Economia política do "sistema euro"
Este artigo procura mostrar como a crise actual da zona euro remete aos
defeitos originais de concepção do "sistema euro" cujas
contradições, reveladas pela crise financeira, são de
natureza estrutural. Esta demonstração é efectuada
utilizando uma metodologia estatística e analítica que dá
a este estudo um carácter "técnico". Mas trata-se de
uma etapa necessária para desembocar num diagnóstico mais
sólido sobre as saídas possíveis da crise actual, ou antes
da sua dimensão especificamente europeia. Esta crise tem raízes
mais profundas que os sintomas na qual se encarna, ou seja, uma crise das
dívidas soberanas. À partida, não existem senão
duas saídas que proporcionem uma resposta adaptada à natureza
estrutural da crise europeia: ou o rebentamento do sistema euro, ou a sua
refundação radical. As outras limitam-se a adiar as
contradições no tempo ou a programar uma regressão
socialmente inaceitável.
O sistema euro designa aqui o conjunto constituído pela moeda
única e as regras que tem acompanhado sua aplicação (das
quais a maior parte referem-se ao conjunto da União Europeia),
nomeadamente o pacto orçamental, as funções
atribuídas ao Banco Central Europeu (BCE), a estreiteza do
orçamento europeu e a recusa da harmonização.
A análise abrange onze países, a saber, os países membros
da zona euro desde a sua constituição em 1999, dos quais se
exclui o Luxemburgo e aos quais se acrescenta a Grécia, que a integrou
em 2011
[1]
. Distinguem-se dois grandes grupos de países
[2]
. O "Norte" agrupa cinco países: Alemanha, Áustria,
Bélgica, Finlândia e Países Baixos. O "Sul"
compreende a Espanha, a Grécia, a Irlanda, a Itália e Portugal. O
décimo primeiro país é a França que se põe
à parte na medida em que ocupa mais frequentemente uma
posição intermediária.
1. Uma construção incoerente
A passagem ao euro era combinada com duas regras essenciais: a
fixação de normas orçamentais (3% do PIB para o
défice, 60% para o incorrer da dívida) e as modalidades de
funcionamento do BCE: independência, um único objectivo (o
controle da inflação) e a proibição de financiar os
défices públicos. Nestas condições, em que o
instrumento da taxa de câmbio desaparecia, a única variável
de ajustamento tornava-se o salário, e esta é a razão
porque hoje se fala em "desvalorização interna" para
designar as políticas de austeridade salarial.
Esta construção repousava sobre uma hipótese subjacente,
que um certo número de economistas recusava na época e que muitos
descobriram tardiamente. Esta hipótese era que as disciplinas
orçamentais e salariais, decorrentes da liberalização dos
movimentos de capitais, bastariam para assegurar a convergência das
economias da zona euro.
As coisas não se passaram como previsto e o objecto deste artigo
é compreender os encadeamentos que conduziram à crise actual que
atinge os próprios fundamentos do sistema euro. Partir-se-á aqui
de um aparente paradoxo: os países do Sul viram a sua
competitividade-preço degradar-se, muito embora a parte dos
salários tenha recuado nestes países. Esta
constatação aponta um fenómeno maior que servirá de
ponto de partida: as taxas de inflação não convergiram
apesar de uma baixa generalizada da parte dos salários no valor
acrescentado (Husson, 2010). Esta última tendência implica que os
salários reais progrediram menos rapidamente que a produtividade do
trabalho ou, dito de outra forma, que a competitividade medida pelos custos
salariais não tem razão a priori para estar degradada devido a
uma derrapagem dos salários. A disciplina salarial actuou efectivamente
mas isso não bastou para assegurar a convergência das taxas de
inflação.
Ora, a competitividade de um país pode degradar-se de duas maneiras:
seja porque o custo salarial unitário
[3]
do país considerado aumenta mais rapidamente que o dos seus
concorrentes, seja porque a inflação é mais rápida
neste país, A primeira causa está excluída: em regra
geral, o custo salarial unitário real manteve-se ou baixou devido
à baixa da parte dos salários. Tomemos o exemplo da
Grécia. Constata-se que a parte dos salários está
orientada para a baixa desde meados dos anos 1980 e que continua a estar
após a entrada no euro em 2001. Ela não recomeça a
aumentar senão nos anos que antecedem a crise (gráfico 1). O
mesmo gráfico permite constatar que a evolução do custo
salarial unitário real apresenta uma evolução
absolutamente semelhante.
Nestas condições, a competitividade-preço da Grécia
não pôde degradar-se devido a um crescimento excessivo do
salário real ou, dito de outra forma, superior ao da produtividade.
É preciso portanto inferir que ela resulta de uma alta mais
rápida do nível dos preços. É o que permite
verificar o gráfico 2: a perda de competitividade-preço
relativamente à média da zona euro não resulta de uma
deriva salarial mas, no essencial, de um aumento dos preços mais
rápido.
Esta primeira referenciação feita sobre o caso limite da
Grécia pode ser generalizada ao conjunto da zona. Em todos os
países, praticamente sem excepção, a
configuração é semelhante: o custo salarial
unitário real varia relativamente pouco, de tal modo que o essencial do
aumento do custo salarial unitário expresso em euros correntes é
imputável ao aumento dos preços. A comparação entre
o Sul e o Norte revela dois fenómenos: no Sul, o custos salarial
unitário real é praticamente constante, mas baixa no Norte,
principalmente devido à política de congelamento dos
salários efectuada na Alemanha. Mas, tudo o mais constante, os
países do Sul são caracterizados por uma progressão mais
rápida dos preços (gráfico 3).
