Parlamento Europeu para que?
O que se segue foi inspirado pelo livro recente de Bernard Cassen (
et al.
),
Le parlement européen, pour faire quoi?
, Bellecombe en Bauges, Éditions du Croquant, 2014. Quando se vê
aquilo que actualmente se escreve sobre o Parlamento Europeu, pode-se dizer que
esta obra muito didáctica é altamente oportuna.
Assim, pode-se ler ali que os eleitores europeus poderão, graças
ao tratado de Lisboa de 2009, nomear o presidente da Comissão. Isto
não é exacto mas permite a bipolarização dos
partidos dominantes da assembleia europeia (PPE e PSE), portanto simplifiquem
as circunstâncias desta eleição.
A obra de Bernard Cassen
(et al.)
lembra que os chefes de Estado e de governo
vão propor ao Parlamento um candidato à presidência da
Comissão, sem esquecer que o Conselho Europeu tem o direito de propor um
candidato independente, o que não entra nas prerrogativas do Parlamento.
O que é certo é que a União Europeia hoje já
não é nada conceituada. O próprio euro já
não tem a unanimidade. Lúcidos, os europeus compreenderam bem que
as praças-fortes financeiras (a que hoje se chama, de maneira
edulcorada, como "os mercados") fazem a lei, que as desigualdades
no interior dos países e entre os países não
fazem senão ampliar-se e que a "austeridade" se tornou uma
política, um fim em si.
Desde 2012, todas as sondagens concordam, apenas cerca de um terço dos
europeus tem uma visão positiva do Parlamento. É talvez o mesmo
terço que pensa que, graças a esta grande assembleia, a sua voz
é levada em conta.
A partir dos anos cinquenta, os "pais" da Europa (Spaak, Schuman, De
Gasperi, Monnet um anti-gaullista de direita) conceberam a união
europeia como uma máquina para conter os movimentos comunistas e impedir
o socialismo. Hoje, a "crise", que não é crise uma vez
que, por definição, não pode ser senão um momento
breve e paroxístico, é, segundo os autores, "o pretexto
sonhado para comprometer os sistemas sociais e anunciar o fim do
parênteses keynesiano e dos Estado-Providência". Em 2013, para
não evocar senão este problema, o Parlamento Europeu convidou os
Estados a "constituírem pensões profissionais complementares
por capitalização" e a repensar a repartição
"tendo em conta a esperança de vida",
ainda que não seja culpa dos velhos serem velhos
. A mesma resolução recomendava "banir" [
sic,
anglicismo horrível] qualquer fixação de idade para uma
saída obrigatória para a reforma a fim de permitir às
pessoas que o possam e que o desejem continuar a trabalhar para além da
idade legal de saída para a reforma.
Com o Tratado sobre a Estabilização, a Coordenação
e a Governação" (TSCG) e
a regra do Two Pack
que visa coordenar, sempre na mesma direcção liberal, as
políticas económicas, a União Europeia tornou-se um
"sistema de vigilância" dos Estados membros. A Alemanha de
Merkel impôs seus desígnios. Assim, enquanto o Tratado de
Maastricht afirmava que as questões salariais, as
convenções colectivas eram da alçada dos Estados membros,
com o TSCG isso tornar-se ilegalmente da alçada da
Comissão. Esta nova regra europeia deve ser, sabe-se, inscrita nas
constituições dos países.
Sem o menor debate democrático, no interior dos países ou nas
instâncias europeias, a União Europeia inscreveu no mármore
o dogma da "concorrência livre e não falseada" (um
pleonasmo pois se uma concorrência é falseada trata-se de um
mercado manipulado), as restrições orçamentais conduzindo
ao enfraquecimento dos sectores públicos e a
desregulamentação do mercado de trabalho. Desde o fim da
União Soviética, a UE é o único lugar do mundo onde
são institucionalizados princípios económicos
dogmáticos.
E depois, há os tristemente célebres grupos de interesses, os
lobbies
(a expressão francesa é muito mais precisa que a
expressão
globish
), que acampam não às portas do Parlamento, mas sim no interior
do próprio Parlamento. Em Bruxelas, a palavras lobbista não
é um insulto. Estes grupos são proibidos no sistema
político francês, assim como na maior parte dos outros
países europeus. Eles são institucionais em Bruxelas. Munido da
credencial adequada, o lobbyista pode assistir às reuniões das
comissões parlamentares e as dos grupos políticos. Deles, 4200
estão acreditados (contra 762 deputados europeus e 2000 assistentes
parlamentares). Igualmente institucional é o Tribunal de Justiça
da União Europeia que produz o direito e cuja jurisprudência
defende sistematicamente os interesses das empresas na perspectiva do
capitalismo financeiro.
Desde há meio século cada novo tratado aumentou as
competências do Parlamento. Na proporção da
desconfiança dos cidadãos que cada vez mais se abstêm nas
eleições europeia. 42,78% em França em 2012
[NR]
, após a melhoria de 1994 devido à lista já
populista de Villiers/Pasqua. Mais de 70% de abstenções na
Bulgária e na Roménia. É preciso dizer que num sistema
democrático "comum" a eleição dos representantes
do povo influi em certa medida na natureza do executivo. O que não
é de modo algum o caso nas instituições europeias.
Há uma disjunção entre a eleição dos
parlamentres e a designação de um poder executivo. Igualmente,
vê-se cada vez mais claramente, o Parlamento é dominado pelo
consenso flácido das duas grandes formações
políticas (socialistas e conservadores), nada de fundamental realmente
os impede de partilharem entre os melhores queijos.
O Tratado de Lisboa prevê que um comissário europeu deve aprovar
este tratado, o que exclui a presença de um comissário da
esquerda de esquerda. Aquando das próximas eleições a
abstenção atingirá talvez os 60% em França e a
Frente Nacional talvez obtenha o melhor resultado. Os grandes media
encenarão o papel de virgens assustadas. E então
Pujadas
e
Le Monde
provocarão ainda mais risadinhas a Marine Le Pen.
16/Maio/2014
[NR] Em Portugal a abstenção foi de 63,23% nas
eleições de 2009 para o PE.
O original encontra-se em
www.legrandsoir.info/le-parlement-europeen-pour-faire-quoi.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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