Berlim – Novas Caras, Políticas Velhas?

por Victor Grossman [*]

. Tudo mudou! Nada mudou!

Apesar de algumas dificuldades inesperadas, formou-se em Berlim uma nova coligação. Gerhard Schroeder, seguro de si, arrogante mesmo até aos seus últimos dias de líder, foi substituído, pela primeira vez na história da Alemanha, por uma mulher na chefia de um governo, ainda por cima da Alemanha oriental, embora nunca tenha lutado pelos direitos das mulheres nem dos alemães orientais.

E pela primeira vez desde 1969, o país vai ser governado por uma coligação dos dois principais partidos, os Democratas Cristãos de centro direita (CDU), mais o partido bávaro seu irmão, a União Social Cristã (CSU), e os Sociais Democratas (SPD), ainda por vezes designados como de centro esquerda. Cada um deles vai ter oito lugares ministeriais; ambas as partes estão agora a afinar uma política conjunta.

Não, a mudança não é grande. A CDU, embora na oposição desde que o SPD de Schroeder derrotou o governo de Kohl em 1998, foi sempre uma oposição mais que fiel. Oh, praguejaram contra a incompetência, as asneiras, a falsa política do SPD, por vezes em tom inflamado, excitado. Mas quando as coisas acalmavam, apoiaram quase todas as políticas chave do governo. E fizeram-no de bom grado, porque essas políticas, quase todas elas sem excepção, eram as que os doutores prescreviam — os doutores, os professores e outros especialistas ligados intimamente aos grandes negócios. A receita deles para sair do prolongado caos económico — com o desemprego a rondar quase os 10 por cento (mais de cinco milhões de pessoas) e a atingir 20 por cento ou mais nas regiões de leste — foi diminuir os impostos sobre os ricos , reduzir os impostos às empresas , onerar os serviços médicos que foram sempre gratuitos, aumentar fortemente os preços sobre a assistência médica e medicamentosa , impulsionar a privatização parcial das futuras pensões e congelar as actuais apesar da inflação , tomar fracas medidas “opcionais” ; de formação profissional para ajudar os jovens desesperados, cortar os subsídios aos desempregados a longo prazo até ao nível da fome , obrigando-os a aceitar trabalhos pagos a um ou dois euros por hora ou a perder todos os benefícios, fazer vista grossa às tentativas da indústria para exigir mais horas de trabalho por semana , menos férias, menos protecção contra despedimentos — em suma, políticas para destruir um nível de vida decente que a maioria dos trabalhadores conquistou ao longo de anos de luta (ajudada pela existência de dois estados alemães concorrentes). A reacção da CDU foi “De acordo! Mas cortes ainda mais profundos!”

As políticas anti-sociais, concertadas no passado pelo governo e pela oposição, provaram ser um fracasso. Agora estão ambos unidos, ameaçando um futuro alarmante.

É verdade que, ao contrário da CDU, Schroeder se opôs à guerra do Iraque, o que lhe permitiu falar alto durante as eleições de 2002: os eleitores da Alemanha de leste, que tiveram um peso decisivo, opuseram-se esmagadoramente à guerra. Mas tomou parte activa nas guerras dos Balcãs e do Afeganistão. Peter Struck, o ministro da defesa, deixou muito clara a política oficial: Nos últimos quinze anos, “o mundo inteiro tornou-se um campo de operações para a Bundeswehr [as forças armadas alemãs]” .

E quanto aos três partidos menores no Bundestag?

Os Democratas Livres, outrora um partido liberal da classe média, com o passar dos anos aproximaram-se cada vez mais da direita e estão tão intimamente ligados aos grandes negócios como a CDU. Esperavam ser um parceiro menor da CDU e andaram atarefados a escolher lugares ministeriais para os seus dirigentes. Mas, infelizmente, os seus 61 lugares mais os 226 da CDU não atingiram a maioria (de 614). Agora ficaram de fora e ainda andam amuados pelos cantos.

Os Verdes foram em tempos um vigoroso partido de esquerda. Mas nos anos em que foram parceiros menores do SPD obtiveram três cargos ministeriais, incluindo o do ministro dos Estrangeiros, Joschka Fischer, e amansaram a maior parte das suas antigas aspirações radicais. Apoiaram até ao fim o programa anti-social de Schroeder e, apesar das suas antigas raízes pacifistas, apoiaram mesmo a política de expansão militar e de guerra. As eleições antecipadas, a que se opuseram, correram com eles do poder — com 51 lugares, são agora o partido mais fraco no Bundestag e têm poucas posições de força em qualquer lado.

