O que a agonia do Império significa para o estado judeu de Israel
por The Saker
Primeiro, vamos começar por uns poucos tópicos recentes
(aparentemente não relacionados):
Estas notícias aparentemente não relacionadas têm todas uma
coisa em comum: ilustram quão fracas e ineficazes se tornaram as
forças armadas dos EUA ao longo das últimas duas décadas.
E apesar de, a bem de brevidade, eu ter escolhido apenas três exemplos, a
verdade é que há centenas de histórias semelhantes na
Internet, todas a apontarem para a mesma realidade:
a maior parte da instituição militar dos EUA está num
estado terminal de decadência.
Vamos examinar os vários serviços, um por um:
-
Toda a frota de superfície da
US Navy
está agora comprometida devido à sua estrutura centrada em
porta-aviões. À US Navy também faltam mísseis de
cruzeiro modernos. Classes inteiras de navios de superfície estão
agora superadas (fragatas) ou têm grandes falhas de
concepção (LCS).
-
A
US Air Force
opera sobretudo jactos da Guerra Fria, muitas vezes modernizados, mas de modo
geral é uma frota ultrapassada, especialmente quando comparada aos
aviões russos e chineses de 4ª++ e de 5ª
geração. De facto, o desastre absoluto do programa F-35 significa
que pela primeira vez na sua história os aviões dos EUA
serão qualitativamente batidos pelos seus prováveis
adversários. Mesmo os AWACS (Airborne Warning and Control System) dos
EUA e outros aviões de reconhecimento estão agora
ameaçados pelos mísseis
anti-aéreos de longo alcance russos e chineses (tanto os lançados
do solo como do ar).
-
Quanto ao
US Army
e ao
Marine Corps,
os desastres embaraçosos no Iraque, Afeganistão e alhures
provam que aos forças de terreno dos EUA são basicamente capazes
apenas de se protegerem a si próprios e mesmo assim não muito bem.
-
E há as
Forças Espaciais
dos EUA criadas recentemente, as quais existem só no papel, e a
Guarda Costeira
que é basicamente irrelevante numa grande guerra.
-
Finalmente, há o
Comando de Operações Especiais
dos EUA, o qual não é nenhum dos ramos mas apenas um comando
"funcional" e "combate unificado", mas que é
frequentemente pensado como um ramo separado das forças armadas. Estas
forças sempre parecem grandes na propaganda, mas a verdade é que
estas putativamente "as melhores do mundo" ainda têm de
alcançar o seu primeiro êxito real, significativo e operacional em
qualquer parte (pelo menos para equilibrar a sua longa história de
fracassos abjectos, desde o Desert One, a Granada, Afeganistão,
Líbia, etc). E em combates menores contra adversários muito
inferiores.
Agora vamos colocar a questão crucial:
o que significa isto para Israel?
Bem, em primeiro lugar significa que os "pobres" israelenses agora
têm de voar com o F-35 como o seu caça principal. Na maior parte
dos casos, acreditaria que os israelenses modificassem/melhorassem os seus F-35
para livrarem-se pelo menos das suas piores "características",
mas no caso dos F-35 isto nem sequer é teoricamente possível
devido aos seus profundos viéses de
concepção
(aqueles que precisarem de um recordatório "oficial" sobre a
realidade catastrófica do programa F-35, leiam por favor
este
relatório oficial do governo dos EUA que inclui 276 deficiências
"críticas". Mais cedo ou mais tarde, os F-35 israelenses
deparar-se-ão com a versão de exportação do SU-35,
com o muito mais barato mas de alto desempenho Mig-29M/Mig-35 ou mesmo com um
SU-57 russo e então eles serão irremediavelmente batidos (ainda
que o resultado de combate ar-ar não possa ser reduzido a comparar
aviões, é preciso um quadro completo e muito mais complexo para
modelar resultados possíveis). Actualmente, o Su-35 tem sido exportado
só para a China, mas futuros operadores potenciais incluem o Egipto,
Argélia e Turquia. Quanto ao Mig-29M/Mig-35, países como o Egipto
e a Séria manifestaram interesse.
Por falar na Síria, até agora vimos
vários casos de aviões israelenses interceptados e
forçados a retirarem-se por Su-35s russos
e nem um único caso oposto. Parece haver
pelo menos um caso
, embora não confirmado oficialmente (ainda) de um Su-35S russo
enxotando um USAF F-22 (desde que o Su-35 e o F-22 estejam em suficiente
proximidade, o último tem muito poucas esperanças de
sobrevivência).
