O fundo para a corrupção criado pela UE
O fundo criado pela União Europeia para "apoiar a democracia"
em países do terceiro mundo e seus vizinhos continua a ramificar-se com
novos e eloquentes pormenores. Segundo a Comissão Europeia, o European
Endowment for Democracy (EED) destina-se a proporcionar dádivas de
dinheiro a jornalistas, bloguers, organizações não
lucrativas, sindicatos, organizações políticas, incluindo
aquelas que trabalham no exílio.
Eles falam em apoiar a oposição na Argélia,
Arménia, Palestina, Azerbaijão, Bielorrússia, Egipto,
Geórgia, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, Moldova,
Síria e Ucrânia...
Os que tiveram a iniciativa de criar o fundo, além da Comissão
Europeia, foram estados individuais, incluindo Polónia e
Suíça, bem como deputados do Parlamento Europeu. A sua
dimensão inicial está planeada em 14,2 milhões de euros.
Destes,
6,2 milhões
virão da Comissão Europeia. A
Suíça e outros países contribuirão com os 8
milhões restantes. Segundo o jornal polaco
Gazeta Wyborcza,
dentro de três anos o fundo EED irá receber ainda mais 10
milhões da Comissão do Tesouro da UE. De acordo com
cálculos dos seus criadores, o fundo deveria estar "plenamente
operacional" em meados de 2013. A alta representante da UE para
Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Catherine
Ashton, está convencida de que "o fundo chega num momento muito
apropriado, pois 2013 será chave para uma transição rumo
à democracia, especialmente em países vizinhos da UE". Um
comissário europeu para a ampliação da UE, Stefan Fule,
disse que o EED "ajudará a levantar actores que enfrentam barreiras
no acesso a fundos da União Europeia".
A ideia de criar um fundo assim não é nova. Ela foi exprimida
pela primeira vez no princípio de 2011 pelo ministro polaco dos
Negócios Estrangeiros, Radoslaw Sikorski. A seguir, brotou uma euforia
incontrolável no Ocidente quanto à "Primavera
Árabe". Em Bruxelas, parecia que este era o momento certo para
tentar redesenhar não só a África do Norte e o
Médio Oriente como também o espaço pós
soviético.
Para este objectivo, planearam utilizar um vasto conjunto de medidas, incluindo
apoio político e financeiro em grande escala a forças de
oposição.
Mas, enquanto a ideia amadurecia, verificaram-se mudanças que resultaram
numa confusão de prioridades da UE em matéria de política
externa. Isto aplica-se em particular à Bielorrússia o
país no qual recentemente foi anunciado que os elementos da
oposição ao governo serão os mais importantes
beneficiários do fundo da EED. Contudo, o financiamento directo de
forças de oposição, incluindo a mais radical, contraria a
política anterior adoptada por Bruxelas no "Programa de Parceria no
Leste", no qual também conseguiram envolver Minsk (embora o papel
participante da Bielorrússia na "Parceria do Leste" seja muito
limitado).
A UE aplicou pressões políticas sobre o governo de Minsk durante
mais de 15 anos. O último documento bilateral acordado entre a UE e a
Bielorrússia foi o Acordo de Parceria e Cooperação,
assinado em 1995 mas nunca ratificado pelo Parlamento Europeu, o qual acusou o
presidente Alexander Lukashenko de domínio autoritário.
Por que é que hoje a UE tem necessidade urgente deste custoso novo
mecanismo de "democratização" que agora volta à
tona? E o que quer dizer a sra. Ashton quando fala acerca da importância
de 2013 quanto a processos que se verificarão na vizinhança da UE?
Uma das principais razões para isto é
o fortalecimento da influência política e financeira russa no
antigo espaço soviético.
A situação foi muito precisamente descrita em Varsóvia
por uma analista do Instituto Polaco de Assuntos Internacionais, Anna Maria
Diner, a qual disse que
a proposta da Rússia de um novo projecto de integração
económica, destinado a criar uma União Euro-asiática com
base na União Aduaneira da Rússia, Bielorrússia e
Casaquistão é um grande desafio para a União Europeia.
É de particular preocupação para a UE o facto de a
proposta da Rússia para integração económica com a
Bielorrússia ser a única que "não encoraja as
autoridades bielorrussas a liberalizarem o sistema político". Por
outras palavras, Moscovo, ao contrário de Bruxelas, não faz com
que a assistência financeira e económica à
Bielorrússia seja condicionada à interferência nos seus
assuntos internos.
Nestas circunstâncias, a European Foundation for Democracy posiciona-se
como o único meio de Bruxelas influenciar a situação.
O primeiro grande teste do programa de financiamento de elementos anti-governo
na Bielorrússia será, de acordo com o plano de Bruxelas, durante
as eleições parlamentares que deverão ocorrer no Outono de
2013.
A lista de tarefas que a União Europeia estabeleceu para si
própria é auto-explicativa. Isto é um desenvolvimento do
"programa anti-crise" para os candidatos da oposição,
pagamento de publicações em jornais independentes bielorrussos,
impressão de materiais de campanha e administrar sessões de
treino a membros jovens da oposição que actuarão como
observadores da eleição.
Portanto, a integração da iniciativa russa pela
Bielorrússia e outros antigos estados soviéticos forçou
Bruxelas a apressar a implementação de planos para desestabilizar
países da antiga União Soviética. Como já foi
mencionado, a lista dos países pós soviéticos, em que a
Europa planeia "alimentar" a oposição, inclui,
além da Bielorrússia, a Ucrânia, Arménia,
Azerbaijão e, mais particularmente, a Geórgia e Moldova, com seus
regimes pró ocidentais.
O interesse do fundo EED em financiar a oposição no Egipto e na
Líbia também diz um bocado.
É claro que nem todos os acontecimentos da "Primavera
Árabe" estiveram de acordo com os roteiros ocidentais.
Tudo isto evidencia não uma estratégia deliberada do Ocidente em
relação a países pós soviéticos,
África do Norte e Médio Oriente, mas sim de algum pânico
entre decisores políticos ocidentais. O pânico é um mau
auxiliar na resolução de problemas geopolíticos,
especialmente nestas áreas difíceis. Mesmo Robert Kaplan,
analista geopolítico chefe do STRATFOR, agora é forçado a
admitir que acontecimentos na África do Norte e Médio Oriente
começam a desenvolver-se de um modo muito mais complexo do que fora
imaginado originalmente por Washington e Bruxelas.
Em tais circunstâncias, a política da UE, que assume a forma de
intervenção directa nos assuntos internos de outros países
e está a adquirir uma natureza francamente subversiva, pode levar ao
rápido descrédito da UE.
01/Fevereiro/2013
O original encontra-se em
http://www.strategic-culture.org/news/2013/02/01/intervention-fund.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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