"N", a palavra impronunciável
Recuperar as companhias de petróleo!
Nacionalizar a indústria petrolífera deveria ser a doutrina de
qualquer movimento político progressista. A evidência do
envolvimento da indústria na invasão do Iraque, assim como sua
óbvia cumplicidade na corrupção do sistema político
deveria proporcionar a prova exaustiva de que os gigantes do petróleo
são um perigo claro e presente para a democracia e precisam ser
colocados sob o controle do estado.
Numa era de escassez de petróleo não podemos mais nos dar ao luxo
de permitir que um punhado de plutocratas corporativos decidam o destino da
economia global. Os capitães da indústria deliberadamente
fecharam refinarias para reduzir a produção e aumentar os seus
lucros. Eles despejaram enormes cargas de dinheiro dentro do sistema
político para assegurar que o congresso e o executivo cumpram suas
directivas. Actualmente, não há nem uma polegada de luz entre a
sala da administração da Exxon e o número 1600 da Av.
Pennsylvania. Eles operam a partir exactamente do mesmo roteiro.
A indústria do petróleo é a beneficiária
primária da guerra de Bush no Iraque. Os executivos da indústria
tinham um lugar à mesa quando Dick Cheney cinzelou os campos de
petróleo do Iraque para distribuição futura entre as
elites corporativas da América. Requerimentos ao abrigo do Freedom of
Information proporcionaram "documentos editados do Cheney Energy Policy
group. Um destes era um mapa mostrando áreas de concessão
(lease areas)
onde estava planeada perfuração de petróleo (no Iraque).
Um outro consistia numa lista de 40 companhias petrolíferas de 30
países que precisavam permitir permissão para furar no Iraque de
Saddam Hussein. O problema para os EUA e a Grã-Bretanha era que as suas
companhias de petróleo estavam ausentes desta lista dos que podiam obter
concessões. Os EUA e o Reino Unidos ficariam então
excluídos daquilo que era claramente um dos maiores prémios
materiais da história mundial" ("The CFR Debates"
Lawerence Shoup; Z Magazine March 2006)
Isto explica porque a indústria apoiou um petroleiro espalhafatoso do
Texas que não demonstrava interesse pela política nem
aptidão para a liderança. Bush tornou-se o cavalo de
Tróia para executar uma agenda que substituiria as reservas sauditas em
diminuição pelas segundas maiores reservas do mundo, e ao mesmo
tempo, convenientemente, removeria a França e a Rússia da lista
dos competidores.
Mais de 2400 soldados e 100 mil iraquianos sacrificaram suas vidas no altar da
especulação
corporativa. Bush espalhou sua guerra da energia através da
Ásia Central e do Médio Orientou, aumentando em quatro vezes os
incidentes de
terrorismo . A classe média americana está a ser
esmagada pelos preços em ascensão da gasolina e pelas
malfeitorias do governo enquanto prósperos magnatas do petróleo
depositam nos bancos os maiores lucros da história.
Não será tempo de repensarmos o sistema económico?
Qualquer um que tenha observado os mercados de futuros sabe que o actual
sistema está condenado. Hoje em dia, qualquer guerrilheiro insatisfeito
pode, com uma Kalashnikov, tomar um oleoduto e remeter os preços do
petróleo para o céu. Bush apenas agravou este problema com a
preparação de combate em relação ao Irão.
Sua retórica provocou uma erosão da confiança no mercado e
pôs os preços nas estações de serviço em
ascensão. E isto é apenas o princípio.
A administração está determinada a levar a guerra a todo o
lugar onde possa ser obtido petróleo, incitando uma resistência
global que poderia persistir ao longo do século. Isto parece ser a
guerra que Bush e Cheney ambicionam, embora seus objectivos sejam habilmente
escondidos por trás da fachada da guerra ao terror.
Como pode o mercado sobreviver a este tipo de volatilidade, especialmente
quando o Tio Sam está a criar milhares de novos terroristas com toda
invasão equivocada?
O novo relatório do Departamento de Estado confirma que a
resistência à política externa da América
está a aumentar a violência exponencialmente. O neoliberalismo
"esmaga e captura" de Bush está a transformar o mundo numa
zona de fogo-livre colocando vidas e recursos vitais em risco.
O sistema está irremediavelmente quebrado e precisa
"democratizar-se" de modo a que a energia possa ser
distribuída mais igualitariamente de acordo com a necessidades
básicas de cada um.
Se todos precisam ter acesso à energia para manter um padrão de
vida mínimo, então deveríamos reconhecer o petróleo
como um direito humano básico tal como a água e a
alimentação. Deveria haver organismos regulamentadores para
assegurar que a distribuição fosse equitativa e não
concedida arbitrariamente aos lances mais elevados. Não há
nenhum modo de o sistema actual poder fazer este ajustamento quando a
disponibilidade de energia barata está rapidamente a desaparecer.
Estamos a enfrentar um futuro de abastecimentos declinantes e procuras
crescentes. Podemos tanto cooperar a um nível nacional e internacional,
criando as instituições apropriadas para uma
distribuição justa, ou continuar com o "modelo Bush" de
intervenção militar e confusão implacável.
A crença em que a "mão invisível" do mercado
irá guiar-nos seguramente para a outra margem não tem sentido.
Não existe "mercado livre" no negócio do
petróleo; isto é um mito completo. A extracção de
petróleo no Iraque é conduzida a ponta de armas, a forma final de
coerção. Cada barril que deixa o país foi roubado por
meio da força militar.
Será esta nossa visão do futuro ou será possível a
cooperação?
A principal fonte de energia do mundo não deveria ser confiada a
oligarcas corporativos cujo único interesse é se encherem de
dinheiro. Os recursos do mundo não são a província
única do "lance mais alto".
Precisamos de uma abordagem inteiramente nova para a política da
energia; uma visão que previna abastecimentos minguantes,
conservação, e a ameaça da mudança
climática. O caminho pela frente não tem de estar coberto com os
cadáveres dos que combatem para defender seus países da
exploração. Há um outro caminho.
É possível para os povos e as nações trabalharem em
conjunto pelo bem comum. E, afinal de contas, precisamos apenas olhar para o
Iraque, Afeganistão e Nigéria para ver a lúgubre
alternativa.
01/Maio/2006
[*]
O autor reside no estado de Washington, EUA. Seu email é
fergiewhitney@msn.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney05012006.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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