Este panorama permite reconciliar nossas duas observações
iniciais. Ao longo da última década, a evolução da
parte dos salários nos países da zona não mostra em parte
alguma uma "derrapagem salarial". Dito de outra forma, os
salários reais progrediram em fase com a produtividade do trabalho. Em
contrapartida, as taxas de inflação muito diferenciadas ampliaram
consideravelmente o leque dos custos salariais unitários que definem a
competitividade de cada país.
Esta constatação sugere que se tome como ponto de partida da
análise a existência de uma "inflação
estrutural" própria de cada país. Uma tal abordagem
inspira-se nomeadamente nos trabalhos de Jacques Sapir (Sapir, 2006 e 2001) e
num estudo recente de dois investigadores do Asian Development Bank (Felipe,
Kumar, 2011).
2. Os determinantes da inflação estrutural
O objectivo de uma união económica entre países com
níveis de desenvolvimento diferentes é
a priori
conduzir a uma forma de harmonização e de convergência.
Este processo de recuperação (rattrapage) implica um crescimento
mais rápido dos países menos desenvolvidos, que geralmente
é acompanhado por uma taxa de inflação mais elevada. Este
enunciado contém igualmente uma contradição inicial quanto
ao caminho escolhido: como conciliar o objectivo de convergência que
é acompanhado por taxas de inflação diferenciadas e o
estabelecimento de uma moeda única, que supõe implicitamente a
convergência destas taxas de inflação?
O processo de recuperação verificou-se. A análise do
período 1990-2008 mostra que os países que tinham o PIB per
capita mais baixos em 1990 registaram taxas de crescimento mais elevadas. Mas
esta recuperação foi acompanhada de uma inflação
mais elevada: entre 2000 e 2008, os preços aumentaram 18,2% na zona
euro, mas 27% no Sul, contra 11,8% no Norte. A França situa-se na
média (18,4%) e a Alemanha bem abaixo (8,3%).
Esta primeira explicação da inflação estrutural
pode ser combinada com uma outra que remete a factores internos das economias
consideradas. A primeira tem a ver com a dinâmica entre o sector
manufactureiro e o resto da economia. De um modo geral, existe um diferencial
de produtividade entre estes dois grandes sectores. Admitamos que o
salário real seja indexado sobre a produtividade do trabalho que em
regra geral é mais rápida no sector manufactureiro. Podem-se
distinguir dois casos polares no resto da economia. Se o salário real
for indexado a uma produtividade menos rápida, o diferencial de
produtividade entre sectores é encontrado sob a forma de uma
diferença na progressão dos salários. Mas pode
também acontecer que o salário do sector manufactureiro sirva de
motor e arraste os salários do resto da economia. Neste caso, esta
progressão do salário que tende a ultrapassar o ritmo dos ganhos
de produtividade resolve-se num suplemento de inflação. Existe
uma vasta literatura sobre este assunto e as configurações podem
ser mais complexas, fazendo intervir também os preços relativos
entre sectores. Mas a ideia geral é bastante simples: a difusão,
sob a forma de salários, dos ganhos de produtividade a partir dos
sectores onde eles são mais elevados para o resto da economia é
fonte de inflação. Para captar esta causalidade, pode-se utilizar
um indicador simples, o diferencial salarial, calculado como o afastamento
médio de crescimento do salário real entre o conjunto da economia
e o sector manufactureiro no período 1995-2007. Verifica-se que existe
uma ligação estreita e que discrimina claramente os dez
países (Irlanda excluída, por falta de dados) dos Norte e do Sul.
A inflação pode também ser o produto de um conflito de
repartição, tanto mais marcado quando o nível das
desigualdades de rendimentos for elevado. Constata-se que esta
ligação funciona de maneira convincente: a inflação
é mais elevada nos países onde o coeficiente de Gini (um
indicador sintético de medida das desigualdades de rendimento) for mais
elevado.
Dispõe-se no total de três linhas de explicação da
inflação estrutural:
- processo de recuperação
(rattrapage):
medido pelo nível de PIB per capita;
- dinâmica sectorial: medida pelo diferencial salarial entre o conjunto
da economia e o sector manufactureiro;
- conflito de repartição: medido pelo coeficiente de Gini.
A análise econométrica verifica a validade desta abordagem e
estabelece a significância das variáveis explicativas introduzidas
(enquadrado 1). Podem-se então sintetizar como se segue as determinantes
da inflação estrutural:
1. A inflação é mais elevada no país em que o
crescimento for mais rápido devido a um processo de
recuperação;
2. A inflação é tanto mais elevada quanto a
progressão do salário médio for próxima da do
salário no sector manufactureiro;
3. A inflação é mais elevada no país em que o grau
de desigualdade mais elevada engendra conflitos de repartição
mais assinaláveis.
Enquadrado 1
Uma modelização simples da inflação estrutural
Devido a colinearidades, efectuam-se duas estimativas separadas dão os
resultados abaixo:
Equação 1
infla = + 1,164 difsal + 10,0 GINI - 0,62
R2=0,953
(6,1)
(4,0)
(0,8)
Equação 2
infla = + 1,005 difsal - 0,096 pibt + 4,10
R2=0,916
(3,0)
(2,4)
(6,0)
infla: taxa de inflação (2000-2008)
difsal: diferencial salarial (1995-2007)
pibt: PIB per capital médio (1991-2000)
A média das duas estimativas pode portanto ser escrita;
infla = + 1,084 difsal + 5,0 GINI -0,048 pibt+ 1,74
Ela conduz às estimativas traçadas no gráfico 4 abaixo.
|
As diferenças na taxa de inflação estrutural não se
reduziram. Isso teria podido conduzir a um ajustamento salarial. Mas a
moderação salarial não foi suficiente para compensar os
diferenciais de inflação porque os países "em
recuperação" puderam escapar a este constrangimento devido
à existência de duas "variáveis de fuga".