Gesine Lötzsch, Petra Pau. Mas a situação política viu uma mudança crucial potencial. Há um factor novo no Bundestag, o Partido de Esquerda , composto pelo antigo Partido do Socialismo Democrático (PDS), um rebento totalmente reformado do partido dirigente da ex-Alemanha de Leste (SED), com a maior parte da sua força na Alemanha oriental, e pela Alternativa Eleitoral para o Emprego e Justiça Social ( WASG ), uma força nova, mais forte na Alemanha ocidental, com alguns dirigentes sindicais irritados, grupos anti-globalização e sociais-democratas descontentes. Só o PDS esteve no antigo Bundestag, com duas jovens — Gesine Lötzsch e Petra Pau — eleitas directamente pela secção eleitoral de Berlim leste; nas eleições de 2002, o partido não atingira os 5 por cento exigidos para participação no Bundestag.

Lötzsch e Pau foram quase completamente ignoradas, melhor dizendo insultadas, e muita gente nos corredores do poder tinha obviamente a esperança de que o PDS acabasse por desaparecer depois de uma nova derrota.

Oskar Lafontaine, Gregor Gysi. Mas a campanha inesperada para as eleições antecipadas inspirou Gregor Gysi, o antigo líder do PDS, e Oskar Lafontaine, um líder da nova WASG (ex- dirigente do SPD antes de sair enojado), a juntarem os esforços numa aliança.

Ainda não foi formado um novo partido (apesar de alguns problemas, isso deve vir a verificar-se dentro de um ano mais ou menos). Mas quando o PDS concordou em alterar o seu nome, a WASG concordou em candidatar-se conjuntamente. A aliança dos dois, com uma força inesperada nas áreas ocidentais, possibilitou que o partido conquistasse 8,7 por cento dos votos; ou seja, 54 deputados no Bundestag, mais "wessies" (do ocidente) do que "ossis" (do oriente), 26 homens, 24 mulheres — e a oportunidade de se tornar numa oposição efectiva.

A mera presença do Partido de Esquerda já produziu alguns resultados. O SPD de Schroeder, com medo de um programa verdadeiramente de esquerda, depois de se ter desviado para a direita durante sete anos, começou de repente a promover um programa menos anti-social — modificou as necessidades prescritas por ele próprio e afirmou ser o partido da "arraia miúda, dos sindicalizados, dos desempregados, das mães solteiras, dos pobres". Muita gente gostou disso — ou teve medo do mal maior, a ameaça de Angela Merkel e dos seus cúmplices tenebrosos — e ajudou o SPD a arrebanhar votos, falhando a vitória apenas por um por cento, e este mesmo medo duma esquerda genuína está agora a forçá-lo a fazer exigências sociais nas negociações para um novo plano do governo. Talvez que seja possível evitar — ou atrasar — parte dos piores horrores, já que esta oposição nova e agressiva impedirá tentativas de levar a efeito legislação interna anti-social e políticas externas expansionistas que não têm tido praticamente ninguém para as denunciar no Bundestag. Os 54 delegados do Partido de Esquerda já não podem ser ignorados pelos líderes do Bundestag ou pelos meios de comunicação. Claro, vão certamente tentar quebrar a delegação do Partido de Esquerda logo que possível. Como é um grupo muito heterogéneo, e a maioria dos seus membros tem pouca experiência num órgão destes, isso é um perigo permanente. Mas basta a presença dos delegados de esquerda em todas as comissões e em todos os debates, mesmo que dificilmente consigam fazer aprovar leis por si propostas, para tornar a vida difícil aos que até aqui apenas davam ouvidos aos grupos de pressão — ou aos seus consultores de impostos e de investimentos. Talvez venha mesmo a ser possível ligar as acções do Partido de Esquerda no Bundestag às pessoas nas fábricas, nas escolas, nos hospitais e nas ruas. Que mudança seria isso!

Sim, haverá muita discussão entre os membros da nova coligação governamental. Mas, na verdade, a cena lá no alto não mudou radicalmente. No entanto, na base onde isso conta, poderá haver algumas mudanças profundas.

[*] Victor Grossman, jornalista e autor americano, vive em Berlim leste há muitos anos. É o autor de Crossing the River: A Memoir of the American Left, the Cold War, e Life in East Germany (University of Massachusetts Press, 2003).

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/grossman141005.html .
Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
20/Out/05