A unidade comunista e os seus falsos amigos
por Zoltan Zigedy
Parafraseando de Maistre, todo partido político tem a liderança
que merece. É a confiança na sabedoria desta máxima que me
impede de comentar extensamente acerca do contínuo esforço de
recuo do marxismo-leninismo por parte do presidente Sam Webb e o resto da
liderança de topo do Partido Comunista dos EUA.
Como o número de membros continua a contrair-se descontando os
"amigos" da Internet e os "gostos" só se pode
admirar a tenaz lealdade de maior parte dos membros remanescentes, uma
lealdade talvez residual dos tempos em que o Partido estava sob ataques vindos
de todos os lados.
Mas hoje o Partido não está sob o ataque de ninguém,
especialmente
desde que todo o seu tipo de trabalho coincide com o trabalho abnegado para
vitórias eleitorais do Partido Democrático enquanto segue
submissamente (fora da estação eleitoral) a liderança da
AFL-CIO.
Aparentemente há mudanças em andamento no PCEUA pois aproxima-se
a sua Convenção Nacional de Junho. Ali será mudada a
liderança. Infelizmente, esta não promete ser acompanhada por uma
mudança na perspectiva ideológica. No entanto, alguns
manterão uma infundada "esperança" numa nova
direcção, uma esperança que imobilizará a
dissidência.
Também há a conversa de deixar cair referências a
"Comunismo", a barreira final, se se acreditar nos
"webbitas", para que o PCEUA se torne um partido com apoio de massa.
Para uma discussão honesta e crítica das mais recentes
cogitações de Sam Webb, vá aqui:
http://houstoncommunistparty.com
.
Deixando de lado seu declínio contínuo, o PCEUA conta como uma
pequena voz, mas uma voz com autoridade para a esquerda dos EUA, sobre assuntos
respeitantes ao Movimento Comunista Mundial. Recentemente, Sue Webb, que
representou o PCEUA na reunião internacional de partidos comunistas e
operários efectuada em Lisboa, em Novembro do ano passado, apresentou um
relatórios daquela reunião, destacando as
avaliações e visões do PCEUA e outros partidos sobre a
situação actual e o caminho pela frente.
Grande parte do comentário de Sue Webb é um ataque tenuamente
velado ao Partido Comunista Grego (
KKE
) sob o disfarce do apoio à
diversidade e independência no movimento mundial. Ao mesmo tempo, ela
explora diferenças entre Partidos para justificar o êxodo do PCEUA
do marxismo-leninismo.
O KKE não precisa de ninguém para defender sua honra e suas
posições; ele é muitíssimo capaz disso. Contudo,
é importante para todos os comunistas e amigos do comunismo examinar
cuidadosamente e criticamente as visões representadas em Lisboa. O
comentário de Sue Webb não alcança tais padrões.
Ela desdenhosamente sugere que o KKE obstinadamente e não razoavelmente
frustrou uma declaração final, unificadora: "As
críticas do partido grego foram tão fortes que ele rejeitou e
bloqueou a emissão de qualquer declaração final de
consenso sumarizando o pensamento da conferência. Ao assim fazer, o
partido grego e seus apoiantes de alguns outros partidos elevaram-se claramente
contra o pensamento e as políticas da esmagadora maioria de partidos
representados na reunião".
Ao mesmo tempo, ela apregoa as diversas estradas tomadas por vários
Partidos e sua autonomia relativa em relação a um caminho
único, citando Lenine copiosamente bem como a sua confiança no
Partido com base nas
"nossas próprias experiências e condições
de luta". Por outras palavras, ela culpa o KKE por não aceder
à vontade dos outros baseando-se nas suas "próprias
experiências e condições de luta". Aparentemente, ela
não vê inconsistência em louvar a velha linha eurocomunista
do comunismo nacional enquanto reprova o KKE pela sua posição de
princípio e independente na reunião de Lisboa.
A acusação de instigar a desunião é particularmente
espúria quando o grande papel do KKE em revitalizar as reuniões,
conferências e intercâmbios internacionais é reconhecido.