3. A balança corrente, primeira "variável de fuga"
Se a moeda única não houvesse sido estabelecida, estas
diferenças de inflação estrutural teriam sido geridas por
ajustamentos da taxa de câmbio. Na ausência desta possibilidade, os
défices comerciais puderam, até certo ponto, aumentar sem
força em contrário uma vez que o défice não levava
a por em causa a moeda nacional. Se, por exemplo, a Espanha houvesse conservado
a peseta, ela não teria podido registar um défice externo que
chegou a 10% do PIB em 2007: sua moeda teria sido atacada. Há ali uma
primeira "variável de fuga" em relação à
lógica de disciplina salarial e orçamental do sistema euro.
No período que antecedeu a introdução do euro, o
comércio das duas grandes zonas era aproximadamente equilibrado. Mas a
divergência entrelaça-se muito rapidamente com um défice
crescente no Sul e o aumento dos excedentes no Norte (gráfico 5). A
França ocupa, como de costume, uma situação
intermediária mas o aumento recente do seu défice fá-la
progressivamente pender para o lado do Sul. Quanto à zona euro no seu
conjunto, seu comércio externo está tendencialmente equilibrado.
4. As taxas de juro reais, segunda "variável de fuga"
Uma das regras do sistema euro era liberalizar os movimentos de capitais, ao
passo que a taxa de juro do BCE desempenhava um papel director. Esta regra
funcionou bem e conduziu a uma equalização perfeita das taxas de
juro (gráfico 6A). Mas, na medida em que os afastamentos da taxa de
inflação se mantinham, e mesmo aumentavam, esta uniformidade da
taxa de juro nominal é acompanhada por um afastamento crescente das
taxas de juros reais líquidas da inflação própria
de cada país. A tendência geral era para a baixa, mas esta foi
ainda mais marcada nos países do Sul onde a inflação era
mais elevada (gráfico 6B).
Entre 2000 e 2007, a taxa de juro real foi assim em média de 2,7% nos
países do Norte, mas só de 1,2% nos países do Sul. Estas
fracas taxas de juro levaram a uma forte progressão da taxa de
endividamento das famílias, de 36% no Sul, contra apenas 4% no Norte.
Observa-se uma ligação significativa entre o nível
médio da taxa de juro real e o crescimento do endividamento das
famílias (gráfico 7). O crescimento mais elevado nos
países do Sul foi portanto sustentado em parte por este processo de
sobre-endividamento que alimentou as bolhas imobiliárias, nomeadamente
em Espanha.
5. A báscula alemã
A história do lugar ocupado pela economia alemã no mercado
mundial pode ser contada a partir da do seu excedente comercial, medido pela
sua balança corrente em proporção do PIB. Durante o
período que separa as duas recessões generalizadas (1974-75 e
1980-81) o excedente anula-se progressivamente. A década de 1980
corresponde a um restabelecimento vigoroso, de tal modo que o excedente
registado na véspera da reunificação é
comparável àquele que se pode observar hoje. A
reunificação de 1991 conduz a um desaparecimento quase
instantâneo deste excedente, que permanece muito fraco durante toda a
década de 1990. A viragem opera-se no princípio da década
de 2000 e conduz a uma recuperação espectacular que eleva o
excedente alemão até a 7% do PIB na véspera da crise
(gráfico 8).
Este restabelecimento do comércio exterior alemão foi obtido por
uma verdadeira báscula salarial. Até o estabelecimento do euro, a
maior parte dos países realizavam esforços de convergência,
sob a forma de uma baixa do custo salarial unitário ou, o que equivale
praticamente ao mesmo, de uma baixa da parte dos salários. Mas tudo muda
na Alemanha a partir do princípio dos anos 2000: a parte dos
salários põe-se a recuar, de maneira acelerada a partir de 2004.
Em alguns anos, o custo salarial unitário real baixa cerca de 10%. No
resto da zona euro, inclusive no Sul, o custo salarial unitário real
(ou, dito de outra forma, a parte dos salários) não baixa mais
senão a um ritmo muito lento (gráfico 9).
Esta constatação é decisiva: a competitividade da Alemanha
modificou-se brutalmente. E as taxas de inflação diferenciadas
ainda agravam o afastamento. Entre 1998 e 2007, o custo salarial
unitário nominal permaneceu constante na Alemanha, ao passo que aumentou
27% no Sul e 15% no conjunto constituído pela França e o Norte
fora a Alemanha.
No entanto, estas modificações nas relações de
competitividade não bastam para explicar a evolução das
balanças comerciais. Há que acrescentar um outro elemento, em
parte ligado ao anterior: o crescimento relativo da procura interna e em
particular do consumo. Também aqui as diferenças de
trajectória são consideráveis. Ao longo de dez anos, entre
1997 e 2007, o consumo aumentou em volume 28% na zona euro fora a Alemanha (do
qual 30% pelo Sul) mas somente 9% na Alemanha. Este afastamento proporciona uma
vantagem suplementar à Alemanha: o restabelecimento das margens e a
quase estagnação do consumo permitem acrescer as suas capacidades
produtivas. Pode-se verificar isso econometricamente (enquadrado 2): o custo
salarial só por si não pode dar conta da evolução
dos saldos comerciais, é preciso acrescentar um outro argumento, no caso
o crescimento do consumo privado.
