Para quem continua a exercitar a boa, velha e estafada ilusão de que
uma vez que os Estados Unidos abandonem (se o fizerem) a Europa, a
Rússia e a Europa encontrarão imediatamente uma linguagem comum;
ou, que de alguma forma as relações russo-europeias são
reféns do aventureirismo geopolítico americano, tenho algumas
sugestões acordem. Permitam-me recordar-vos que foi a Alemanha
quem desempenhou um papel muito grave no desmembramento da Jugoslávia e
que no estado da Ucrânia a chegada ao poder de forças
radicalmente russofóbicas teve muito a ver com a Alemanha e a UE em
geral. A França, entretanto, é uma "criminosa declarada"
após o inferno desencadeado na Líbia. Só para recordar.
Agora isto:
O presidente russo Vladimir Putin disse aos seus homólogos alemão
e francês, Angela Merkel e Emmanuel Macron, que qualquer tentativa de
intervenção de forças externas na crise política na
Bielorússia seria contraproducente. Em telefonemas separados na
terça-feira, iniciados por Berlim e Paris, Putin enfatizou que aplicar
pressão externa sobre a liderança em Minsk é
inaceitável. A Rússia e a Bielorússia têm
alianças militares e políticas formais, através da
Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO, na
sigla em inglês), da União Económica Euro-asiática
(EEU) e de um acordo de "união de estados". Segundo o lado
alemão, a chanceler Merkel disse a Putin que o governo de Alexander
Lukashenko deve cessar de utilizar violência contra manifestantes
pacíficos, entrar em diálogo com a oposição e
libertar imediatamente prisioneiros políticos. Os comentários da
chanceler foram feitos em meio a várias discussões entre membros
da União Europeia acerca de como tratar a situação na
Bielorússia. Ministros da UE concordaram sexta-feira passada em formular
uma lista de objectivos para uma nova rodada de sanções e
políticos na Polónia e Lituânia, além de outros
estados, pressionaram por intervenções, em vários graus.
Bem, ficam com a ideia. É sempre a mesma velha ladainha. A França
actuou no mesmo tom.
Uma reportagem da Reuters, segunda-feira, intitulada "Líderes da UE
apoiam manifestantes na Bielorússia e dizem à Rússia para
permanecer de fora", levantou sobrancelhas em Moscovo. Tal como o fizeram
comentários de Macron apelando à UE para "continuar a
mobilizar" ao lado dos manifestantes anti-governo na Bielorússia. A
posição do presidente francês provocou uma dura
repreensão de Moscovo, com a porta-voz do Ministério dos
Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, a perguntar "quando
é que ele apelará a que a União Europeia seja mobilizada
em apoio às centenas de milhares de manifestantes franceses com Coletes
Amarelos".
Como continuo a enfatizar desde há anos, não há pior
transformação do que quando uma chihuahua decide que é um
mastim. Nem a França, muito menos a Alemanha, são mastins. Salvo
algum arsenal nuclear limitado, a França é um anão
geopolítico com dores fantasmagóricas e ambições
mediterrânicas, ao passo que a Alemanha se aproxima da
irrelevância económica com notícias como esta:
A produção económica da Alemanha o motor da Europa
no primeiro trimestre deste ano contraiu-se
em 10,1% em comparação com o período homólogo do
ano passado. Esta queda de dois dígitos é a mais drástica
já experimentada desde que o Gabinete de Estatística Federal
começou a registar dados económicos trimestrais a meio
século atrás. "É um número espantoso
menos 10,1%", escreve Henrik Böhme, analista económico da
rádio estatal Deutsche Welle. "Nunca antes, na história
alemã do pós guerra, a economia do país afundou tão
abruptamente como no segundo trimestre de 2020".
Na verdade, a economia da Alemanha continua a contrair-se há 20
meses seguidos. Uma vez que se começa a considerar geralmente suicidas e
radicalmente anti-científicas as políticas energéticas da
UE, acrescentando-se aqui o facto de que para a exportação de
hidrocarbonetos da Rússia a UE estar a perder o seu estatuto de
prioridade, torna-se não só justificado como irresistível
fazer uma pergunta: quem é que estes desgraçados perdedores
pensam que são? Isto também mostra que os destinos
geopolíticos da Rússia e da Europa estão a divergir e,
como digo constantemente, o abismo cultural entre europeus e russos continua a
crescer. A Alemanha e a França podem continuar a telefonar
para o Kremlin, mas é evidente que cada vez mais lhes será dito
para tratarem da sua vida e manterem seus narizes fora dos negócios da
Rússia, pois tanto a França como a Alemanha são meramente
actores geopolíticos secundários e com economias reais em
contracção. A UE para a Rússia é apenas um mercado,
nada mais. O facto de Putin ser um germanófilo (ele é) não
deveria ser motivo para confundi-lo com um mastim preocupado com o ladrar de chihuahuas.
18/Agosto/2020
[*]
Analista militar, autor de
A supremacia militar perdida dos EUA
e de
A revolução (real) nos assuntos militares
O original encontra-se em
smoothiex12.blogspot.com/2020/08/chihuahuas-start-barking.html#disqus_thread
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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