Perde-se no relato simplista de Sue Webb a contribuição singular
que o KKE traz a qualquer discussão do caminho para o socialismo. Sem
julgar os méritos de toda a sua conclusão, deve-se respeitar a
análise profunda que o KKE fez do colapso dos Partido Comunistas europeus
de massa desde a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a maior parte dos Partidos
tem-se debatido com as lições da perda da União
Soviética e da comunidade socialista da Europa do Leste, poucos exploram
as consequências teóricas da quase completa
auto-destruição de poderosos Partidos Comunistas de massa na
Itália, França e Espanha como faz a fundo o KKE. O processo de
estripamento do marxismo-leninismo em Partidos Comunistas e Operários
não governantes começou bem antes da queda do poder
soviético. É o KKE que extrai as lições mais
profundas desta experiência. Webb ignora-as inteiramente.
O fracasso em enfrentar as lições do colapso do socialismo no
Leste europeu e o fracasso do euro-comunismo leva a um mapa da rota pela frente
limitado e distorcido.
É neste contexto que o KKE desafia a posição de que
há "etapas" entre capitalismo e socialismo. Após a
Segunda Guerra Mundial, muitos Partidos projectam uma etapa anti-monopolista na
transição para o socialismo. Outros ainda quiseram construir uma
etapa baseada numa "democracia de um novo tipo", um sistema de
domínio que não era nem burguês nem socialista. Estas
estratégicas implicavam um foco sobre a luta parlamentar e a
colaboração com todas as forças capitalistas não
monopolistas. O "Compromisso histórico" italiano foi a
culminação simbólica desta perspectiva, envolvendo uma
estratégia que abria a porta para a burguesificação do
Partido Comunista Italiano (PCI) e consequentemente sua morte inevitável.
Um dos vendedores ideológicos desta abordagem, Giorgio Napolitano,
demonstra, com a trajectória da sua vida, a tragédia cruel do
fracasso do PCI: Outrora membro de um grupo de juventude fascista na
universidade, Napolitano juntou-se à resistência, aderiu ao PCI,
assumiu um papel cimeiro na sua nova direcção, e hoje reina como
o presidente da república burguesa italiana. Com civilidade e dignidade
medidas, ele legitimou o governo do buffo-fascista, Silvio Berlusconi. Suas
muitas honrarias, condecorações e prémios testemunham o seu
serviço ao capitalismo.
Numa entrevista em 1975, Napolitano, então o porta-voz económico
do PCI, dançou habilmente em torno de perguntas difíceis
colocadas por
Eric Hobsbawm
: "Acredito que em qualquer país o
processo de transformação socialista bem como regimes socialistas
têm de ser fundados sobre uma base ampla de consenso e
participação democráticas... Meu argumento acerca dos
princípios e formas de vida democrática a serem mantidos no
contexto de um avanço para o socialismo e a construção da
sociedade socialista refere-se mais concretamente aos países da Europa
Ocidental na qual nasceu a democracia burguesa, onde instituições
representativas têm uma tradição mais ou menos forte e
diversas correntes democráticas, ideológicas, culturais e
políticas têm operado mais ou menos livremente... [e] as quais
são caracterizadas em graus variados... pela presença de
apreciáveis grupos intermediários entre o proletariado e uma
grande burguesia controlando os meios de produção
básicos".
Apenas uns meros trinta anos depois de comunistas desempenharem um papel chave
na
queda do despotismo anti-democrático europeu, Napolitano celebra
vigorosamente a dúbia tradição europeia de democracia
burguesa enquanto atende oportunistamente aos interesses dos estratos
médios. Infelizmente, estas ilusões ainda perduram em muitos
Partidos Comunistas. É esta perspectiva fracassada que é
vigorosamente combatida pelo KKE.
Analogamente, o Partido Espanhol de massa, sob a liderança de Santiago
Carrillo, entrou num colapso próximo da irrelevância graças
ao fetiche da democracia burguesa e às concessões a estratos
não
proletários. Carrillo argumentou que "... o Partido Comunista
deveria ser o partido da liberdade e da democracia... Devemos trazer para o
nosso programa como parte integral, não apenas as
reivindicações dos trabalhadores, mas também aquelas de
todas as secções da sociedade que são
sub-privilegiadas".