Enquadrado 2
Uma modelação dos saldos comerciais
A equação econométrica explica a variação do
saldo comercial pelo crescimento do consumo e a do custo salarial
unitário no sector exportador-manufactureiro. Ela é testada em 10
países (não há dados para a Irlanda) e dá uma
estimativa de boa qualidade:
saldo = - 21,2 * consa - 15,8 * csumanuf + 41,7
R2 = 0,733
(2,4)
(1,6)
(4,0)
saldo: variação do saldo comercial taxa de inflação
(1998-2008)
consa : crescimento do consumo privado (1998-2008)
csumanuf : crescimento do custo salarial unitário na indústria
(1998-2008)
|
6. Um indicador sintético de divergência
Para melhor assinalar as diferenças de estrutura entre os países,
construiu-se um
indicador sintético de divergência
a partir das quatro características seguintes definidas em
relação à média da zona euro no período
2000-2007:
- crescimento: afastamento da taxa de crescimento média;
- inflação: afastamento da taxa de inflação
média;
- défice público: afastamento do saldo médio (em % do PIB);
- balança comercial: afastamento do saldo médio (em % do PIB)
O indicador sintético é calculado como a média destes
quatro indicadores elementares (após normalização em
tomando as variáveis centradas reduzidas). O gráfico 10 permite
ver a classificação dos países da zona conforme este
indicador de divergência. Os países que divergem
"positivamente" são aqueles que beneficiaram de um crescimento
superior, acompanhada de uma inflação e de défices
público e externo mais elevados. A correlação entre estas
quatro tendências-tipo não é evidentemente total e é
função do indicador sintético resumi-los numa grandeza
única, definida forçosamente de maneira convencional.
A classificação dos países reflecte bem a
partição entre o Norte e o Sul. Todos os países do Norte
têm um indicador negativo, o que quer dizer que o seu crescimento
é inferior mais "virtuoso" do ponto de vista dos
défices e da inflação. Reciprocamente, o indicador
relativo é positivo para todos os países do Sul. A França
encontra-se como de costume em posição intermediária,
ainda que ela "penda" um pouco do lado Sul e não esteja muito
afastada da Itália.
Pode-se verificar que este indicador sintético está bem
correlacionado com outros indicadores sócio-económicos.
Retiveram-se dois. O primeiro é a taxa de pobreza com a qual o indicador
de divergência está correlacionado positivamente (gráfico
11A). Uma segunda ligação pode ser estabelecida com um indicador
de democracia social construído como a média daqueles que Manfred
Schmidt (2008) e Thomas Meyer (2011) elaboraram (gráfico 11B).
Este indicador de divergência permite iluminar analiticamente a
coerência sócio-económica de cada um dos países da
zona euro que provocam diferenças estruturais profundas não
mostrando, como se viu, nenhuma tendência clara para a
convergência. Mas pode igualmente ser utilizado para explicar o impacto
diferencial da crise económica sobre as finanças públicas.
7. Da recessão à crise da dívida
Toda recessão tem um impacto mecânico sobre o défice
público. Mas se se relaciona o aumento do défice entre 2007 e
2009 com o recuo do PIB em 2009, constata-se uma diversidade muito grande na
amplitude deste impacto (gráfico 12A). Globalmente, os países do
Sul registam uma degradação do saldo orçamental de uma
amplitude bem superior à dos países do Norte (gráfico 12B).
Abstrair-se-ão aqui mediações explicando esta
repercussão diferencial para relacioná-la às
características estruturais de cada país, medidas pelo indicador
de divergência definido acima. Testa-se uma nova equação
econométrica que explica a degradação orçamental
por duas variáveis: a amplitude da recessão e o indicador de
divergência. Esta equação dá resultados
significativos (enquadrado 3). Este resultado é importante, porque ele
estabelece que amplitude da degradação orçamental pode ser
conectada às especificidades das economias nacionais.
Enquadrado 3
Depois de ter verificado a pertinência deste indicador, ele é
introduzido como variável explicativo do aumento do défice
público na equação econométrica abaixo:
ddef = 1,07*recessão - 4,23*indic - 2,39
R2=0,782
(4,5)
(4,2) (2,1)
ddef : variação do saldo orçamental 2008-2010
recessão : variação do PIB 2008-2009
indic : indicador divergência
|
Dito de outra forma, a crise das dívidas soberanas é a
expressão de uma crise mais sistémica que resulta da
heterogeneidade que existe entre os países membros da zona euro.
Globalmente, o défice público é igualmente menos
importante na zona euro que em outros grandes países capitalistas. No
seu ponto mais baixo, em 2009, ele representava 6,4% do PIB, menos que o
Japão (8,7%), o Reino Unido (11,0%) ou os Estados Unidos (11,6%). A
amplitude particular da crise das dívidas soberanas resulta, mais uma
vez, das regras específicas do sistema euro.
8. A história do euro: uma história simplificada
Os elementos de análise antecedentes mostram que os países da
zona euro estão efectivamente polarizados, de tal modo que a
distinção entre um "Norte" e um "Sul"
é globalmente validada. Os países do Sul partilham
características comuns dentre as quais a principal é uma
inflação estrutural mais elevada. Esta conduz a uma perda de
competitividade e a um aumento dos défices correntes, apesar de uma
baixa da parte dos salários semelhante à média da zona.
Estes países registam no entanto um crescimento superior durante a
década 1995-2005. Este desempenho é autorizado por duas
"variáveis de fuga": as entradas de capitais cobrem os
défices externos que, por definição, não
põem em causa a moeda nacional; a baixa das taxas de juro reais
(contrapartida da inflação estrutural mais elevada) favorece um
crescimento puxado pelo endividamento.
Mas a crise vem atingir e por em causa esta configuração. O
resultado mais importante desta análise é sem dúvida o
seguinte: a crise das dívidas soberanas é o sintoma de uma crise
específica do sistema euro. Esta não é, evidentemente, a
única dimensão desta crise que, mais amplamente,
põe em causa o funcionamento do capitalismo realmente existente
mas é própria da zona euro e não se manifesta com a mesma
acuidade nos outros países capitalistas: Estados Unidos, Reino Unido,
Japão, etc. Ela resulta do modo de funcionamento frágil e
incoerente da zona euro que pôde perdurar uma dezena de anos, mas na base
de processos que não podiam ser prolongados indefinidamente.
