O euro e as lições da história
O euro é um desafio ostensivo às lições da
História, e não se desafia a História sem pagar um
preço.
Na era contemporânea e até à data, houve três grandes
experiências de fixação da paridade cambial entre grupos
significativos de economias distintas: o padrão-ouro do final do
século XIX e início do século XX; o sistema de Bretton
Woods, que vigorou entre o final da 2ª Guerra Mundial e o início da
década de 1970; e o Euro.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios
fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de
investimento e comércio internacional. No plano político, a
intenção declarada era a da promoção da
integração económica, da interdependência e, pelo
menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as
nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da
maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é
também na prática unificação monetária, tal
como nos diz o chamado
trilema da economia internacional
) não se fez
acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental
susceptível de contrariar a divergência gradual das várias
economias em relação aos parâmetros iniciais em
função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa
estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas
até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do
início do século XX durou até à Grande
Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as
principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás
um facto bem conhecido da história económica do século XX
que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o
chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos
países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931)
começaram a recuperação da Grande Depressão muito
mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais
tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram
até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou
sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da
década de 1970.
A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas
, mas tal ocorreu no contexto de uma crise
sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se
já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à
eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda
nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a
insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado
da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista
assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos
níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime
especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade
fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos. O euro
é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia
nos planos fiscal e orçamental e a ausência de
coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas
pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um
sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar
do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais
viável.
No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que
ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar
a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.
04/Março/2015
[*]
Economista, co-autor do blog Ladrões de Bicicletas
O original encontra-se em
expresso.sapo.pt/o-euro-e-as-licoes-da-historia=f913382
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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