Estes slogans vazios e superficiais servem bem a burguesia, como o fazem quando
inscritos nas plataformas dos modernos partidos burgueses parlamentares.
Não é de admirar que trabalhadores tenha fugido
maciçamente do
PCE; eles entendem o marxismo muito melhor que os líderes do Partido.
Reflexões sobre estes trágicos desacertos deveriam levar a
prestar atenção às advertências contra o oportunismo
emitidas pelo KKE:
Deixa-os indefesos contra o trabalho corrosivo das forças burguesas e
oportunistas as quais estão a tentar assimilar os PCs ao
parlamentarismo, castrá-los e fazer deles uma parte do sistema
político burguês, com colaborações sem
princípios, com participação em governos de
administração burguesa os quais têm uma etiqueta
"esquerda-progressista", armadilhados na lógica da
colaboração de classe, com apoio a centros imperialistas, como
está a acontecer, por exemplo, com os PCs do chamado Partido de Esquerda
Europeu, bem como outros PCs que estão a seguir o mesmo caminho (G.
Marinos, membro da Comissão Política do CC, KKE).
No rastro da mais profunda crise económica global desde a Grande
Depressão, a ideia de que Partidos Comunistas e Operários
deveriam lutar para conduzir o capitalismo para fora das suas mazelas
para melhor "administrar" o capitalismo é uma
estratégia absurda assegurando mais uma vez marginalizar as perspectivas
para o socialismo. Se apenas os Comunistas (ou Comunistas em aliança com
outros) podem resgatar o capitalismo, por que deveriam eles assim fazer?
Sue Webb falha no enquadramento das posições do KKE no contexto
do partidarismo de classe, um erro que garante confusão e mal-entendidos.
Ela falha em encontrar uma diferença entre combater por reformas na
estrutura do capitalismo e recusar tomar o lado de uma classe burguesa, uma
distinção que o KKE faz nitidamente. Onde reformas beneficiem o
povo trabalhador aumentos e melhorias na educação
pública, bem-estar social, saúde pública, etc os
comunistas combatem mais arduamente do que ninguém e aceitam aliados
incondicionalmente.
Mas onde trabalhadores são solicitados a posicionarem-se com a burguesia
sacrificando salários e benefícios para fazerem seu
patrão mais competitivo, boicotando produtos fabricados por
trabalhadores estrangeiros os comunistas instarão aqueles
trabalhadores a afastarem-se.
Sue Webb acusa o KKE de não considerar economias emergentes como rivais
do imperialismo ocidental: "o conceito dos países BRICs... ou
outros, tais como na América Latina, a emergirem como desafios para o
imperialismo ocidental é rejeitado".
Mas isto é absurdo; os comunistas vêm estes países como
rivais imperialistas ao imperialismo ocidental. Isto é, eles têm
os seus próprios desígnios sobre a economia global, seus
próprios interesses expansionistas. Ao mesmo tempo, os comunistas
opõem-se à agressão e à guerra por parte das
potências imperialistas em todos os casos e de toda espécie.
Exemplo: os comunistas opõem-se calorosamente à
intervenção dos EUA na Venezuela; eles opõem-se à
intromissão da UE e dos EUA na Ucrânia. Contudo, não
apoiam as respectivas burguesias nacionais. Isto está em contraste como
algumas organizações "marxistas" que vacilaram ou
capitularam a mudanças de regime ou ao "democrático"
trabalho missionário em países como o Iraque ou a Líbia.
Sue Webb zomba da rejeição pelo KKE do termo
"financiarização". "Identificar
financiarização como uma característica particular do
capitalismo de hoje é uma patranha, uma diversão. Capitalismo
é capitalismo". Pode-se bem perguntar-lhe: se capitalismo
não é capitalismo, então o que é? Estou certo de
que ela perdeu a noção de que haver um bom capitalismo e um mau
capitalismo é estranha ao marxismo. A social-democracia e todos os seus
parentes genéticos tentam encontrar um bom capitalismo para cavalgar
rumo ao socialismo. Naturalmente eles fracassaram sempre o capitalismo
não vai nessa direcção.