Admitamos um instante que a crise das dívidas seja ultrapassada: as
disfunções da zona euro não desapareceriam de todo, pois a
zona euro continuaria a reunir no seio de uma moeda única países
cujas características estruturais são diferentes, se nada
está previsto para gerar esta situação ou para iniciar um
processo de convergência.
9. O retorno do constrangimento externo
A profundidade desta crise pode ser medida pormenorizando de maneira mais
precisa a ligação existente entre o défice
orçamental e o défice comercial de cada país. Há
que partir aqui desta relação fundamental
[5]
:
|
Necessidade de financiamento público = poupança privada + entrada
de capitais
|
Esta igualdade contabilística enuncia que a necessidade de financiamento
público (positiva se o orçamento estiver em défice)
é afinal de contas coberta por duas fontes possíveis: pela
poupança privada nacional (empresas e famílias) e/ou pelas
entradas de capitais correspondentes ao défice da balança
corrente. Esta relação é contabilística, o que quer
dizer que sempre se verifica. Dito de outra forma, a variação de
um dos seus termos é forçosamente compensada por uma
variação dos dois outros, mas isso nada diz quanto aos mecanismos
de ajustamento que garantem a sua realização.
Esta relação proporciona uma grelha de leitura que permite mais
uma vez distinguir claramente os países do Norte e do Sul. Até
à crise, a necessidade de financiamento público evolui de maneira
relativamente semelhante nos dois grupos de países. Mas as suas
contrapartidas fazem surgir duas configurações inversas. No
Norte, a taxa de poupança nacional aumenta fortemente após o
estabelecimento do euro, ao passo que as exportações de capitais,
contrapartida dos excedentes comerciais, aumentam tendencialmente: as entradas
líquidas de capitais tornam-se negativas (gráfico 13 A).
No Sul, a configuração é inversa e faz surgir uma
periodização muito marcada. Antes do estabelecimento do euro, os
países do Sul reduzem seus défices orçamentais de modo a
satisfazer os critérios, com uma entrada suplementar de capitais como
contrapartida para compensar uma baixa da poupança privada. Até
à crise, os défices públicos não aumentam mas, a
partir de meados dos anos 2000, retorna-se pouco a pouco à
configuração que prevalecia antes do euro: os défices
externos aumentam, levando a entradas de capitais que compensam o recuo da
poupança privada. A explosão da crise traduz-se por um forte
aumento dos défices públicos. Ao mesmo tempo, os défices
externos reduzem-se e portanto as entradas de capitais. O bloqueio faz-se por
uma baixa muito forte da taxa de poupança privada (gráfico 13B).
É aqui que intervém um elemento fundamental da crise: ela
põe fim à entrada de capitais quase automática que
prevalecia até então. Dito de outra forma, os países do
Sul, os mais atingidos pela crise da dívida devem igualmente reduzir seu
défice comercial. Isso não é possível senão
aumentando a poupança nacional. Mas este modo de ajustamento não
é compatível senão com um crescimento notavelmente
reduzido. Existe com efeito uma ligação muito estreita, nos
países do Sul, entre a taxa de crescimento e as variações
da taxa de poupança privada.
A conclusão desta análise é clara: os países do Sul
registaram certamente um crescimento superior àquele dos países
do Norte entre 1995 e 2005 (gráfico 14A) mas este crescimento não
era sustentável porque repousava sobre uma baixa da taxa de
poupança nacional (gráfico 14B).
Esta "poupança negativa"
(désépargne)
nos países do Sul tinha como contrapartida uma entrada crescente de
capitais, favorecida pela desregulamentação financeira e pala
convergência das taxas de juro. Mas a partir do momento em que estas
entradas de capitais enfraquecem, a equação de equilíbrio
dos saldos põe-se a funcionar de outra forma: a necessidade de
financiamento público já não pode ser coberta senão
por um aumento considerável da taxa de poupança nacional
da ordem de 10% do PIB que por sua vez pesa sobre o crescimento
(gráfico 14B acima).
Esta nova configuração está destinada a durar e a
possibilidade de reatar o crescimento será tanto mais reduzida nos
países do Sul. Estes últimos acumularam com efeito um enorme
défice em termos de haveres externos líquidos: representa cerca
de 60% do PIB, ao passo que os países do Norte dispõem de haveres
externos líquidos positivos, equivalentes a cerca de 35% do PIB
(gráfico 15).
10. Face à derrocada
O verme estava na fruta, por uma razão de fundo que era possível
antecipar: "nada, nem na teoria nem na prática, permite sustentar o
postulado segundo o qual o constrangimento monetário permitiria
forçar a convergência real dos países europeus"
(Husson, 1996). A moeda única "postula a realização
de um espaço homogéneo para o qual ela supostamente
contribui" (Husson, 2001).
Com o recuo do tempo, o estabelecimento do sistema euro surgirá
provavelmente como um erro terrível que remete a uma cegueira
dogmática, mesmo neurótica, e de qualquer forma a uma
incompreensão total dos desafios de uma verdadeira
construção europeia. Hoje, a zona euro tornou-se o elo fraco da
economia mundial e pode-se mesmo dizer que a Europa está em vias de
devorar os seus próprios filhos.
As políticas conduzidas ao nível europeu parecem uma cega fuga
para a frente que engolfa toda a zona na espiral infernal
austeridade/recessão. O desemprego incrusta-se a um nível sem
precedentes e a única saída é uma terapia de choque cujo
alvo é a desconstrução do modelo social.
O debate recente sobre o aspecto crescimento que seria preciso
"acrescentar" à acumulação dos pactos de
austeridade impostos sob pretexto de saneamento orçamental está
completamente falsificado, uma vez que o "crescimento" mencionado
deveria encontrar a sua fonte miraculosa nas "reformas de estrutura"
que não podem senão afundar a zona euro na recessão.
