Berlim Novas Caras, Políticas Velhas?
Tudo mudou! Nada mudou!
Apesar de algumas dificuldades inesperadas, formou-se em Berlim uma nova
coligação. Gerhard Schroeder, seguro de si, arrogante mesmo
até aos seus últimos dias de líder, foi
substituído, pela primeira vez na história da Alemanha, por uma
mulher na chefia de um governo, ainda por cima da Alemanha oriental, embora
nunca tenha lutado pelos direitos das mulheres nem dos alemães orientais.
E pela primeira vez desde 1969, o país vai ser governado por uma
coligação dos dois principais partidos, os Democratas
Cristãos de centro direita (CDU), mais o partido bávaro seu
irmão, a União Social Cristã (CSU), e os Sociais
Democratas (SPD), ainda por vezes designados como de centro esquerda. Cada um
deles vai ter oito lugares ministeriais; ambas as partes estão agora a
afinar uma política conjunta.
Não, a mudança não é grande. A CDU, embora na
oposição desde que o SPD de Schroeder derrotou o governo de Kohl
em 1998, foi sempre uma oposição mais que fiel. Oh, praguejaram
contra a incompetência, as asneiras, a falsa política do SPD, por
vezes em tom inflamado, excitado. Mas quando as coisas acalmavam, apoiaram
quase todas as políticas chave do governo. E fizeram-no de bom grado,
porque essas políticas, quase todas elas sem excepção,
eram as que os doutores prescreviam os doutores, os professores e outros
especialistas ligados intimamente aos grandes negócios. A receita deles
para sair do prolongado caos económico com o desemprego a rondar
quase os 10 por cento (mais de cinco milhões de pessoas) e a atingir 20
por cento ou mais nas regiões de leste foi
diminuir os impostos sobre os ricos
,
reduzir os impostos às empresas
, onerar os
serviços médicos
que foram sempre gratuitos, aumentar fortemente
os preços sobre a
assistência médica e medicamentosa
,
impulsionar a
privatização parcial
das futuras pensões e
congelar as actuais apesar da inflação
, tomar
fracas medidas opcionais
; de formação profissional para ajudar os
jovens desesperados, cortar os subsídios aos
desempregados a longo prazo
até ao
nível da fome
, obrigando-os a aceitar trabalhos pagos a um
ou dois euros por hora ou a perder todos os benefícios,
fazer vista grossa
às tentativas da indústria para exigir
mais horas de trabalho por semana
, menos férias,
menos protecção contra despedimentos
em suma, políticas para destruir um nível de
vida decente que a maioria dos trabalhadores conquistou ao longo de anos de
luta (ajudada pela existência de dois estados alemães
concorrentes). A reacção da CDU foi De acordo! Mas cortes
ainda mais profundos!
As políticas anti-sociais, concertadas no passado pelo governo e pela
oposição, provaram ser um fracasso. Agora estão ambos
unidos, ameaçando um futuro alarmante.
É verdade que, ao contrário da CDU, Schroeder se opôs
à guerra do Iraque, o que lhe permitiu falar alto durante as
eleições de 2002: os eleitores da Alemanha de leste, que tiveram
um peso decisivo, opuseram-se esmagadoramente à guerra. Mas tomou parte
activa nas guerras dos Balcãs e do Afeganistão. Peter Struck, o
ministro da defesa, deixou muito clara a política oficial: Nos
últimos quinze anos,
o mundo inteiro tornou-se um campo de operações para a Bundeswehr [as forças armadas alemãs]
.
E quanto aos três partidos menores no Bundestag?
Os Democratas Livres, outrora um partido liberal da classe média, com o
passar dos anos aproximaram-se cada vez mais da direita e estão
tão intimamente ligados aos grandes negócios como a CDU.
Esperavam ser um parceiro menor da CDU e andaram atarefados a escolher lugares
ministeriais para os seus dirigentes. Mas, infelizmente, os seus 61 lugares
mais os 226 da CDU não atingiram a maioria (de 614). Agora ficaram de
fora e ainda andam amuados pelos cantos.
Os Verdes foram em tempos um vigoroso partido de esquerda. Mas nos anos em que
foram parceiros menores do SPD obtiveram três cargos ministeriais,
incluindo o do ministro dos Estrangeiros, Joschka Fischer, e amansaram a maior
parte das suas antigas aspirações radicais. Apoiaram até
ao fim o programa anti-social de Schroeder e, apesar das suas antigas
raízes pacifistas, apoiaram mesmo a política de expansão
militar e de guerra. As eleições antecipadas, a que se opuseram,
correram com eles do poder com 51 lugares, são agora o partido
mais fraco no Bundestag e têm poucas posições de
força em qualquer lado.
