A loucura eleitoral

por Howard Zinn [*]

Howard Zinn numa manifestação em Boston. Há um homem na Florida que me escreve há anos (dez páginas, manuscritas) embora eu nunca me tenha encontrado com ele. Ele conta-me as espécies de empregos que tem tido – guarda de segurança, reparador, etc. Ele trabalhou em toda a espécie de turnos, noite e dia, e mal consegue manter a sua família. Suas cartas para mim sempre foram iradas, vituperando o nosso sistema capitalista pelo seu fracasso em assegurar "vida, liberdade, a busca da felicidade" para o povo trabalhador.

Exactamente hoje chegou uma carta. Para meu alívio não era manuscrita porque ele agora usa email. "Bem, estou a escrever-lhe hoje porque há uma desgraçada situação neste país que eu não posso esperar e devo dizer alguma coisa acerca disso. Estou enfurecido com esta crise hipotecária. Que a maioria dos americanos deva viver as suas vidas em dívida perpétua, e que muitos estejam a afundar sob a carga, enraivece-me. Maldição, isso enlouquece-me, posso dizer-lhe... Fiz hoje um trabalho de guarda de segurança que envolvia guardar uma casa que fora arrestada e ia a leilão. Eles mantiveram a casa aberta e eu estava ali para guardar o lugar durante esse evento. Havia três guardas as fazer a mesma coisa em outras casas na mesma comunidade. Sentei-me ali durante os momentos tranquilos e perguntei-me quem eram aquelas pessoas que haviam sido expulsas e onde estavam elas agora".

No mesmo dia em que recebi esta carta havia uma notícia de primeira página no Boston Globe, com a manchete "Milhares em Massachusetts, Arrestos avançam em 2007".

O subtítulo era "7563 lares foram tomados, cerca de três vezes a taxa de 2006".

Umas poucas noites antes, a televisão CBS informou que 750 mil pessoas com incapacidades tem estado à espera durante anos pelos seus benefícios da Segurança Social porque o sistema está subfinanciado e não há pessoal suficiente para processar todos os pedidos, mesmo aqueles desesperados.

Histórias como esta podem ser encontradas nos media, mas elas desaparecem num instante. O que não desaparece, o que ocupa a imprensa dia após dia, impossível de ignorar, é o frenesim eleitoral.

Isto captura o país a cada quatro anos porque todos nós fomos levados a acreditar que votar é crucial na determinação do nosso destino, que o mais importante acto que um cidadão por fazer é ir às urnas e escolher uma das duas mediocridades que já foram escolhidas para nós. É um teste de escolha múltipla tão estreito, tão especioso, que nenhum professor com auto-respeito o submeteria aos seus estudantes.

E é triste dizer, a disputa presidencial hipnotizou liberais e radicais afins. Todos nós somos vulneráveis.

Será possível estarmos junto de amigos nestes dias e evitar o assunto das eleições presidenciais?

Mesmo as pessoas que deveriam saber isso bem, tendo criticado o poder dos media sobre a opinião pública nacional, encontram-se elas próprias paralisadas pela imprensa, coladas ao aparelho de televisão, como os se enfeitem e sorriem e despejam uma torrente de clichés com uma solenidade apropriada para a poesia épica.

Até mesmo nos periódicos considerados de esquerda devemos admitir que há uma exorbitante quantidade de atenção concedida ao exame minucioso dos candidatos principais. O osso ocasional é atirado aos candidatos menores, embora todos saibam que o nosso maravilhoso sistema político democrático não os permitirá.

Não, não estou a tomar alguma posição ultra-esquerdista de que eleições são totalmente insignificantes, e que deveríamos recusar o voto para preservar a nossa pureza moral. Sim, há candidatos que são um pouco melhor do que outros, e em certos tempos de crise nacional (os anos 30, por exemplo, ou exactamente agora) mesmo uma ligeira diferença entre os dois partidos pode ser uma questão de vida ou morte.

Estou a falar acerca de um sentido de produção que fica perdido na loucura eleitoral. Apoiaria eu um candidato contra um outro? Sim, durante dois minutos – a quantidade de tempo que gasto para pressionar a alavanca na cabine de voto.

Mas antes e depois daqueles dois minutos, o nosso tempo, a nossa energia, deveriam ser gastos em educar, agitar, organizar nossos companheiros cidadãos no lugar de trabalho, na vizinhança, nas escolas. O nosso objectivo deveria ser construir, de forma consciente, paciente mas energicamente, um movimento que, quando atingisse uma certa massa crítica, sacudiria quem quer que seja que estivesse na Casa Branca, no Congresso, para a mudança da política nacional em matéria de guerra e justiça social.