Pode imaginar que outra coisa os israelenses vão fazer se eventualmente
se encontrarem nos céus do Médio Oriente? Possivelmente uma
variante de exportação do Mig-31 ou mesmo do Mig-32BM (com os
seus
mísseis R-37 ar-ar com alcance de 400 km
). De facto, o alcance, velocidade, radar e armas deste avião fariam
possível para a Rússia manter patrulhas de combate aéreo
sobre, digamos, a Síria operando ao mesmo tempo do sul da Rússia.
Concentro-me nestes aviões porque no passado, e tal como os EUA, os
israelenses sempre confiaram na prevalência da seguinte
combinação de factores:
-
Um ataque surpresa (mais ou menos justificado por uma bandeira falsa ou por
direito de posse)
-
A destruição dos aviões inimigos quando eles ainda
estão no solo
-
Superioridade aérea a proteger para aeronaves de asa rotativa e
blindagem avançada
Na verdade, os israelenses ainda têm uma grande força de
F-16/15/18 (14 esquadrões, mais de 300 aeronaves), mas tal como seus
homólogos dos EUA eles estão rapidamente a tornar-se datados. Em
agudo contraste com a datada Força Aérea Israelense, os vizinhos
de Israel estão todos a adquirir sistemas de defesa aérea cada
vez mais avançados juntamente com sistemas de guerra electrónica
e de gestão de batalha. Por outras palavras, isto é um tempo
muito mau para Israel responder com F-35 no futuro previsível.
Exactamente agora, os israelenses estão a bombardear a Síria
regularmente, mas com muito pouco resultado além da lenga-lenga, sem
dúvida terapêuticas, das proclamações da
superioridade judaica sobre os árabes. E, previsivelmente, os sujeitos
que observam os media sionistas ficam muito impressionados. Os sírios,
os iranianos e o Hesbollah, nem tanto...
Assim como o Complexo Industrial-Militar dos EUA coloca todos os seus ovos no
cesto do F-35, da mesma forma os israelenses colocam todos os ovos da
segurança nacional na eterna disposição e capacidade do
Tio Shmuel para vir e resgatá-los com dinheiro, armas ou mesmo soldados.
A disposição ainda existe.
Mas a capacidade está rapidamente a desaparecer!
Além disso, há mais dois países que estão a entrar
num período de grave instabilidade, que também afectará a
segurança de Israel: Turquia e Arábia Saudita.
No caso da Turquia, o relacionamento entre os EUA e a Turquia está mais
em baixo do que nunca e há uma possibilidade muito real de que, com as
sanções e ameaças dos EUA, os turcos possam decidir
desistir do F-35 e recorrer a um avião russo, muito provavelmente uma
versão de exportação do Su-35. Se bem que isto fosse
má notícia (politicamente) para o complexo industrial-militar
americano, seria uma notícia absolutamente terrível para os
israelenses cujo relacionamento com a Turquia é geralmente bastante mau.
Até agora, a Turquia ainda é um membro obediente da NATO, com
tudo o que isso implica, mas quanto mais fraco se torna o Império
Anglo-sionista, maiores serão as possibilidades de algum tipo de choque
político entre os EUA e a NATO, por um lado, e a Turquia, por outro.
Quanto aos sauditas, eles já estão activamente a cortejar Moscovo
porque perceberam que a Rússia basicamente substituiu os EUA como a
potência regional número um. O fracasso total dos EUA em
providenciar assistência significativa aos sauditas no Iémen e a
incapacidade das defesas aéreas dos EUA em proteger o campo
petrolífero saudita Houthi de ataques de mísseis convenceram os
sauditas de que, a partir de agora, eles precisam falar com os russos
directamente e frequentemente.
Fonte: IISS Military Balance 2020
É verdade que os EUA ainda têm a
aparência
de poder real no Médio Oriente. Basta dar uma olhada nesta
página do último IISS Military Balance. Ainda há muito
equipamento e pessoal da CENTCOM na região. Mas tente olhar para
além destes gráficos bonitos e perguntar-se: o que é que
estas forças estão a fazer?
O que é que estão realmente a conseguir?
Eu diria que
a maior parte do que eles fazem é tentar impressionar os locais, ganhar
dinheiro (através de todo o tipo de contratos militares) e, por
último, mas não menos importante, tentarem proteger-se.