Há nisso uma nova forma de obstinação dogmática que
ignora totalmente a questão dos ritmos sem efectuar qualquer
distinção entre as alavancas de uma recuperação
conjuntural e um relançamento do "crescimento potencial" cujos
efeitos hipotéticos, de qualquer forma, não poderiam ser sentido
senão médio-longo prazo. Diante de uma tal loucura, há
razões para estar não só "amedrontado", tal como
numerosos economistas em França, como muito simplesmente aterrorizado.
Seria vão pretender reescrever a história e mais vale examinar os
meios possíveis que permitam sair deste verdadeiro impasse. Podem-se
distinguir vários cenários possíveis: gestão ao
sabor da corrente, ajustamento estrutural, saída do euro e
refundação radical da construção europeia (+ moeda
comum). Nenhum deles entretanto traça um caminho real.
A política europeia oscila entre o ajustamento estrutural e a
gestão ao sabor da corrente. Um dia, jogo óleo sobre o fogo,
depois acciono o extintor no dia seguinte. A história recente da Europa
é uma alternância entre o reforço dos mecanismos de
austeridade e o salvamento da situação à beira do abismo.
A incoerência destas decisões sucessivas, a incapacidade total
para antecipar as evoluções, é o sinal de um dilema
profunda: como retornar ao
business as usual,
quando foi ele próprio que levou à crise? Estas
oscilações em torno de uma trajectória impossível
contribuem para desenhar o que se pode chamar de uma
"regulação caótica (Husson, 2009)", que é
o horizonte do capitalismo após a crise. A menos que nos resignemos a um
afundamento na regressão social, há que encarar vias alternativas.
A primeira em que se pensa é a saída do euro: uma vez que o
sistema euro não é viável, há que desfazê-lo.
Mas esta lógica simplista esquece que durante uma década
acumularam-se as contradições e elas conduziram a uma
acumulação de dívidas públicas e privadas
inextricavelmente misturadas no cerne do sistema bancário. A
saída do euro não seria em si mesmo um retorno ao ponto de
partida. Muitos argumentos têm sido trocados acerca desta questão,
em particular, evidentemente, sobre o caso grego. O principal é que o
retorno a uma moeda nacional autorizaria uma desvalorização
competitiva permitindo restabelecer o comércio externo e o financiamento
défice pelo Banco Central. Mas uma tal medida não resolveria por
si mesma o problema da carga da dívida já adquirida e conduziria
de facto a uma austeridade comparável àquela do ajustamento
estrutural
[6]
. A nova moeda estaria exposta sem protecção à
especulação generalizada que encadearia um ciclo sem fim de
desvalorização/inflação. Uma saída
generalizada ou, dito de outra forma, uma explosão total da zona euro,
não constitui, evidentemente, uma solução cooperativa
à escala da Europa: ela conduziria a uma guerra comercial
caótica. Mais genericamente, a estratégia de saída do euro
tende a transformar a questão social em questão nacional, como
mostram com mais pormenor três economistas gregos, aliás membros
do Syriza (Laskos, Milios, Tsakalotos, 2012). A ameaça de uma
saída do euro pode entretanto contribuir para a construção
de uma correlação de forças enquanto instrumento de
dissuasão: uma saída de um país do euro teria com efeito
repercussões importantes sobre os outros países.
11. Uma crise do sistema euro, para além da crise das dívidas
soberanas
Se o retorno ao passado não é uma solução
viável e se o sistema euro actual é incoerente, é preciso
pois visar uma refundação da construção europeia.
Tendo em conta a análise anterior, é entretanto necessário
distinguir dois objectivos em que a realização de cada um implica
uma ruptura com o sistema euro tal como ele funciona actualmente.
O primeiro objectivo consiste em reabsorver o peso das dívidas
acumuladas que entrava qualquer retomada da actividade e qualquer
reorientação do modo de desenvolvimento. Isso implica
soluções radicais, a saber: a reestruturação das
dívidas e a socialização dos bancos. Esta radicalidade
não é ditada por uma vontade de ultrapassagem, mas por uma
necessidade de coerência.
A alternativa tem a ver com o modo de reabsorção das
dívidas: ou são reabsorvidas pouco a pouco, à tarifa
actual, mas ao preço de pelo menos uma década de regressão
e dos sobressaltos económicos, sociais e políticos que a
acompanhariam, ou as dívidas são brutalmente reestruturadas ou
anuladas, de maneira a repor as contas a zero. Nesta lógica, a
socialização dos bancos é necessária por uma
razão de certa forma técnicas, porque é o único
meio de desenredar o novelo das dívidas, uma vez que as dívidas
soberanas são em grande possuídas pelos bancos. É o que
mostram os exemplos do Bankia em Espanha ou do Crédit Agricole em
França e, mais ainda, este paradoxo absurdo que faz com que o BCE ajude
maciçamente os bancos (1000 milhares de milhões de euros) ao
invés dos Estados em dificuldade. Finalmente, o terceiro aspecto deste
tríptico é a possibilidade para o Banco Central Europeu de
financiar directamente os Estados.
Faz-se tudo evidentemente para avançar soluções de fuga.
Poder-se-ia efectivamente mobilizar um arsenal keynesiano: aumento de capital
do BEI (Banco Europeu de Investimento) e dos seus empréstimos (60 mil
milhões de euros); mobilização dos fundos estruturais
não utilizados (82 mil milhões): tributação das
transacções financeiras (50 mil milhões por ano);
project bonds
(obrigações de projecto) para financiar grandes investimentos.
