de se esconder nas suas
saias. A UE está agora a colher uma nova safra de reveses sob a
liderança do malvado Sr. Trump.
Desde 2015, todos os bancos europeus têm fugido dos que dizem fazer
negócios com um Estado pária como a Rússia, ou mais ainda
com o Irão. Assim, as empresas simplesmente não têm a
oportunidade de negociar com esses países. É tão simples
como isto. Como
disse
Volker Treier, vice-director da Câmara Alemã de Comércio e
Indústria:
"Mesmo as empresas que não são afectadas por
sanções dos EUA, tais como empresas na área médica
ou que não têm comércio com os Estados Unidos, não
conseguem encontrar um banco para lidar com o Irão".
Os Estados Unidos assumiram portanto o controlo da economia mundial
ameaçando estrangular o sistema bancário. A existência do
euro não pôs fim a esta situação.
Enquanto persistir o elo entre o dólar e o petróleo, um elo
apoiado pela maciça dominação militar norte-americana do
mundo, nada mudará. Militarmente, os estados europeus subcontratam a sua
defesa aos Estados Unidos a chamada "defesa europeia" é
de facto assegurada pela NATO dominada pelos Estados Unidos. Como resultado, as
capacidades militares das antigas grandes potências da história
mundial, como a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, estão
encolhendo. Quando uma potência nuclear como a França
começa a se gabar de conduzir com êxito uma operação
militar nos desertos de um Estado falido como o Mali, compreendemos que a
Europa já não conta para mais nada.
A agressão de Trump contra o Irão ocorre num momento em que a
Europa está, mais uma vez, totalmente ausente da política mundial
no Médio Oriente. Em 2011, a França e a Grã-Bretanha
decidiram provocar uma mudança de regime na Síria, o que os
tornou os primeiros países a romper relações
diplomáticas com Damasco. A UE impôs um dos maiores pacotes de
sanções da história àquele país. Agora que
Damasco recupera o controle do conjunto do território sírio, com
o apoio da Rússia e do Irão, a UE não sabe o que fazer.
É difícil imaginar um fracasso da política externa mais
impressionante. Mesmo uma das figuras mais irredutíveis de Israel, o
ministro das Relações Exteriores, Avigdor Liberman,
reconhece
que Bashar Assad venceu a guerra na Síria e que Israel pode ter
relações com ele. O espectacular fracasso diplomático da
Europa está associado a um espectacular êxito diplomático
(e militar) russo, já que a Rússia é hoje a charneira da
paz entre Israel e o Irão.
O maior fracasso da UE pode estar no óbvio colapso da sua ideologia.
Desde a sua concepção inicial, nos anos 50, a
construção da Europa baseou-se na ideia de que era
possível superar o domínio da força e elevar-se a uma
forma superior de relações internacionais. Essa é quase a
mesma ideia que transmitida pelos ideólogos soviéticos que
afirmavam que o bloco socialista tinha-se movido em direcção a
uma nova forma de relações internacionais.
Os dirigentes europeus tiveram a impressão de que a Rússia de
Putin representava o retorno sem disfarces do reino da força: eles
desaprovavam esse modo de fazer política e aproveitaram a oportunidade
para se unirem e criarem uma espécie de coesão da treta para
lutar contra o novo espantalho.
Em contrapartida, a decisão de Trump de abandonar o multilateralismo
enfraquece drasticamente a própria base sobre a qual a UE tem funcionado
durante décadas, porque de repente os Estados Unidos não
são mais o grande protector, mas se tornaram um inimigo. Os
políticos europeus estão intelectualmente lobotomizados pela sua
ideologia infantil pós-moderna e há muito esqueceram como fazer
política real.
Embalados pela falsa sensação de segurança daqueles que
pensam que não é preciso pensar, os líderes aborrecidos e
medíocres da UE são apenas gestores (muito maus); eles
estão agora totalmente perdidos no mar agitado de um mundo tornado de
repente incerto. É muito bem feito para eles.
[*]
Doutorado em filosofia pela Universidade de Oxford. Ensinou em universidades em
Paris e Roma. É historiador e especialista em assuntos internacionais.
O original encontra-se em
www.rt.com/op-ed/435327-iran-eu-sanctions-response/
e a versão em francês em
www.legrandsoir.info/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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