Mas a situação política viu uma mudança crucial
potencial. Há um factor novo no Bundestag, o
Partido de Esquerda
, composto pelo antigo Partido do Socialismo Democrático (PDS), um
rebento
totalmente reformado do partido dirigente da ex-Alemanha de Leste (SED), com a
maior parte da sua força na Alemanha oriental, e pela Alternativa
Eleitoral para o Emprego e Justiça Social (
WASG
), uma força nova,
mais forte na Alemanha ocidental, com alguns dirigentes sindicais irritados,
grupos anti-globalização e sociais-democratas descontentes.
Só o PDS esteve no antigo Bundestag, com duas jovens
Gesine Lötzsch
e
Petra Pau
eleitas directamente pela secção
eleitoral de Berlim leste; nas eleições de 2002, o partido
não atingira os 5 por cento exigidos para participação no
Bundestag.
Lötzsch e Pau foram quase completamente ignoradas, melhor dizendo
insultadas, e muita gente nos corredores do poder tinha obviamente a
esperança de que o PDS acabasse por desaparecer depois de uma nova
derrota.
Mas a campanha inesperada para as eleições antecipadas inspirou
Gregor Gysi, o antigo líder do PDS, e Oskar Lafontaine, um líder
da nova WASG (ex- dirigente do SPD antes de sair enojado), a juntarem os
esforços numa aliança.
Ainda não foi formado um novo partido (apesar de alguns problemas, isso
deve vir a verificar-se dentro de um ano mais ou menos). Mas quando o PDS
concordou em alterar o seu nome, a WASG concordou em candidatar-se
conjuntamente. A aliança dos dois, com uma força inesperada nas
áreas ocidentais, possibilitou que o partido conquistasse 8,7 por cento
dos votos; ou seja, 54 deputados no Bundestag, mais "wessies" (do
ocidente) do que "ossis" (do oriente), 26 homens, 24 mulheres
e a oportunidade de se tornar numa oposição efectiva.
A mera presença do Partido de Esquerda já produziu alguns
resultados. O SPD de Schroeder, com medo de um programa verdadeiramente de
esquerda, depois de se ter desviado para a direita durante sete anos,
começou de repente a promover um programa menos anti-social
modificou as necessidades prescritas por ele próprio e afirmou ser o
partido da "arraia miúda, dos sindicalizados, dos desempregados,
das mães solteiras, dos pobres". Muita gente gostou disso
ou teve medo do mal maior, a ameaça de Angela Merkel e dos seus
cúmplices tenebrosos e ajudou o SPD a arrebanhar votos, falhando
a vitória apenas por um por cento, e este mesmo medo duma esquerda
genuína está agora a forçá-lo a fazer
exigências sociais nas negociações para um novo plano do
governo. Talvez que seja possível evitar ou atrasar parte
dos piores horrores, já que esta oposição nova e agressiva
impedirá tentativas de levar a efeito legislação interna
anti-social e políticas externas expansionistas que não têm
tido praticamente ninguém para as denunciar no Bundestag. Os 54
delegados do Partido de Esquerda já não podem ser ignorados pelos
líderes do Bundestag ou pelos meios de comunicação. Claro,
vão certamente tentar quebrar a delegação do Partido de
Esquerda logo que possível. Como é um grupo muito
heterogéneo, e a maioria dos seus membros tem pouca experiência
num órgão destes, isso é um perigo permanente. Mas basta a
presença dos delegados de esquerda em todas as comissões e em
todos os debates, mesmo que dificilmente consigam fazer aprovar leis por si
propostas, para tornar a vida difícil aos que até aqui apenas
davam ouvidos aos grupos de pressão ou aos seus consultores de
impostos e de investimentos. Talvez venha mesmo a ser possível ligar as
acções do Partido de Esquerda no Bundestag às pessoas nas
fábricas, nas escolas, nos hospitais e nas ruas. Que mudança
seria isso!
Sim, haverá muita discussão entre os membros da nova
coligação governamental. Mas, na verdade, a cena lá no
alto não mudou radicalmente. No entanto, na base onde isso conta,
poderá haver algumas mudanças profundas.
[*]
Victor Grossman, jornalista e autor americano, vive em Berlim leste há
muitos anos. É o autor de
Crossing the River: A Memoir of the American Left, the Cold War, e Life in East Germany
(University of Massachusetts Press, 2003).
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/grossman141005.html
.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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