As eleições na União Europeia
por John Catalinotto
As eleições para o Parlamento da União Europeia realizadas
dia 25/5 reflectiram a crescente rejeição pelas massas dos
partidos de centro que comandaram a maioria dos governos na Europa Ocidental e
a própria União Europeia sobretudo contra o modo como a UE
enfrentou a grave crise capitalista em 2008 e daí em diante, com crise
continuada, até hoje. No continente europeu, só 43% dos eleitores
habilitados compareceram para votar.
Desde 1945, os partidos de centro-direita ou conservadores e a
social-democracia ou partidos ditos socialistas de centro-esquerda vinham-se
alternando na administração dos governos ocidentais
imperialistas. A partir de 2008, partidos de centro-esquerda e de
centro-direita passaram a colaborar para impor austeridade à classe
trabalhadora na Europa. A classe dominante europeia especialmente os
grandes financistas capitalistas impuseram programas impopulares de
austeridade contra países individualmente endividados, para garantir que
as dívidas fossem pagas aos bancos credores. Para fazer isso usaram
instituições financeiras da burocracia da União Europeia,
as chamadas
Troika
Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e
Banco Central Europeu.
Essencialmente, a União Europeia é o instrumento da classe
dominante europeia para tomar cada vez mais do que os trabalhadores produzem e
transferi-lo para os ricos. Reduziu salários dos trabalhadores,
pensões e benefícios para os desempregados e cortou nos cuidados
de saúde e na educação.
Combinada com a ausência na maior parte dos países europeus de uma
alternativa eleitoral crível e eficaz de esquerda, a repulsa contra os
partidos de centro e contra a UE em muitos países levou a avanços
de partidos nacionalistas de ultra-direita que são publicamente anti-UE
e que habitualmente apresentam programas anti-imigração,
xenófobos e mesmo racistas. Os ganhos da direita foram especialmente
grandes em duas importantes potências imperialistas
Grã-Bretanha e França e na Holanda e Dinamarca.
A classe trabalhadora e suas organizações têm,
naturalmente, de combater esses partidos direitistas e, especialmente, os
racistas, tanto nas ruas como em eleições. Mas não
é o caso de exagerar a ameaça dos partidos direitistas ou
neofascistas representariam, ou a sua iminência de chegada ao poder.
O Parlamento Europeu é apenas uma sala de conversação,
não um poder executivo. A UE não administra realmente um aparelho
de Estado ou um exército nacional, como Washington. Todo o poder da
União Europeia está concentrado em instituições
burocráticas como a
Troika
, não no Parlamento.
Nos países mais duramente atingidos os partidos progressistas
avançaram
A votação teve resultados diferentes em diferentes países.
Considerem-se os países europeus mais atingidos pela crise capitalista.
Para usar um indicador de crise: as taxas de desemprego foram superiores a 25%
na Espanha e na Grécia; a 18% em Portugal, e a 14% na Irlanda. A
Troika
e as classes dominantes locais impuseram cortes horrendos a todos eles
para garantir pagamentos aos grandes bancos.
Os votos nestes países aumentaram o número de cadeiras dos
partidos com um programa mais progressista ou favorável ao trabalho.
Só na Grécia é que um partido de extrema-direita teve
ganhos.
Na Espanha, a votação remeteu tanto os "socialistas"
(PSOE) como o direitista Partido Popular a uma esmagadora derrota, assinalando
uma mudança a decorrer. Um novo partido do movimento dos
"Indignados" conseguiu atrair 8% dos votos e a Esquerda Unida (IU)
também avançou.
Na Espanha, mais importante que o resultado eleitoral na Espanha foram os
acontecimentos que se seguiram. Em Barcelona, durante quatro dias, jovens que
protestavam contra uma invasão policial a um edifício ocupado por
grupos sem tecto combateram a polícia local.
Em 2 de Junho, o rei espanhol, símbolo extremamente impopular da
continuidade do regime fascista de Franco, abdicou. Imediatamente,
organizações da classe trabalhadora espanhola convocaram
manifestações para exigir um referendo sobre o estabelecimento de
uma república.
Em Portugal os comunistas, e na Irlanda o partido Sinn Fein, avançaram
nas eleições para o Parlamento Europeu, ganhando votos entre os
jovens. E partidos direitistas perderam espaço.
Na Grécia, o Partido Comunista obteve 6% dos votos, ao passo que o novo
partido social-democrata, o Syriza, ficou em primeiro lugar com 27% dos votos.
O Syriza ganhou praticamente todos os votos perdidos pelos social-democratas
tradicionais, comprometidos pelo apoio que deram à austeridade. O
partido fascista Aurora Dourada avançou, obtendo 11% dos votos.
Na Itália, o partido direitista de Silvio Berlusconi perdeu pesadamente,
e um voto de protesto, equivalente a cerca de 20% dos eleitores, foi para o
não ortodoxo Movimento 5 Estrelas, agrupamento anti-austeridade liderado
pelo comediante Beppe Grillo. Na Itália o Partido Democrático, de
centro-esquerda, que governa a Itália, ficou em primeiro lugar.
Na Alemanha, cuja classe domina controla a Europa, os partidos tradicionais
mantiveram seu papel principal. Nenhum partido de esquerda ou de direita
ganhou. O desemprego ainda é razoavelmente baixo na Alemanha
embora os salários dos trabalhadores tenham continuamente perdido poder
de compra ao longo dos últimos 20 anos.
Na Grã-Bretanha, tanto o partido Trabalhista como o Conservador perderam
votos. A maior parte do voto de protesto foi para o relativamente indefinido
mas claramente anti-UE Independence Party (UKIP). Este partido que
é diferente do declaradamente racista
British National Party
ficou em primeiro lugar, com 27,5% dos votos, apesar de nunca ter obtido
uma cadeira no Parlamento Britânico!
O pior resultado foi em França, onde o partido racista Frente Nacional
ficou em primeiro lugar com 25% dos votos. Nenhum partido de esquerda ganhou. O
Partido Socialista, o qual está estreitamente identificado à
austeridade da UE e traiu todo e qualquer vestígio de solidariedade
que tivesse com a classe trabalhadora, foi jogado no lixo.
O original encontra-se em
www.workers.org/articles/2014/06/07/look-inside-european-union-vote/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|