Deixe-me recordar que mesmo quando há um candidato "melhor" (sim, melhor Roosevelt do que Hoover, melhor qualquer um do que George Bush), tal diferença não significará nada a menos que o poder do povo se afirme de um modo que o ocupante da Casa Branca ache perigoso ignorar.

As políticas sem precedentes do New Deal – Segurança Social, seguro de desemprego, criação de emprego, salário mínimo, habitação subsidiada – não foram simplesmente o resultado do progressismo de FDR. A administração Roosevelt, chegada ao gabinete, enfrentou uma nação em turbulência. O último ano da administração Hoover havia experimentado a rebelião do Bonus Army – milhares de veteranos da Primeira Guerra Mundial a descerem sobre Washington para exigir ajuda do Congresso pois as suas famílias passavam fome. Havia perturbações dos desempregados em Detroit, Chicago, Boston, New York, Seattle.

Em 1934, princípio da presidência Roosevelt, desencadearam-se greve por todo o país, incluindo uma greve geral em Minneapolis, uma greve geral em San Francisco, centenas de milhares em greve nas fábricas têxteis do Sul. Conselhos de desempregados formaram-se por todo o país. Pessoas desesperadas estavam a entrar em acção por si próprias, desafiando a polícia a repor a mobília de moradores despejados, e criando organizações de auto-ajuda com centenas de milhares de membros.

Sem uma crise nacional – privação económica e rebelião – não é provável que a administração Roosevelt tivesse instituído reformas arrojadas como fez.

Hoje, podemos estar certos de que o Partido Democrático, a menos que enfrente um levantamento popular, não se moverá fora do centro. Os dois principais candidatos presidenciais tornaram claro que, se eleitos, não porão um fim imediato à Guerra do Iraque, ou instituirão um sistema de cuidados de saúde gratuitos para todos.

Eles não oferecem nenhuma mudança radical do status quo.

Eles não propõem aquilo a que o presente desespero do povo clama: uma garantia do governo de empregos para todos os que precisarem, um rendimento mínimo para toda família, ajuda à habitação para todos os que enfrentem despejo ou arresto.

Eles não sugerem cortes profundos no orçamento militar ou mudanças radicais no sistema fiscal que libertariam milhares de milhões, mesmo milhões de milhões, para programas sociais a fim de transformar o modo como vivemos.

Nada disto deveria surpreender-nos. O Partido Democrático rompeu o seu conservadorismo histórico, as suas concessões aos ricos, a sua predilecção pela guerra, só quando encontrou rebelião dos de baixo, como nos anos 30 e 60. Não deveríamos esperar que uma vitória na cabina eleitoral em Novembro comece a mover o país dos seus dois males fundamentais: a cobiça capitalista e o militarismo.

Assim, precisamos libertar-nos da loucura eleitoral que engolfa toda a sociedade, incluindo a esquerda.

Sim, dois minutos. Antes disso e depois disso deveríamos estar a efectuar acções directas contra os obstáculos para a vida, liberdade e busca da felicidade.

Por exemplo: os arrestos hipotecários que estão a conduzir milhões para fora dos seus lares deveriam recordar-nos de uma situação semelhante após a Guerra Revolucionária, quando pequenos agricultores, muitos deles veteranos de guerra (tal como muitos dos nossos sem abrigo de hoje), não podiam arcar com o pagamento dos seus impostos e eram ameaçados com a perda da terra, dos seu lares. Eles reuniram-se aos milhares em torno dos tribunais e recusaram-se a permitir que os leilões tivessem lugar.

Os despejos de hoje de pessoas que não podem pagar as suas rendas de casa deveriam recordar-nos o que as pessoas fizeram nos anos 30 quando se organizaram e colocaram os pertences das famílias despejadas de volta nos seus apartamentos, em desafio às autoridades.

Historicamente, o governo, quer nas mãos de Republicanos ou Democratas, conservadores ou liberais, fracassou nas suas responsabilidades, até ser forçado pela acção directa: greves brancas (sit-ins) e viagens em autocarro pelo sul do país (Freedom Rides) pelos direitos do povo negro, greves e boicotes pelos direitos dos trabalhadores, motins e deserções de soldados a fim de parar a guerra. Votar é fácil e marginalmente útil, mas é um fraco substituto da democracia, a qual exige a acção directa dos cidadãos interessados.

23/Fevereiro/2008

[*] Autor de A People's History of the United States: 1492 - Present , Voices of a People's History of the United States (com Anthony Arnove), e mais recentemente, A Power Governments Cannot Suppress .

O original encontra-se em http://www.informationclearinghouse.info/article19408.htm


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
27/Fev/08