Europa em crise
Parte 1: O espaço alemão de acumulação
O actual estado de coisas na Eurozona e na UE reflecte a partição
da União Europeia em três grupos.
O primeiro é um grupo de países neo-mercantilistas centrados na
Alemanha e constituído pela Holanda, Bélgica, Áustria e
Escandinávia. O seu neo-mercantilismo pode ser definido como forte
devido ao seu persistente excedente de exportações
realizado principalmente dentro da Europa, dada a tendência de
défices ascendentes com a Ásia não compensados pelo
excedente flutuante com os Estados Unidos. Os desequilíbrios externos
líquidos do grupo não dependem muito da
desvalorização nominal da divisa. A posição
líquida repousa sobre o efeito combinado de manter uma poderosa
indústria de bens de capital, ligada através da Alemanha a
corporações oligopolistas globais, enquanto macroeconomicamente
apresenta uma taxa de crescimento a longo prazo muito baixa. A Alemanha
não é a locomotiva da Europa. A partir da década de 1970 a
Europa Ocidental apresentou sistematicamente uma taxa de crescimento muito mais
alta estimulando com isso as exportações da Alemanha e dos seus
satélites económicos. Portanto o grupo neo-mercantilista
exemplifica uma situação clássica de monopólio do
capital, convertida numa macroeconomia institucionalizada estabelecida pelo
próprio processo da
construction européenne
desejado pela França.
No passado a Alemanha procurava taxas de câmbio estáveis para
evitar desvalorizações competitivas. No contexto de uma moeda
única um tal objectivo transmutou-se em deflação salarial
competitiva. A estagnação interna assegura que os salários
alemães crescem menos do que a produtividade. O sistema contratual do
país, baseado numa entente neo-mercantilista com os sindicatos, permite
ao fosso entre produtividade e salários ser mais favorável ao
capital em comparação com o resto da Europa. Tudo isto leva ao
baixo crescimento na Alemanha reforçando sua competitividade exportadora
por meio de deflação salarial. O resultado final é que
enquanto a Europa nada pode fazer sem maquinaria e inputs tecnológicos
alemães, a Alemanha não é um importador em expansão
rápida, portanto não contribui para a procura líquida
europeia. Ela com isso acumula excedentes externos muito grandes que são
utilizados para financiar Investimento Directo Estrangeiro e joint ventures na
China e alhures, bem como para comprar papéis financeiros de pacotilha
dos EUA como aconteceu no salvamento do Landesbanken.
O segundo grupo de países é a periferia interna europeia,
encabeçado pela Itália. Firmas em Portugal, Espanha e
Grécia gostariam de gerar exportações líquidas mas
não podem porque, não obstante o seu crescimento exportador, elas
têm um fraco sector interno de bens de capital. A dependência das
importações sobre sectores tecnológicos e também
sobre bens duradouros é tal que as passadas
desvalorizações anteriores ao euro não ajudaram a melhorar
a posição externa destes países. Tanto a Espanha como a
Grécia, mas não Portugal, experimentaram taxas de crescimento
médio mais altas do que a UE. O crescimento da Espanha deveu-se à
inserção do país no mercado imobiliário
internacional via Londres. No caso da Grécia o défice
orçamental
(fiscal deficit)
permitiu-lhe sustentar um crescimento orientado para a
importação. Em ambos os exemplos o crescimento da procura interna
levou a actividade mais intensa implicando ainda mais importações
per capita. Perceba-se que não fosse o seu sector financeiro mundial, a
Grã-Bretanha pertenceria aos países com défice persistente
da periferia europeia. A Itália, por outro lado, tem sido um exportador
líquido. Mas os seus melhores desempenhos nas exportações
líquidas verificaram-se quando a Lira desvalorizou-se relativamente ao
Deutsche Mark. Com o Euro a posição externa líquida
deteriorou-se drasticamente, tornando-se negativa em 2005. A Itália
simboliza a forma fraca de neo-mercantilismo dependente da
desvalorização da divisa. A Itália pertence portanto
à periferia interna uma vez que a sua posição
internacional estava ligada a um enfraquecimento da divisa. No cômputo
geral, o Euro restringiu o espaço europeu do capitalismo italiano.
O terceiro grupo é constituído unicamente pela França; um
caso muito especial. Ela tem uma acentuada postura neo-mercantilista mas
raramente tem êxito. É o maior mercado de
exportações líquidas para a Alemanha e cada vez mais
também para a Itália. A partir de 1980 a França conseguiu
uma posição externa líquida só no rastro do colapso
do Sistema Monetário Europeu em 1992-93, perdendo-o quatro anos depois
após a constituição do euro. Ao contrário da
Itália, a França, devido ao peso do seu sector financeiro, tentou
evitar o caminho da desvalorização competitiva. O plano para uma
euro-divisa comum era essencialmente de Mitterrand-Delors, como um meio de
contornar o neo-mercantilismo fracassado e exercer controle sobre
políticas monetárias da Alemanha. A posição
peculiar da França é relevante para a crise actual.
Parte 2: A Eurolândia num beco sem saída
Considere-se agora o facto de que desde a década de 1970 a Alemanha tem
tido uma política deliberada e com êxito de manter a sua
própria taxa de crescimento bem abaixo daquela do resto da Europa com o
objectivo preciso de acumular excedentes financeiros. A França
também não está muito interessada em crescimento
sustentado porque sucessivos governos, incluindo o de Mitterand, temem
reivindicações salariais. Finalmente, a Itália pode
crescer se condições de taxa de câmbio favoráveis
prevalecerem uma vez que os gastos do sector público deixaram de apoiar
o crescimento do país já nos fins da década de 1970. Sob
tais circunstâncias não é nada surpreendente que na Europa
Ocidental as taxas de crescimento declinassem durante todo os anos nas
últimas quatro décadas. A Europa tem estado a cair cada vez mais
nas garras dos excedentes alemães, sendo o único ponto brilhante
exportações líquidas para os Estados Unidos as quais,
contudo, dificilmente compensam os défices crescentes com a Ásia.