E, sim, a "pegada" dos EUA no Médio Oriente ainda é
grande, mas isso é também o que torna as forças dos EUA
tão vulneráveis a ataques. Os iranianos, por exemplo, deixaram
claro que encaram todas estas instalações e forças como
"alvos", os quais, após os ataques de mísseis iranianos
de alta precisão que se seguiram ao assassinato do general Suleimani,
significa que o Irão agora tem os meios para infligir grandes danos a
qualquer força regional suficientemente louca para se meter com o
Irão.
Naturalmente, todas as vezes que alguém escreve que os EUA ou Israel
não são invencíveis, há sempre pelo menos uma
pessoa que diz algo como "sim, talvez, mas eles têm ogivas nucleares
e irão usá-las se forem ameaçados". A isto a minha
resposta é diferente para o caso dos EUA e para o caso de Israel.
No caso dos EUA, apesar de qualquer primeira utilização de ogivas
resultará num suicídio político para o Império,
nenhum adversário dos EUA no Médio Oriente tem a capacidade de
retaliar do mesmo modo.
Contudo, no caso de Israel as coisas são mesmo muito mais graves.
Primeiro, é preciso recordar que por óbvias razões
geográficas, os israelenses não podem utilizar ogivas nucleares
contra forças atacantes, pelo menos contra quais forças
próximas da fronteira israelense. Ainda assim, se gravemente
ameaçado, os israelenses poderiam afirmar que outro
"holocausto" estaria prestes a acontecer e que a "defesa do
sangue judeu" não lhes deixa outra opção senão
utilizar ogivas contra, digamos, alvos iranianos ou sírios. Eu diria que
quanto pior o dano infligido por quaisquer ataques nucleares israelenses, maior
será a resolução dos árabes e/ou iranianos.
Este é o problema com a dissuasão: uma vez fracassada,
está fracassada totalmente e habitualmente não há um
"plano B".
Significará isto que um grande ataque a Israel é
inevitável?
Não, de modo algum. Para começar, tanto os EUA como Israel ainda
podem infligir danos imensos contra qualquer país, ou
coligação de países, o que os ameaçaria (e
não precisam de recorrer a ogivas nucleares para o conseguir). O facto
de nem os EUA nem Israel poderem alcançar qualquer coisa que se
assemelhe a uma "vitória" de modo algum implica que atacar os
EUA ou Israel seja fácil ou seguro. Ambos os países têm
muito poder militar convencional para extrair um preço enorme a qualquer
atacante.
Em segundo lugar, é precisamente porque os EUA e Israel ainda têm
muito poder militar que os seus adversários preferirão um
enfraquecimento gradual e lento dos anglo-sionistas ao invés de uma
confrontação aberta. Por exemplo, se é verdade que os EUA
não tiveram estômago para atacar o Irão após o
ataque de mísseis retaliatórios iranianos, também é
verdade que os iranianos "afinaram" cuidadosamente a sua resposta
para não forçar os EUA a contra-atacar. A verdade é que
neste momento nenhum dos dois países quer uma guerra aberta.
O mesmo se pode dizer da Síria e do Hezbollah, que têm tido muito
cuidado para não fazer nada que forçasse os israelenses (ou os
EUA) a escalar dos actuais ataques simbólicos/alfinetadas para ataques
reais, significativos, com ataques aéreos e de mísseis.
Neste momento, os EUA ainda podem imprimir dólares suficientes para
manter Israel a flutuar, mas já sabemos que embora lançar
dinheiro barato a um problema frequentemente seja muito tentador, isto
não constitui uma estratégia sustentável, especialmente
quando as capacidades militares reais tanto dos EUA como dos israelenses
estão a degradar-se rapidamente. Neste momento, ninguém sabe
quanto tempo mais durará o último regime abertamente racista do
planeta, mas é extremamente improvável que a entidade sionista
seja capaz de sobreviver sem o Império para sustentá-la. Por
outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o "Estado judeu de Israel"
não terá melhores hipóteses de sobrevivência do que,
digamos, o "Estado Independente do Kosovo" ou, já agora, a
"Ucrânia Independente": todas elas são feias
metástases do Império que, por si mesmas, simplesmente não
são viáveis.
12/Maio/2020
O original encontra-se em
thesaker.is/what-does-the-empires-agony-mean-for-the-jewish-state-of-israel/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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