por Medea Benjamin [*] e Nicolas J. S. Davies
[**]
Enquanto o mistério de quem é responsável pela sabotagem
dos dois petroleiros no Golfo de Omã continua sem solução,
está claro que a administração Trump tem sabotado as
remessas de petróleo iranianas desde 2 de maio, quando anunciou sua
intenção de "
reduzir as exportações de petróleo do Irão a zero, negando ao regime a sua principal fonte de rendimento
". Esta ação foi dirigida à China, Índia,
Japão, Coreia do Sul e Turquia, nações que compram
petróleo iraniano e agora enfrentam ameaças dos EUA se
continuarem a fazê-lo. Os militares dos EUA podem não ter
explodido fisicamente petroleiros transportando petróleo bruto iraniano,
mas as suas ações têm o mesmo efeito e devem ser
consideradas atos de terrorismo económico.
A administração Trump está também a cometer um
roubo maciço de petróleo ao confiscar
7 mil milhões de ativos de petróleo da Venezuela
impedindo o governo de Maduro de obter acesso ao seu próprio
dinheiro. De acordo com John Bolton, as sanções à
Venezuela afetarão
11 mil milhões de dólares
em exportações de petróleo em 2019. A
administração Trump também ameaça as companhias de
navegação que transportam petróleo venezuelano. Duas
empresas uma baseada na Libéria e outra na Grécia
já foram punidas com penalidades pelo envio de petróleo
venezuelano para Cuba. Não há buracos nos seus navios, mas
há no entanto sabotagem económica.
Seja o Irão, Venezuela, Cuba, Coreia do Norte ou um dos
20 países
sob a bota das sanções dos EUA, o governo de Donald Trump
está a usar o seu peso económico para tentar mudanças de
regime ou mudanças políticas importantes em muitos países
pelo mundo afora.
Mortais
As sanções dos EUA contra o Irão são
particularmente brutais. Embora os EUA não tenham conseguido
avançar nas metas de mudança do regime provocaram crescentes
tensões com parceiros comerciais dos EUA em todo o mundo e infligiram
terríveis sofrimentos ao povo do Irão. Embora alimentos e
medicamentos estejam tecnicamente isentos de sanções,
as sanções dos EUA contra os bancos iranianos
como o Parsian Bank, o maior banco não estatal do Irão, tornam
quase impossível processar pagamentos por bens importados e isso
inclui alimentos e remédios. A escassez resultante de medicamentos
certamente causará milhares de mortes evitáveis no Irão e
as vítimas serão trabalhadores comuns, não Ayatolahs ou
membros do governo.
Os grandes meios de comunicação dos EUA têm sido
cúmplices no pretexto de que as sanções dos EUA são
uma ferramenta não violenta para pressionar os governos-alvo a fim de
forçar algum tipo de
mudança democrática de regime
.
Os relatórios norte-americanos raramente mencionam o impacto mortal das
sanções sobre o comum das pessoas culpando os governos visados
pelas crises económicas resultantes.
O impacto mortal das sanções é muito claro na Venezuela,
onde as sanções económicas dizimaram uma economia
já sofrendo com a queda dos preços do petróleo, a
sabotagem da oposição, a corrupção e más
políticas do governo. Um relatório conjunto sobre mortalidade na
Venezuela em 2018 realizado por
três universidades venezuelanas
concluiu que as sanções dos EUA foram grandemente
responsáveis por pelo menos 40 mil mortes adicionais naquele ano. A
Associação Farmacêutica da Venezuela relatou uma escassez
de 85% de medicamentos essenciais em 2018.
Na ausência das sanções dos EUA, a
recuperação dos preços globais do petróleo em 2018
deveria ter levado a pelo menos uma pequena recuperação na
economia da Venezuela e a importações mais adequadas de alimentos
e medicamentos. Em vez disso, as sanções financeiras dos EUA
impediram a Venezuela de renegociar as suas dívidas e privaram a
indústria petrolífera de dinheiro para peças,
reparações e novos investimentos, levando a uma queda ainda mais
dramática na produção do que nos anos anteriores de baixos
preços do petróleo e depressão económica. A
indústria petrolífera fornece 95% divisas estrangeiras da
Venezuela, portanto, estrangulando a sua indústria petrolífera e
cortando a possibilidade da Venezuela aceder a empréstimos
internacionais. As sanções previsivelmente e
intencionalmente aprisionaram o povo da Venezuela numa espiral
económica depressiva.
Um estudo de Jeffrey Sachs e Mark Weisbrot para o Centro de Pesquisas
Económicas e Políticas, intitulado
"Sanções como castigo coletivo: o caso da Venezuela"
, informou que o efeito combinado das sanções dos EUA de
2017 a 2019 deve levar a uma espantosa redução de 37,4% do PIB
real da Venezuela em 2019, na esteira de um declínio de 16,7% em 2018 e
a
queda de mais de 60%
nos preços do petróleo entre 2012 e 2016.
