O euro do nosso descontentamento
Em vinte anos, "o euro trouxe prosperidade e proteção aos
nossos cidadãos", declarou Jean-Claude Juncker. O presidente da
Comissão Europeia também disse um dia que a mentira é
necessária quando as coisas ficam difíceis. As coisas ficaram
difíceis nestes vinte anos. E daí que a mentira se tenha tornado
necessária também em Portugal.
Afinal de contas, como defender uma moeda, associada por cá a uma
combinação única: duas décadas de
estagnação e de divergência, com uma quebra brutal do
investimento, com uma taxa de desemprego que chegou a ser o dobro do
máximo histórico antes do euro e com uma dívida externa
líquida que é das mais elevadas, em percentagem do PIB, a
nível mundial?
A mentira é necessária: a culpa não é do euro, a
culpa é da ausência de reformas. A verdade é que a
responsabilidade de aderir, sem debate, a uma moeda estruturalmente demasiado
forte para a nossa economia pertenceu a uma elite
económico-política. Quem prescindiu de instrumentos de
política monetária e cambial, tinha já aceite a
abolição dos controlos de capitais, a perda de instrumentos de
política comercial e industrial, em nome do mercado único, a
privatização de grande parte da banca ou os critérios de
convergência nominal. Estes últimos incluíam regras de
constrangimento orçamental, sem qualquer ancoragem numa teoria
económica sã, capaz de reconhecer que os défices
orçamentais e a dívida pública são variáveis
fundamentalmente endógenas, dependentes do andamento de uma economia
que, por sua vez, podem estabilizar e dinamizar.
Portugal e os outros países foram trancados numa moeda desenhada em
função dos interesses da Alemanha, em especial do seu capital
financeiro, bancário e industrial. Com uma inflação
estruturalmente mais baixa e impondo uma compressão dos salários,
a Alemanha apostou num comportamento nada cooperativo de obtenção
de
superavits
externos. A outra face da moeda, foram anos de acumulação de
défices de balança corrente. Os défices de balança
corrente traduziram-se, necessariamente, num endividamento crescente em euros,
ou seja, em moeda estrangeira. Num contexto de liberalização
financeira, que já vinha dos anos noventa, os bancos nacionais
aproveitaram o acesso ao mercado interbancário em euros para expandir a
sua atividade, canalizando crédito para tudo menos para investimento
produtivo. Os bancos dos países centrais, de forma direta ou indireta,
envolveram-se nas endividadas periferias.
E depois chegou a crise financeira transatlântica de 2007-2008, só
com precedentes na Grande Depressão, outro período de grande
desigualdade e de grande confiança no liberalismo económico. Os
mercados financeiros passaram a desconfiar dos países altamente
endividados em moeda que não controlavam politicamente. O que era na
realidade uma crise de competitividade, de balança de pagamentos, foi
transformada num problema de dívida pública, já que foi
pelo financiamento mais difícil e caro dos défices
orçamentais crescentes, devido à crise, que a turbulência
se manifestou na periferia europeia. Montou-se então um grande programa
de socialização das perdas dos bancos do centro europeu. Nasciam
as troikas.
O euro revelava a sua natureza. Em países que prescindiram de
instrumentos de política económica, quem paga o ajustamento
são os salários diretos e indiretos, o Estado social e as regras
laborais que protegem quem trabalha. Para a sabedoria convencional
"reformas" são sinónimo de transferências
sistemáticas de rendimentos do trabalho para o capital, como aconteceu
durante a Troika. Entretanto, centenas de milhares de concidadãos
votaram com os pés, emigrando. O país vendeu ativos
estratégicos a preço de saldo. Muita capacidade produtiva foi
destruída por uma austeridade contraproducente.
A significativa atenuação da austeridade e as ações
do BCE permitiram uma lenta e periclitante recuperação. O
país reinventou-se: uma espécie de Florida da Europa, na base do
turismo e de muito trabalho precário e relativamente barato, descobrindo
que o imobiliário é um bem transacionável à boleia
de uma bolha. As reformas do euro reforçaram a perda de soberania
orçamental, sem resolverem os problemas de fundo. A chamada União
Bancária serviu para aplicar o princípio "vocês,
portugueses, pagam, nós, no centro político europeu, dizemos o
que se faz": a banca estrangeira manda cada vez mais. Entretanto, a Zona
Euro exporta instabilidade para o sistema internacional, agora que os
défices das periferias europeias desapareceram, sem que se atenuassem
os
superavits
do centro. Trump aí está, de dedo apontado à
Alemanha. O euro foi e será fator de instabilidade, de divisão e
de desproteção. É preciso acabar com esta
experiência.
23/Fevereiro/2019
[*]
Economista.
O original encontra-se na revista
Exame
e em
ladroesdebicicletas.blogspot.com/2019/02/o-euro-do-nosso-decontentamento.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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