Que cenários para uma dissolução da Zona Euro?
por Jacques Sapir
A nota publicada em Março último analisava as consequências
para a economia francesa da saída do euro num quadro relativamente
cooperante. (
L'impact d'une sortie de l'Euro sur l'économie française
, nota publicada no caderno Russeurope a 5/Março/2013).
Na presente nota estudamos duas excursões ou "casos
críticos" em relação ao cenário de base que
foi pormenorizado. Estas duas excursões encaram, por um lado, uma
dissolução não cooperante da zona do euro, marcada por uma
forte revalorização do marco alemão e por fortes
desvalorizações em países como a Itália e a Espanha
(para além de Portugal e da Grécia) e, por outro lado, uma
dissolução híper-cooperante de onde surgem duas taxas de
câmbio para a maioria dos países (hipótese que retoma a que
defende a separação da zona do euro num euro-Norte e num
euro-Sul). Na presente nota testam-se estas hipóteses tanto do ponto de
vista do seu impacto sobre o crescimento francês como da sua estabilidade.
I. Hipóteses
Consideramos aqui apenas 11 dos 17 países da zona euro por
questões de simplicidade técnica. Estes 11 países
representam o núcleo histórico da zona euro. As hipóteses
das taxas de câmbio para os três cenários são assim
as seguintes (quadro 1)
Quadro 1 Taxas de câmbio depois da desvalorização
|
|
Cenário de base
|
Cenário não-cooperante
|
Cenário Hiper-cooperante
|
|
França
|
1,04
|
0,975
|
1,144
|
|
Bélgica
|
1,17
|
1,105
|
1,144
|
|
Alemanha
|
1,495
|
1,800
|
1,469
|
|
Itália
|
0,975
|
0,845
|
1,144
|
|
Holanda
|
1,495
|
1,430
|
1,469
|
|
Irlanda
|
1,300
|
1,300
|
1,144
|
|
Finlândia
|
1,495
|
1,495
|
1,469
|
|
Áustria
|
1,495
|
1,495
|
1,469
|
|
Espanha
|
0,910
|
0,780
|
1,144
|
|
Grécia
|
0,650
|
0,520
|
0,845
|
|
Portugal
|
0,780
|
0,715
|
1,144
|
(a) Cenário de base dito cooperante
Este cenário, considerado como a "base" do raciocínio,
é o de uma dissolução cooperante da zona euro. Isto
implica que os países da zona adoptem, durante um período
transitório, um controlo dos capitais relativamente estrito e negoceiem
entre si as paridades "alvo" que desejam atingir no quadro da
desvalorização. No cenário de base, postula-se assim que 4
países (Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia) constituem
uma "zona do marco" que se revaloriza em 15% em relação
a uma paridade média com o dólar dos Estados Unidos de 1,30
dólares para um euro. Os outros países desvalorizam desde 10%
(caso da Bélgica) a 50% (caso da Grécia), passando por 20% (caso
da França). Mantêm-se as instituições de
cooperação da zona euro, algumas delas inalteradas (Eurogrupo),
outras com funções modificadas como o MES (encarregado da
situação dos bancos), o BCE (que passa a ser o organismo de
concertação dos bancos centrais). Em relação
à Alemanha, as taxas de câmbio estão indicadas no quadro 2.
No cenário de base, se o distanciamento em relação ao
"novo" marco alemão é de 30,4%, o franco
"novo" tem uma taxa de câmbio melhor que a peseta, a lira, o
escudo e o dracma. Isso corresponde à ideia de desvalorizar em
função da situação real das economias.
Quadro 2- Taxas de câmbio em relação ao marco
alemão/euro do Norte
|
|
Cenário de base
|
Cenário não-cooperante
|
Cenário Hiper-cooperante
|
|
França
|
69,6%
|
54,2%
|
77,9%
|
|
Bélgica
|
78,3%
|
61,4%
|
77,9%
|
|
Itália
|
65,2%
|
46,9%
|
77,9%
|
|
Holanda
|
100,0%
|
79,4%
|
100,0%
|
|
Irlanda
|
87,0%
|
72,2%
|
77,9%
|
|
Finlândia
|
100,0%
|
83,1%
|
100,0%
|
|
Áustria
|
100,0%
|
83,1%
|
100,0%
|
|
Espanha
|
60,9%
|
43,3%
|
77,9%
|
|
Grécia
|
43,5%
|
28,9%
|
57,5%
|
|
Portugal
|
52,2%
|
39,7%
|
77,9%
|
(b) Cenário não-cooperante
Este cenário assenta sobre a ideia de que as negociações
entre países malogram e que as desvalorizações são
portanto muito menos bem dominadas pelos países da Europa do Sul. Mesmo
para os países próximos da Alemanha, isso traduz-se numa
desvalorização. Essa desvalorização é muito
mais importante nos países da Europa do Sul e mesmo em França, em
relação ao dólar, mas também em
relação ao marco alemão que é fortemente reavaliado
(1,80 dólares para 1 marco alemão).