Poder-se-ia alongar e isto provavelmente será feito o
calendário do retorno ao equilíbrio orçamental. Antes de
lhes emprestar cegamente somas consideráveis, mais valeria mutualizar o
apoio aos bancos. O FESF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) ou a seguir
o MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade) poderiam ser utilizados para
recapitalizar directamente os bancos em dificuldade e completados por um
sistema comum de garantia de depósitos. Baixa da cotação
do euro, dose de inflação, recuperação dos
salários na Alemanha, todos estes factores poderiam apoiar as
políticas "ao sabor da corrente", mas apenas modificariam
marginalmente o calendário do ajustamento.
12. Romper com o sistema euro em nome de um outro projecto europeu
Se se recusa o ajustamento estrutural e a saída do euro, a única
via coerente é a da harmonização cooperativa. Ela
repousaria sobre um orçamento europeu alimentado por um imposto
unificado sobre os rendimentos do capital que financiaria as
transferências necessárias (fundos de harmonização)
e os investimentos social e ecologicamente úteis. Este
"federalismo" é no fundo o complemento indispensável
à existência de uma moeda única e à
construção de uma espaço económico comum.
Imaginemos um instante um país como a França onde cada uma das 21
regiões devesse assegurar o equilíbrio das suas finanças e
dos seus intercâmbios "externos", enquanto o orçamento
nacional seria limitado a 1% do PIB. Vê-se bem o absurdo de uma tal
construção, que está no entanto no fundamento do sistema
euro.
Mas a objecção é que este projecto
"europeísta" seria angélico e de qualquer forma fora do
alcance no contexto actual. Não haveria portanto nenhuma via de
saída: nem nacional, nem europeia. Se tal fosse o caso, mais uma vez, a
única orientação restante seria modular os programas de
austeridade a fim de os alongar no tempo, esperando que isso possa permitir
torná-los compatíveis com uma retomada do
"crescimento", seja qual for o conteúdo concreto. Mas isto
seria, então, uma austeridade sem fim. Patrick Artus mostra que, no caso
da Espanha, as evoluções necessárias (desendividamento,
redução do défice público, criação de
empregos novos) "levarão talvez décadas" (Artus, 2012).
E isto é lógico: várias décadas de
desequilíbrios acumulados e convertidos em dívida conduzem outras
tantas décadas de desendividamento.
Para sair deste impasse, existe um atalho que é, para resumir, uma
ruptura unilateral com a Europa realmente existente em nome de um outro
projecto para a Europa. Pode-se falar aqui de um programa de
transição que combina a recusa das regras do sistema euro com uma
vontade de generalização da experiência alternativa ao
conjunto da zona. Não se espera o surgimento miraculoso de uma
"boa" Europa e adopta-se um "proteccionismo de
extensão" que consiste em proteger a experiência de
transformação social propondo sempre a sua extensão
(Husson, 2011, 2012). É este projecto que propunha o plano de
urgência do Syriza para as eleições gregas de 17 de Junho
de 2012. Ele avançava nomeadamente estes três pontos
[7]
: 1. Anulação do memorando, de todas as medidas de austeridade e
das contra-reformas do trabalho; 2. Nacionalização dos bancos; 3.
Moratória sobre a dívida para identificar e anular a
dívida ilegítima.
A principal conclusão desta análise é que a crise das
dívidas soberanas revela uma crise mais profunda, a do sistema euro. A
crise do capitalismo veio impactar um projecto incoerente: reunir numa
união monetária países diferentes, recusando-lhes todos os
meios de assegurar a sua convergência ou de organizar as suas
relações. A necessária refundação europeia
não pode ganhar corpos senão por uma recusa assumida de regras
inadaptadas, que não fizeram senão cavar o afastamento entre os
países da zona euro. Mas ela não se reduz a este objectivo: a
alternativa exige outras rupturas e, nomeadamente, uma outra
repartição das riquezas, necessária à sua
coerência. Uma ruptura com o sistema euro não encontrar sua
legitimidade senão numa ruptura com o capitalismo neoliberal e um
projecto de extensão cooperativa. Os princípios de uma Europa
solidária são com efeito incompatíveis com uma pura
lógica capitalista. É o que torna o futuro tão incerto e
exigente.
Anexo 1
Custo salarial, parte dos salários e competitividade
A parte dos salários (PSAL) pode ser definida simplesmente como a
relação entre as remunerações salariais (REM) e o
PIB (pQ), ou seja: PSAL = REM/pQ. As remunerações (incluindo
contribuições sociais) podem ser decompostas em salário
por cabeça (w) e efectivos assalariados (N). Tem-se pois REM=Nw e
pode-se reescrever a parte dos salários de modo a fazer surgir o
salário real (w/p) e a produtividade (Q/N): PSAL = (w/p) / (Q/N)
O custo salarial unitário (CSU) representa o custo salarial por unidade
produzida. A um nível muito global, ele pode ser calculado dividindo as
remunerações totais pelo PIB em volume: CSU = REM/Q
O custo salarial unitário real representa o custo salarial real por
unidade produzida. Ele se escreve: CSUR = REM/pQ
Reencontra-se portanto a expressão definindo a parte dos
salários, que é portanto um indicador muito próximo do
custo salarial unitário real. As duas grandezas diferem pelo jogo dos
preços relativos (o salário real é calculado tomando o
preço no consumo ao invés do preço do PIB)
Reencontra-se pois a expressão que define a parte dos salários,
que é portanto um indicador muito próximo do custo salarial
unitário real. As duas grandezas diferem pelo jogos dos preços
relativos (o salário real é calculado tomando o preço no
consumo ao invés do preço do PIB) e devido à
correcção necess´ria para considerar os
não-assalariados no cálculo da produtividade.
A competitividade-custo de um país resulta da comparação
entre o seu custo salarial unitário (CSU) e o dos seus concorrentes. Na
generalidade, é preciso introduzir a taxa de câmbio para efectuar
esta comparação, mas isso é evidentemente supérfluo
no interior da zona euro. Considerando as definições recordadas
acima, o custo salarial unitário pode ser simplesmente decomposto da
seguinte maneira: CSU = p. PSAL
Esta decomposição mostra que a competitividade-custo de um
país pode degradar-se de duas maneiras:
- seja porque o custo salarial unitário do país considerado
aumenta mais rapidamente que o dos seus concorrentes;
- seja porque a inflação é mais rápida neste
país.