Na Coreia do Norte,
décadas de sanções
, juntamente com longos períodos de seca, deixaram milhões de
pessoas do país de 25 milhões de habitantes
malnutridos e empobrecidos
. As áreas rurais, em particular,
têm falta de remédios e água limpa
.
As sanções ainda mais rigorosas impostas em 2018 proibindo a
maior parte das exportações do país,
reduziram a capacidade do governo
para pagar por alimentos importados para aliviar a escassez.
Ilegais
Um dos elementos mais notórios das sanções dos EUA
é o seu alcance extraterritorial. Os EUA atacam empresas de
países terceiros com penalidades por "violarem"
sanções dos EUA. Quando os EUA deixaram unilateralmente o acordo
nuclear com o Irão e impuseram sanções, o Departamento do
Tesouro dos EUA
gabou-se
de que em apenas um dia, 5 de novembro de 2018, sancionou mais de 700
indivíduos, entidades, aeronaves e embarcações que faziam
negócios com o Irão. Em relação à Venezuela,
a
Reuters informou
que em março de 2019 o Departamento de Estado havia
"instruído as empresas petrolíferas e refinarias em todo o
mundo para reduzirem ainda mais as transações com a Venezuela ou
enfrentarem sanções, mesmo que negociações
comerciais não sejam proibidas pelas sanções tal como
publicadas pelos EUA.
Uma fonte da indústria petrolífera lamentou-se à Reuters:
"É assim que os Estados Unidos operam hoje em dia. Eles têm
regras escritas e depois ligam-nos para explicar que também existem
regras não escritas que eles querem que sejam cumpridas."
Autoridades norte-americanas dizem que as sanções
beneficiarão o povo da Venezuela e do Irão ao
pressioná-los a derrubarem os seus governos. Desde que o uso da
força militar, golpes e operações secretas para derrubar
governos estrangeiros
demonstraram-se catastróficos
no Afeganistão,
Iraque, Haiti, Somália, Honduras, Líbia, Síria,
Ucrânia e Iémen, a ideia de usar a posição dominante
dos EUA e do dólar nos mercados financeiros internacionais, como uma
forma de "poder brando" para alcançar uma "mudança
de regime", pode parecer aos políticos dos EUA uma forma mais
fácil de coerção para apresentar a um público nos
EUA cansado de guerras e a aliados difíceis.
Mas a mudança do "choque e pavor" do bombardeio aéreo e
ocupação militar para os assassinatos silenciosos por
doenças evitáveis, desnutrição e pobreza extrema
está longe de ser uma opção humanitária e
não mais legítima sob o Direito Internacional Humanitário
do que o uso da força militar.
Denis Halliday foi Secretário-Geral Adjunto da ONU, serviu como
Coordenador Humanitário no Iraque e demitiu-se da ONU em protesto contra
as sanções brutais contra aquele país em 1998.
"Sanções abrangentes, quando impostas pelo Conselho de
Segurança da ONU ou por um Estado sobre um país soberano,
são uma forma de guerra, uma arma contundente que inevitavelmente pune
cidadãos inocentes", disse Denis Halliday: "Se as
sanções forem deliberadamente ampliadas quando as suas
consequências mortais são conhecidas, podem ser consideradas
genocídio. Quando a embaixadora dos Estados Unidos Madeleine Albright
disse em no programa "Sessenta minutos" da CBS em 1996 que matar 500
mil crianças iraquianas para tentar derrubar Saddam Hussein tinha
"valido a pena", a continuação das
sanções da ONU contra o Iraque ajusta-se à
definição de genocídio".
Atualmente dois relatores especiais da ONU
nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU são autoridades
independentes e sérias sobre o impacto e a ilegalidade das
sanções dos EUA à Venezuela, as suas conclusões
gerais aplicam-se igualmente ao Irão. Alfred De Zayas visitou a
Venezuela logo após a imposição das sanções
financeiras dos EUA em 2017 e escreveu um extenso relatório sobre o que
lá encontrou. Ele encontrou impactos significativos devido à
dependência de longo prazo da Venezuela em petróleo, má
governação e corrupção, mas também condenou
veementemente as sanções e a "guerra económica"
dos EUA.
"As sanções económicas e os bloqueios modernos
são comparáveis aos cercos medievais das cidades", escreveu
De Zayas. "As sanções do século XXI tentam colocar
não apenas uma cidade, mas países soberanos de joelhos". O
relatório de De Zayas recomendou que o Tribunal Penal Internacional
investigasse as sanções dos EUA contra a Venezuela como um crime
contra a humanidade.