(c) Cenário hiper-cooperante
Neste cenário, o grau de cooperação ainda é maior
do que no primeiro cenário. Na realidade, a zona euro é dividida
em duas com uma ligeira sobrevalorização em relação
ao dólar na Europa do Norte e uma ligeira desvalorização
do euro no Sul. O distanciamento do câmbio entre os dois euros é
de 22,1%. A zona dita "euro do Sul" engloba a França, a
Bélgica, a Itália, a Irlanda, a Espanha e Portugal.
Considerou-se que no cenário "híper-cooperante", a
Grécia teria necessidade duma desvalorização maior e
é por isso que não se encontra no bloco chamado "euro do
Sul".
II. Impacto sobre a trajectória do crescimento e da
inflação da França
Estes três cenários são pois testados numa
comparação quanto às taxas de crescimento e de
inflação da França.
No que diz respeito ao crescimento, e segundo os parâmetros do modelo que
incluem modificações das elasticidades-preços nas
exportações e nas importações em
função da amplitude das desvalorizações,
constata-se (gráfico 1) que o cenário cooperante (chamado
"de base") é o mais vantajoso à partida mas fica em
igualdade com o cenário classificado de
"híper-cooperante" nos seis anos considerados para testar as
evoluções. O cenário "não-cooperante"
é, pelo seu lado, menos vantajoso que os dois primeiros. O crescimento,
no entanto, não se reparte da mesma maneira entre os cenários
"cooperante" e "híper-cooperante". Se, no primeiro
caso, atinge o máximo no terceiro ano (T+2), é mais regular e a
um nível menos elevado no cenário
"híper-cooperante". Pelo contrário, resiste melhor aos
efeitos de extinção progressiva do impacto da
desvalorização.
No que respeita à inflação, esta aparece nitidamente menos
forte no cenário "híper-cooperante". Em particular, o
choque da inflação específica da
desvalorização e que foi supostamente concentrada nos três
primeiros anos é de longe o mais fraco. Pelo contrário, é
mais elevado, e isso não é de admirar, no cenário dito
"não-cooperante" (gráfico 2). Em todos os
cenários, supõe-se que a economia francesa absorve o choque
inflacionista da desvalorização no quarto ano.
Gráfico 1
Gráfico 2
Estes resultados mostram que, em teoria, a adopção de um
cenário dito "híper-cooperante" em torno de dois euros
seria a melhor das soluções.
Quadro 3 Crescimento e inflação acumuladas consoante o
cenário
|
|
Crescimento total
|
Inflação total
|
|
Cooperante
|
34,9%
|
15,4%
|
|
Não-Cooperante
|
31,4%
|
17,4%
|
|
Hiper-Cooperante
|
35,7%
|
13,7%
|
|
Distância entre Cooperante/Hiper-cooperante
|
-0,8%
|
1,7%
|
Se a trajectória do crescimento é praticamente idêntica no
cenário "cooperante" e no classificado de
"não-cooperante", constata-se que é diferente no
cenário "híper-cooperante". Isto explica-se pela
própria hipótese deste cenário. No quadro do bloco
"euro do Sul", os países como a Itália e a Espanha, que
são parceiros comerciais importantes da França, estão ao
mesmo nível da taxa de câmbio. Tendo em conta o perfil da
inflação, que é diferente consoante os países,
esses países assistem a uma forte revalorização da sua
taxa de câmbio real. Além disso, a França tem um
crescimento inicialmente mais forte, mas que não acelera tanto como no
primeiro cenário, com a continuação. Pelo
contrário, a inflação importada inicialmente é
menos importante no cenário "híper-cooperante" e a
França mantém melhor o seu distanciamento da taxa de câmbio
real com a Alemanha no final do exercício. No entanto, o distanciamento
entre os cenários "cooperante" e
"híper-cooperante" mantém-se relativamente fraco e
poderá não ser verdadeiramente significativo. O mesmo não
acontece com o cenário dito "não-cooperante" que se
caracteriza por um crescimento acumulado mais fraco mas também por uma
inflação mais forte.