A constituição do Euro cristalizou completamente a
situação e permitiu à Alemanha alcançar excedentes
sem precedentes num contexto de aprofundamento da estagnação
europeia. Quando a saída estado-unidense cessou de funcionar no rastro
da crise subprime, a qual caiu em cascata sobre papéis derivativos
possuídos pelo Landesbanken, a Alemanha endureceu a sua
posição neo-mercantilista e decidiu unilateralmente reescrever as
regras do jogo.
A crise grega é simplesmente o caminho escolhido por Berlim para
modificar o código de conduta em detrimento da França. Em si
mesmo não há um problema de défice grego excessivo. Ele
pode facilmente ser manuseado ao nível europeu concebendo
políticas comuns para relançar o crescimento europeu e
especificamente o da Grécia, pois é a única cura que
não mata o paciente. Cortes drásticos na despesa pública,
enquanto desarticulam todo o sistema de serviços e infraestrutura sobre
o qual repousa uma sociedade moderna, reduzem o rácio da dívida
apenas marginalmente, se é que o fazem. Mas da perspectiva
neo-mercantilista de Berlim, uma opção cooperativa não
é contemplada sequer remotamente devido às seguintes
razões:
A Alemanha encara a Eurozona como um sistema de taxa de câmbio fixo bom
apenas para impedir desvalorizações competitivas (no passado as
desvalorizações mais danosas e eficazes
foram as da Itália). Para a Alemanha a
cláusula da não transferência santificada nos Tratados de
Maastricht-Dublim-Amesterdão devem manter-se em vigor uma vez que o
papel essencial da Europa Ocidental é proporcionar procura efectiva
líquida para exportações da Alemanha. Como informou
Wolfgang Munchau no
Financial Times
de 21 de Março: "Rainer Brüderle, ministro da Economia,
disse na semana passada que não havia nada que o governo pudesse fazer
acerca da procura porque o consumo era uma decisão de indivíduos
privado. O alto responsável do Bundesbank chegou a comparar a eurozona a
um clube de futebol, no qual a Alemanha orgulhosamente matinha o primeiro
lugar". A comparação é claramente falsa: para
competir com a Alemanha, os países da Eurozona teriam de reduzir as suas
próprias taxas de crescimento bem abaixo das da Alemanha, o que
significa que elas terão de ser zero ou mesmo negativas. Foi esta
"gestalt" que pressionou Sarkozy a confrontar Merkel, embora o tenha
feito demasiado tarde, só depois de o governo alemão perder a
maioria no Bundesrat a seguir às eleições no Norte-Reno
Westphalia em 17 de Maio.
O endurecimento da posição alemã em relação
à Grécia e aos países ibéricos deve-se
também ao foco de Berlim sobre a sua própria periferia externa na
Europa Oriental envolvendo os países Bálticos, os quais
estão numa depressão total, e Eslováquia e Hungria em
recessão profunda. É um segredo público que, embora
recusando-se a confirmar, o BCE tem estado a comprar seus títulos como
colaterais para empréstimos, absolvendo dessa forma bancos
austríacos e suecos do seu comportamento imprudente na concessão
de empréstimos. Isto é feito com o pleno apoio de Berlim. A
oposição da Alemanha à ajuda à Grécia faz
parte da sua política de distribuir moeda para áreas que
são zonas satélites de Berlim e para as áreas de
companhias alemãs que reestruturam estratégias, como é o
caso com a Europa Oriental.
Após as eleições no Reno-Norte Westphalia, a França
obrigou Berlim a aceitar um fundo euro de 750 mil milhões. Algumas
figuras eminentes
(Financial Times
de 21 de Maio) anunciaram a decisão como um passo em frente rumo ao federalismo fiscal
na Europa. Não é nada disso. Na melhor das hipóteses
é uma fundo de emergência, um fundo muito opaco que, o qual é
estruturado num veículo especial de investimento cujo conteúdo
é desconhecido. A sua natureza de tipo instrumento tóxico destaca
a gravidade da situação e portanto sublinham a sua
inadequação. Isto explica porque o fundo fantasma não
está a aplacar os mercados.
As expectativas estão a tornar-se piores pela corrida para a base gerada
pelo desovar alemão da crise grega. Cada país está a tomar
medidas de austeridade que farão da recuperação um evento
acidental. Além disso, o conflito entre a Alemanha e a França
está a ser estreitado para duas regras orçamentais competidoras,
mas semelhantes, para a União Europeia. O plano alemão baseia-se
na sua própria terrífica lei do orçamento equilibrado e a
novíssima proposta francesa de uma trajectória rumo a um
orçamento equilibrado. Ambas afundarão ao chocarem-se nas rochas
das assimetrias intra-eurozona e do agravamento da crise social que leva a
grandes perdas de receitas fiscais.
[*]
Economista, professor no International University College de Turim. Co-autor,
com Yanis Varoufakis e Nicholas Theocarakis, de
Modern Political Economics: Making Sense of the Post-2008 World
, Routledge, 2011.
NR: Este artigo de 2010 é publicado agora por se considerar
que a classificação de países europeus feita pelo autor
mantém-se válida, assim como grande parte da sua análise.
O original encontra-se em
www.re-public.gr/en/?p=2408#more-2408
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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