Um segundo relator especial da ONU, Idriss Jazairy, emitiu
contundente declaração
em resposta ao fracassado golpe apoiado pelos EUA na Venezuela em janeiro. Ele
condenou a "coação" vinda de poderes externos como uma
"violação de todas as normas do direito internacional".
"Sanções que podem levar à fome e à falta de
assistência médica não são a resposta à crise
económica e humanitária na Venezuela", disse Jazairy.
(
) "precipitar uma crise económica e humanitária
não é uma boa base para a solução pacífica
de disputas."
As sanções também violam o Artigo 19 da
Carta da Organização dos Estados Americanos que
, que proíbe explicitamente a intervenção "por
qualquer motivo, nos assuntos internos ou externos de qualquer outro
Estado". Acrescenta que "proíbe não apenas a
força armada, mas também qualquer outra forma de
interferência ou tentativa de ameaça contra personalidades do
Estado ou contra elementos políticos, económicos e culturais
".
O artigo 20 da Carta da OEA é igualmente pertinente: "Nenhum Estado
poderá usar ou encorajar o uso de medidas coercivas de caráter
económico ou político para forçar a vontade soberana de
outro Estado e obter dele vantagens de qualquer natureza".
Nos termos da lei dos EUA, as sanções de 2017 e 2019 contra a
Venezuela baseiam-se em declarações presidenciais infundadas de
que a situação na Venezuela criou uma dita "emergência
nacional" nos Estados Unidos. Se os tribunais federais dos EUA não
tivessem tanto medo de responsabilizar o poder executivo em questões de
política externa, isso poderia ser questionado e muito provavelmente
descartado por um tribunal federal de forma ainda mais rápida e
fácil do que o
caso de uma emergência nacional
na fronteira mexicana, que pelo menos está geograficamente ligado aos
Estados Unidos.
Ineficazes
Há mais uma razão crítica para poupar o povo do
Irão, Venezuela e outros países alvo dos impactos mortais e
ilegais das sanções económicas dos EUA: elas não
funcionam.
Há vinte anos, quando as sanções económicas
reduziram o PIB do Iraque em 48% em cinco anos e estudos sérios
documentaram seu custo humano genocida, eles mesmo assim não conseguiram
derrubar o governo de Saddam Hussein do poder. Dois Secretários-Gerais
Adjuntos da ONU, Denis Halliday e Hans Von Sponeck, renunciaram aos altos
cargos na ONU em protesto, em vez de apoiarem essas sanções
assassinas.
Em 1997, Robert Pape, então professor do Dartmouth College, tentou
resolver as questões mais básicas sobre o uso de
sanções económicas para alcançar mudanças
políticas noutros países, reunindo e analisando os dados
históricos de 115 casos em que isso foi feito entre 1914 e 1990. No seu
estudo, intitulado
Why Economic Sanctions Do Not Work
concluiu que as sanções só obtiveram sucesso em
cinco dos 115 casos.
Pape também colocou uma questão importante e provocadora:
"Se as sanções económicas raramente são
eficazes, por que é que os estados continuam a usa-las?"
Ele sugeriu três respostas possíveis:
-
"Os decisores que impõem sanções sistematicamente
sobrestimam as perspetivas de sucesso coercivo das sanções".
-
"Líderes que planeiam o uso da força como último
recurso, muitas vezes esperam que a imposição de
sanções aumente a credibilidade das ameaças militares
subsequentes".
-
"A imposição de sanções geralmente gera
maiores benefícios políticos para os líderes que a recusa
de impor sanções ou o recorrer à força".
Acreditamos que a resposta é provavelmente uma combinação
de "todas as alternativas acima". Mas acreditamos firmemente que
nenhuma combinação dessas ou de qualquer outra
justificação pode justificar o custo humano genocida das
sanções económicas no Iraque, Coreia do Norte,
Irão, Venezuela ou em qualquer outro lugar.
Enquanto o mundo condena os recentes ataques contra os petroleiros e tenta
identificar os culpados, a condenação global deve também
concentrar-se no país responsável pela guerra económica
mortal, ilegal e ineficaz no coração desta crise: os EUA.
[*]
Medea Benjamin: ativista política americana, mais conhecida
por ser co-fundadora do
Code Pink
juntamente com o ativista e autor Kevin
Danaher, o grupo de defesa do comércio justo Global Exchange
[**] Nicolas J.S. Davies: autor de
Blood On Our Hands: the American Invasion and Destruction of Iraq
. Também escreveu os textos de "Obama at war" em
"Grading the 44th President: a Report Card on Barack Obama's First Term as
a Progressive Leader."
O original encontra-se em
www.informationclearinghouse.info/51778.htm
e em
www.codepink.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.