Vemos portanto que o exame tanto do crescimento como da inflação
potencial favorece o cenário dito "híper-cooperante",
mas isso não tem em consideração a dificuldade
política de pôr em funcionamento essa solução nem a
estabilidade das trajectórias potenciais.
III Estabilidade das trajectórias
Para avaliar a estabilidade das trajectórias globais, consideram-se em
paralelo as trajectórias da inflação e as das taxas de
câmbio reais para cada economia, em função dos
cenários que foram considerados.
Gráfico 3 (a, b, c)
Na realidade, a evolução da inflação é mais
ou menos a mesma nos dois primeiros cenários. Temos um distanciamento
(teórico) de cerca de 36 pontos. De modo lógico, o distanciamento
da inflação é mais reduzido no cenário
"híper-cooperante" (16,7 pontos de inflação) e
está distribuído de modo diferente. Inicialmente, é a
Holanda que regista o maior recuo do índice dos preços.
Mas o exame das taxas de câmbio reais mostra que, no caso do
cenário "híper-cooperante", os países do Sul
vêem a sua moeda valorizar-se fortemente, tanto em relação
ao dólar (em que a taxa de câmbio de 1,30 dólares reaparece
para a Itália, a Espanha e Portugal a partir de T+2) como da Alemanha (a
quem estes 3 países ultrapassam o nível em T+3), mas
também face à França. É de resto por esta
razão que o crescimento francês, neste cenário, melhora com
o tempo em T+2 e T+3). O cenário "híper-cooperante"
implicará assim a manutenção das políticas de
desvalorização interna. Deste ponto de vista não é
sustentável porque essas políticas são a partir deste
momento insuportáveis.
Gráfico 4 (a, b, c)
Será portanto imperativo que esses países voltem a desvalorizar 3
a 4 anos depois da desvalorização inicial. No cenário
classificado de "não-cooperante", embora a taxa de
câmbio real dos países da Europa do Sul (Espanha, Itália,
Portugal) apanhe a da França a partir de T+2 apesar duma forte
desvalorização inicial, só ultrapassa a da Alemanha em T+5
e mantém-se até T+6 inferior a 1,30 dólares. O
distanciamento em relação à França é muito
menos importante. Do ponto de vista da sustentabilidade para os países
da Europa do Sul, e na condição de a inflação ser
contida e as relações Preços-Salários não se
tornarem incontroláveis, este cenário aparece como o melhor.
Tabela 4- Estado das vantagens e desvantagens por país e cenário
|
País
|
Cenário Cooperante
|
Cenário Não-cooperante
|
Cenário Hiper- cooperante
|
|
França
|
Bom reSultado para o crescimento e reSultado aceitável para a
inflação. O efeito da desvalorização é
positivo em relação à Alemanha e à zona
dólar, negativo até T+2 em relação à Europa
do Sul.
|
ReSultados piores tanto para o crescimento como para a inflação,
mas que no entanto permanecem aceitáveis. O afastamento da taxa de
câmbio real com a Alemanha mantém-se em fim de período e
anula-se com a Europa do Sul a T+2/3.
|
O cenário mais favorável para a França.
|
|
Itália
|
Situação aceitável em relação à zona
dólar até T+2. Atinge o ponto actual a T+5.
Situação a deteriorar-se em relação à
França após T+1 e à Alemanha após T+3.
|
Situação que é aceitável em relação
à zona dólar até T+6. Situação a
deteriorar-se em relação à França após T+2/3
e à Alemanha após T+5.
|
Cenário inaceitável com um afastamento da taxa de câmbio
real que se cava com a França e com o dólar e a Alemanha a partir
de T+2/3.
|
|
Espanha
|
Situação aceitável em relação à zona
dólar até T+2. Atinge o ponto actual a T+5.