O lucro é a força condutora do capitalismo; é
impossível imaginar capitalismo sem lucro. E a busca do lucro molda a
trajectória do capitalismo. Como predadores raivosos, os capitalistas
procuram lucros por toda a parte no sector dos bens de capital, no
sector dos bens de consumo, no sector de serviços e no sector
financeiro. O facto de que o sector financeiro desempenhou um papel maior na
busca do lucro em tempos recentes lança pouca luz sobre a
operação fundamental do capitalismo. Ao invés, consagrar a
actividade financeira como uma espécie única de capitalismo
só obscurece o mecanismo básico da acumulação
capitalista. Não acrescenta nada.
É inegável que a crise global estalou primeiramente nos centros
financeiros capitalistas. Mas o facto de que as erupções iniciais
eram o resultado de processos há muito postos em movimento é
igualmente inegável. Sociais-democratas teriam feito acreditarmos que a
crise foi provocada pelo comportamento aberrante, por uma fixação
febril em manobras financeiras, facilmente reparada pela
regulação e reforma. Isto é insensato. Isto não
é marxismo.
Portanto, o termo "financiarização" é uma
espécie de patranha. Um termo do agrado também daqueles demasiado
preguiçosos ou temerosos de examinar o funcionamento interno de um
sistema cúpido.
Não é preciso concordar com toda a perspectiva e toda a
formulação do KKE para reconhecer que eles estão a tomar a
dianteira sobre questões que confrontam o Movimento Comunista
Internacional; estão a perguntar questões difíceis que
desafiam velhos hábitos, suposições fáceis e
posições não examinadas. Sim, eles desafiam crenças
convenientes que tornam fáceis interacções com outras
forças de esquerda, mas fazem-no a partir da fidelidade à
tradição comunista. Sim, eles não colocam o consenso por
amor ao consenso à frente dos princípios.
Mas aqueles de nós que querem restaurar a vitalidade do movimento
comunista devem mostrar uma apreciação profunda e
não desprezo pelo seu compromisso desprendido para ressuscitar um
comunismo militante baseado sobre os fundamentos lançados por Marx e
Lenine.
Por toda a sua arrogância auto-congratulatória acerca de escapar
do dogmatismo, sectarismo e ideias "exóticas", o Partido de
Sue Webb está prestes a afundar no esquecimento. Como num navio a
afundar, a liderança do PCEUA está a desfazer-se das suas
cadeiras no tombadilho e do mobiliário das cabines tão
rapidamente quanto a água ascende. Foram-se os arquivos do Partido, o
jornal do Partido, as livrarias do Partido, as organizações do
Partido, a educação e mesmo as reuniões do Partido.
Foram-se os símbolos do Partido, os princípios organizacionais, a
ideologia e mesmo as saudações de camarada. Em sua
substituição estão comunicações Facebook e
Twitter, conferências por telefone e vídeo, e causas comuns com
grupos liberais entre esforços obrigatórios em apoio de
campanhas eleitorais do Partido Democrático.
Diz Sue Webb: "A perspectiva e políticas do nosso partido
ajusta-se bem dentro da corrente principal do movimento comunista mundial como
se exprimiu em Novembro último na reunião de Lisboa".
Tomara que fosse assim! A liderança actual do PCEUA rejeita abordagens
audaciosas para alcançar o socialismo enquanto espera passivamente pela
segunda vinda de Franklin Delano Roosevelt e o New Deal. Eles desenham sua
linha estratégica a partir das medidas desesperadas e defensivas
impostas pela
ascensão do fascismo oitenta anos atrás, uma frente
temporária com forças da classe não trabalhadora que
rapidamente traíram aquela aliança após a II Guerra
Mundial e a queda do fascismo. Sam Webb e a sua clique na liderança
permanecem presas ao pensamento de outro tempo.
"Bem dentro da corrente principal"? Penso que não. O Movimento
Comunista Internacional está a crescer outra vez graças, em
parte, a conversações francas e vivas acerca do caminho em
frente, como ocorreu em Lisboa. Enquanto o consenso permanece ilusório,
o processo de discussão é, no entanto, clarificador e unificador.
Mas para aqueles capturados na teia do oportunismo, o futuro é negro.
11/Março/2014
[*]
Economista.
O original encontra-se em
mltoday.com/communist-unity-and-its-false-friends
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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