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Anexo 2
A equação de equilíbrio dos saldos
O ponto de partida é uma contabilidade nacional simplificada. Ela
comporta quatro "agentes" ou "sectores institucionais": as
famílias, as empresas, o Estado e o exterior (o resto do mundo). A
primeira linha do quadro de conjunto abaixo descreve as diversas
contribuições dos agentes para o PIB. As três linhas
seguintes registam as operações que ligam estes agentes entre si:
os salários, os impostos, as operações financiamento.
À esquerda figuram os empregos, à direita os recursos. Cada linha
está equilibrada: o total dos empregos é igual ao total dos
recursos.
As famílias
tiram o seu rendimento apenas dos salários (SAL). Elas os utilizam para
consumir (C), para pagar impostos (T) e resta-lhe uma poupança (S). Os
empregos são iguais aos recursos: SAL = C + T + S
As empresas
realizam um valor acrescentado (PIB) e completam este recurso pelo
endividamento (END). Do lado dos empregos, elas transferem salários
às famílias (SAL) e ao investimento (I): PIB + END = I + SAL
O Estado
arrecada impostos (T) e realiza despesas públicas (G). A
diferença entre os dois é o saldo orçamental (D): D = T- G
A conta do exterior
descreve as relações comerciais do país, ou seja, suas
exportações (X) e suas importações (M), a
diferença representando a balança comercial (B): B = X M
Como este quadro contabilístico está completamente equilibrado,
passa-se o mesmo para a linha baptizada "financiamento".
Obtém-se pois esta igualdade contabilística fundamental:
- D = (S END) B
(S END) representa a poupança líquida do sector privado
que reúne as famílias e as empresas. D é o saldo
orçamental (positivo em caso de excedente) e D representa portanto
a necessidade de financiamento público. B é o saldo comercial
(positivo em caso de excedente) e B corresponde às entradas de
capitais. Consequentemente, a relação pode ser assim reformulada:
Necessidade de financiamento público = poupança privada + entrada
de capitais
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Referências
Artus P. (2012), " Combien de temps pour un retour à la normale en
Espagne?",
Flash Economie
n°437, Natixis, 17 juin.
Felipe J., Kumar U. (2011), " Unit Labor Costs in the Eurozone : The
Competitiveness Debate Again ", Levy Economics Institute,
Working Paper
n°651, February.
Husson M. (1996), "Les mystères de Maastricht", 1996.
Husson M. (2001), "Paradoxes et incertitudes de l'euro", dans:
Fondation Copernic,
Un social-libéralisme à la française ?
La Découverte, 2001.
Husson M. (2009), "Capitalisme: vers une régulation chaotique".
Husson M. (2010), "Le partage de la valeur ajoutée en Europe",
La Revue de l'Ires
n°64.
Husson M. (2011), "Euro: en sortir ou pas",
Inprecor
n°575/576, 2011.
Husson M. (2012), "A radical strategy for Europe", dans: E. Chiti,
A.J. Menéndez, P. Teixeira (eds),
The European rescue of the European Union?
, RECON Report 2012.
Laskos C., Milios J., Tsakalotos E.,
Communist Dilemmas on the Greek Euro-Crisis: To Exit or Not to Exit?
mai 2012.
Meyer T. (2011),
Theorie der Sozialen Demokratie
, VS Verlag für Sozialwissenschaften, Wiesbaden.
Sapir J. (2011),
La démondialisation,
Le Seuil.
Sapir J. (2006), "Articulation entre inflation monétaire et
inflation naturelle: un modèle hétérodoxe
bi-sectoriel", communication au séminaire Franco-russe, Stavropol,
Octobre.
Schmidt M. (2008),
Demokratietheorien,
VS Verlag für Sozialwissenschaften, Wiesbaden.
Syriza (2012), Mesures d'urgence et Manifeste sur les politiques sociales et
économiques. Junho/2012
Notas
1. Deixam-se assim de lado os cinco países que integraram posteriormente
a zona euro: a Eslovénia em 2007, Chipre e Malta em 2008, a
Eslováquia em 2009 e a Estónia em 2011.
2. Os dados referentes ao Norte e ao Sul são obtidos por
agregação ou por ponderação conforme o peso
económico medido pelo PIB. Em proporção ao total da zona
euro (11 países), o Norte pesa 43,4% (Alemanha: 28,3%; Áustria :
3,0 % ; Bélgica : 3,8 % ; Finlândia : 1,9 % Países Baixos:
6,4 %). O Sul pesa 35,3 % (Espanha: 11,0 % ; Grécia: 2,3 % ; Irlanda:
1,9 % ; Itália: 18,0 % ; Portugal: 1,9 %). A França representa
21,3%. A validade desta partição, definida
a priori,
foi testada numa fase preliminar do estudo.
3. Ver o anexo 1 para a definição do custo salarial
unitário.
4. Salvo menção em contrário, os dados provêm da
base de dados Ameco produzida pela Comissão Europeia.
5. Ver o anexo 2 para a sua construção.
6. Sobre a questão da saída do euro, ver Husson, 2011 e 2012.
7. Impressiona constatar que a imprensa internacional tudo fez para apresentar
a saída do euro como a aposta principal deste debate, apesar de esta
perspectiva não fazer parte do programa do Syriza.
[*]
Estatístico e economista. Trabalha no Institut de Recherches
Economiques
et Sociales (
IRES
), criado por centrais sindicais francesas.
O original encontra-se em
http://hussonet.free.fr/eceurow.pdf
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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