Situação a deteriorar-se em relação à
França após T+1 e à Alemanha após T+3
|
Situação que é aceitável em relação
à zona dólar até T+5. Situação a
deteriorar-se em relação à França após T+2/3
e à Alemanha após T+4.
|
Cenário inaceitável com um afastamento da taxa de câmbio
real que se cava com a França, e com o dólar e a Alemanha a
partir de T+2/3.
|
|
Europa do Norte (Finlândia, Áustria, Holanda)
|
Situação degradada tanto em relação à
Alemanha como em relação ao dólar (em princípio de
período)
|
Países beneficiando de uma taxa de câmbio favorável em
relação à Alemanha durante os primeiros dois anos.
Desvalorização em relação ao dólar para os
Países Baixos, sobrevalorização para a Finlândia.
|
Situação desfavorável tanto em relação ao
dólar como em relação ao resto da Europa.
|
|
Alemanha
|
Forte afastamento da taxa de câmbio real inicial a reduzir-se
rapidamente. Reencontra uma quase paridade com a França em T+4 e uma
forte subvalorização em relação a países da
Europa do Sul.
|
Situação globalmente desfavorável para a Alemanha. Em
relação ao dólar a situação melhora
após T+2. Isto implicaria um reequilíbrio dos câmbios para
a zona dólar.
|
Situação ligeiramente favorável de
sobrevalorização relativa, a melhorar rapidamente tanto em
relação ao dólar como aos outros países da Europa,
excepto a França.
|
Quanto ao cenário classificado de "cooperante" e que serve de
base ao nosso estudo, caracteriza-se pelo facto de a taxa de câmbio real
da Espanha, da Itália e de Portugal ultrapassar o da França a
partir de T+2 (ou seja, três anos depois da desvalorização
inicial) e de atingir os 1,30 dólares em T+5.
Constata-se, nestas condições, que, do ponto de vista
económico, a pressão dos países da Europa do Sul
será forte para um cenário dito
"não-cooperante". Este último aparece, apesar de tudo,
como aceitável para a França que mantém neste
cenário um distanciamento de 13% da taxa de câmbio real com a
Alemanha. Na realidade, os interesses dos países podem ser sintetizados
numa matriz que permite pôr em realce lógicas políticas que
seriam então postas em prática. Lembramos aqui que não
avaliamos preferências absolutas dos países mas as
preferências entre os três cenários estudados.
Tabela 5- Matriz das preferências
|
País
|
Cenário Cooperativo
|
Cenário Não-cooperativo
|
Cenário Hiper-cooperativo
|
|
França
|
+
|
=
|
++
|
|
Itália
|
=
|
+
|
--
|
|
Espanha
|
=
|
+
|
--
|
|
Europa do Norte (Finlândia, Áustria, Holanda)
|
-
|
+
|
--
|
|
Alemanha
|
=
|
-
|
+
|
++ Muito favorável
+ Favorável
= Indiferente
- Desfavorável
-- Muito desfavorável
É preciso ter em conta que, nas regras actualmente em vigor na zona
euro, tem de emergir um consenso se quisermos que seja escolhido um
cenário cooperante ou híper-cooperante. Esta
situação exclui a hipótese de considerar o cenário
dito "híper-cooperante", dadas as fortes clivagens existentes.
A hipótese da divisão da zona euro em duas (com um euro do Norte
e um euro do Sul) aparece simultaneamente como irrealista sem a perenidade de
um ponto de vista económico e que implique transferências
importantes para poder ser aceite politicamente, tanto vis-à-vis os
países da Europa do Sul mas também dos países da Europa do
Norte. Este cenário é o que apresenta o cúmulo das
oposições. Se os países da Europa do Norte estiverem em
condições de organizar uma frente comum, isso levará
também à exclusão do cenário dito
"cooperante" e deixa em aberto apenas o cenário
"não-cooperante", mas isso resultará em prejuízo
para a Alemanha.
Se for possível oferecer vantagens particulares aos países da
Europa do Norte, e isso é de admitir porque as transferências
seriam consideravelmente menos pesadas que as que seria necessário
adoptar para que o cenário "híper-cooperante" tivesse
alguma hipótese de ser considerado, é possível que seja
escolhido o cenário dito "cooperante" ou cenário de
base no nosso estudo, porque concentra as indiferenças.
21/Maio/2013
O original encontra-se em
http://russeurope.hypotheses.org/1254
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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