Contra o euro
Este livro
[1]
, diz-nos Juan Francisco Martín Seco na introdução, foi
escrito com "raiva", dada a destruição evitável
que está sendo gerada na economia, no Estado social e na democracia
espanholas. Felizmente, a "raiva" foi posta ao serviço de uma
argumentação clara e racional. As grandes linhas do argumento
contra o Euro são conhecidas e o livro apresenta-as claramente, tendo a
vantagem adicional de nos mostrar como a atitude das elites económicas e
políticas espanholas em relação ao Euro e à
integração neoliberal que lhe esteve indelevelmente associada foi
tão semelhante à das castas portuguesas: o mesmo egoísmo,
a mesma miopia, a mesma arrogância, os mesmos complexos do bom aluno e a
mesma atitude moralista imoral depois da crise rebentar vivestes acima
das possibilidades, agora é altura de pagar.
As causas estruturais da dívida externa elevada são claramente
identificadas: o Euro, uma moeda sem Estado, desligado das finanças
públicas, e que aumentou as assimetrias entre os Estados realmente
existentes, não serve as economias europeias menos desenvolvidas e agora
sem meios decentes para gerir a sua inserção internacional. A
acumulação de défices da balança corrente foi um
sintoma da perda de competitividade, de uma moeda demasiado forte. Agora, os
défices são provisoriamente debelados pelo destrutivo e injusto,
até porque só recai sobre os assalariados, mecanismo da
desvalorização interna. Este deixa um lastro institucional,
social e laboral, pesado, tal como a construção do euro, por via
essencialmente da liberalização financeira, já o tinha
feito. O trabalho de neoliberalização ficaria completo.
Parte do livro é constituída por um impressionante corpo de
autocitações de escritos do autor, fundamentalmente dos anos
noventa: um bem vos avisei sem falsas modéstias. Não se trata de
mais um oráculo, mas sim de ter tido a capacidade de identificar, com a
ajuda de história racionalizada, por exemplo das
desvalorizações cambiais quando a coisa apertava, mecanismos e
padrões emergentes, mas ignorados pela sabedoria convencional
euro-contente.
Seco, um economista entre a alta administração pública e
academia e que rompeu com o PSOE na década de noventa, insiste que a
União Europeia saída de Maastricht e confirmada nos Tratados
subsequentes, baseada numa moeda disfuncional e numa lógica de
expansão sem fim das forças do mercado capitalista, não
é união, já que reforça os mecanismos de
polarização e não é europeia, já que
destrói o Estados sociais e as democracias. Os mecanismos nesta altura
são muito claros: sem moeda própria e controlada pelos poderes
públicos democráticos, sem algum tipo de controlo de capitais,
não existe, nem existirá, o grau soberania que é
condição necessária para que as
constituições democráticas e sociais anti-fascistas, ainda
tão temidas pelo capital financeiro, e por potenciais boas
razões, possam ser cumpridas nas suas dimensões essenciais. Um
bom contributo para que as forças sociais e políticas que se
dizem progressistas se possam ver livres, também do outro lado da
fronteira, das custosas ilusões do Euro.
19/Novembro/2013
[1] Ediciones Península, Madrid, 2013, 208 p., ISBN 978-84-9942-202-2
[*]
Economista, co-autor de
A crise, a troika e as alternativas urgentes
, Tinta da China, Lisboa, 2013, 198 p., ISBN 978-989-671-169-6
O original encontra-se em
ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/11/contra-el-euro.html
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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