A promessa vazia do euro e os sado-monetaristas de Bruxelas
Agosto será um mês quente para a eurozona, pouco importando o que
a meteorologia tenha preparado para nós. O facto de que a Espanha esteja
a negar fortemente que precisa de um salvamento completo confirma que Madrid,
em determinada altura, irá convocar os sado-monetaristas de Bruxelas.
Assim como o fizeram os ministros gregos, irlandeses e portugueses depois de
fazerem as mesmas cómicas negações.
A situação não é nada divertida pois a consequência
do colapso de um esquema tão temerário como a divisa única
afectará toda gente, particularmente a classe trabalhadora que
não colaborou na construção deste castelo de cartas.
Um painel de 17 importantes economistas no Institute for New Economic Thinking,
com sede em Nova York, emitiu um relatório advertindo que "a Europa
é andar como um sonâmbulo rumo a um desastre de
proporções incalculáveis".
"O último dominó, a Espanha, está a uma
distância de dias de uma crise de liquidez, segundo o seu próprio
ministro das Finanças. Esta situação dramática
é o resultado de um sistema de eurozona que, tal como está
actualmente construído, está inteiramente rompido", afirma o
relatório.
Contudo, a razão fundamental para esta crise que nunca acaba, com um
dominó a cair após o outro, não é liquidez
isto é apenas um sintoma de um problema muito maior.
Trancados dentro da câmara de tortura neoliberal que é a Eurozona,
os países mais fracos simplesmente não podem competir com os
países maiores no centro do império, nomeadamente a França
e a Alemanha.
Países em luta como a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e
Itália, colectivamente conhecidos como PIIGS, têm défices
de balança de pagamentos vastos os quais minam as suas economias
enquanto exigem tomadas de empréstimos crescentes.
A resposta real é desvalorizar, o que é impossível dentro
da divisa única. A única opção deixada a fim de
permanecer no euro é voltar-se para a sua própria
população abolindo efectivamente o estado previdência
(welfare state)
e despedindo milhões de trabalhadores, o que é conhecido como
desvalorização interna.
Os ataques aos mineiros espanhóis e aos trabalhadores gregos da
siderurgia são apenas uma mínima parte da guerra económica
que foi desencadeada por exigência de instituições
não eleitas e amplamente desconhecidas da UE.
Como apoiantes da UE, os conservadores-democratas [britânicos]
estão a apoiar a austeridade permanente da UE tanto aqui como por toda a
eurozona. Apesar de estar fora da eurozona, a classe dominante da
Grã-Bretanha está a apoiar todos os esforços para manter o
euro vivo.
Este governo está mesmo a oferecer mais empréstimos e garantias
no valor de milhares de milhões de libras enquanto afirma que a sua
prioridade é cortar a dívida.
Cameron não "vetou" como afirmou o pacto fiscal,
conhecido como tratado de austeridade permanente, o qual entrará em
vigor em 1 de Janeiro de 2013. A Grã-Bretanha simplesmente não
é signatária isso não é um "veto".
No momento de uma crise de dívida maciça na eurozona, este pacto
exige que os orçamentos devem estar em equilíbrio ou em
superávite e o Tribunal Europeu de Justiça (TEJ) pode mesmo
multar um país em até 0,1 por cento do seu PIB se isto não
for feito dentro de um ano após a ratificação.
Agora a comissão tenta golpear através de um Mecanismo Europeu de
Estabilidade (MEE) com tão pouco debate quanto possível e
está a pressionar governos nacionais a ratificarem-no tão logo
quanto possível nem referendos.
O MEE é exigido porque aos mecanismos de salvamento anteriores,
conhecidos como European Financial Stability Facility (EFSF) e European
Financial Stability Mechanism (EFSM) faltava qualquer base legal nos tratados
da UE, fossem quais fossem.
O Tratado de Lisboa torna mesmo claro que não pode haver um salvamento
de qualquer dos 17 estados membros da eurozona.
O proposto MEE é a solução fundamentalmente não
democrática para o actual dilema legal e é especificamente
concebido para financiar o que na realidade é um caixa dois
(slush fund).
Ele seria baseado no Luxemburgo com um conselho de governadores nomeado pelos
17 estados da eurozona e operará fora da UE.
A abordagem cada vez mais fora da lei e mesmo histérica que está
a ser adoptada revela apenas, mais uma vez, quão enviesado e
instável é o projecto da eurozona. Isto acontece porque a divisa
única é fundamentalmente um projecto político, não
económico. Ele é destinado a um fim. O fim sendo o completo
ajustamento estrutural corporativo da Europa pelo qual toda actividade humana
é transferida da arena pública para o sector privado, para o
capitalismo monopolista.
De acordo com este projecto, se uma crise se verifica tanto melhor pois uma
crise pode ser transformada em vantagem mais centralização
da UE e a remoção de poderes democráticos dos estados
membros.
Está claro que enfrentamos a pior crise do capitalismo durante uma
geração de modo que as apostas são muito altas.
A actual liderança do Partido Trabalhista podia afirmar que o apoio do
governo ao projecto da eurozona é totalmente inapropriado e dizer que o
euro está morto.
Infelizmente, ela não fará isto porque o Labour também
está casado com o projecto euro muito embora uma política mais
crítica em relação à UE levasse claramente à
vitória na próxima eleição.
O facto triste é que grande parte da esquerda tem apoiado a divisa
única ou permanecido silenciosa devido principalmente a promessas de um
nefando "Modelo social europeu" prometido em 1988 pelo presidente da
Comissão Europeia, Jacques Delors, que proporcionaria o socialismo
através da porta dos fundos.
Antigos defensores bem pagos da divisa única, tal como Lord Monks,
continuam mesmo a clamar pela entrada da Grã-Bretanha como membro do
euro moribundo apesar de ele próprio admitir que as suas
visões "podem parecer muito excêntricas".
A ultra-esquerda em grande medida também apoiou a UE, principalmente a
um desentendimento profundamente torcido do internacionalismo bem como de
teoria económica básica.
Hoje está claro que a morte da divisa única seria do melhor
interesse de todos.
Lançar cada vez mais dinheiro a um moribundo, a não amada divisa,
apenas prolongaria a agonia para toda a gente.
Mas não deveríamos esquecer como políticos e
líderes do movimento trabalhista venderam o projecto UE à classe
trabalhadora com base em falsas promessas.
Ingenuamente ou cinicamente, eles apelaram à fé ao invés
de recorrerem aos factos simples o que é indesculpável.
[*]
Sindicalista, britânico.
O original encontra-se em
communist-party.org.uk/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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