De volta à escola

por Jim Kunstler

Food Line Sculpture, 1929 US Depression, FDR Memorial. Clique para ampliar. Os maus documentos financeiros, tal como a ferrugem, nunca dormem.

Podemos estar na tradicional zona do torpor do último Verão, quando todo o país vai em férias, mas os vermes ainda estão ali transformando em composto resmas do alfabeto da dívida titulada (MBSs, CDOs, CLOs, etc) por trás do vidro dos arranha-céus bancários em lugares como Wall Street, Londres, Frankfurt e Shangai, e o cheiro de todo este lixo a espalhar-se por todo o mundo fica mais forte a cada dia que passa.

As transfusões de empréstimos-para-cobrir-perdas feitas pelo Federal Reserve permitiram aos The Big Fund Boyz (BFBs) que passassem um último fim de semana ou dois a esfregarem cotovelos no Hamptons com seres transcendentais como Diddy e Kelly Ripa [1] . Os Boyz reúnem-se nas dunas ao crepúsculo, com bongos na mão, para contemplar a Ilha dos Hedge Funds, a assomar no mar distante na neblina cinzenta do Atlântico, e eles percebem algo alarmante: a ilha, que os BFBs construíram para si próprios ao longo dos últimos dez anos, parece estar ou a flutuar no mar ou talvez apenas a afundar!

Os maços de milhares de milhões de dólares e euros que os bancos centrais despejaram recentemente dentro das goelas das perdas serão apenas papel sobre o problema essencial durante, no máximo, mais umas poucas semanas. O dano às finanças globais estruturadas foi feito, e ele pode ser declarado de forma muito precisa: um reconhecimento generalizado de que não é possível obter alguma coisa por nada, afinal de contas. E que quando você possui um bocado de papel que foi obtido em troca de nada, e o coloca à venda, nada será oferecido por ele. Oh, que supresa.

A tarefa das pessoas que têm poder no sector financeiro (o que em si mesmo pode ser uma mera presunção) é administrar a rápida dissolução da riqueza alucinada de um modo tal que tão poucas pessoas quanto possível percebam que x-triliões em pixels denominados em dólares desvaneceram-se dos discos duros. Mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma, milhões de toscos (shlubs) dependentes de cheques de pensão, ou anuidades, ou pagamentos mensais de qualquer espécie, perceberão que alguma coisa parou de aterrar na sua caixa de correio. Os homens da retomada de bens, com cabelos mal aparados e tatuagens, estarão a conduzir os carros de outras pessoas para o local do leilão. Jovens habituados a estimulantes dias de pagamento descobrirão que os seus serviços não são mais necessários no negócio das hipotecas, e ao invés disso terão de memorizar dúzias de fórmulas excruciantes para diferentes espécies de bebidas mais ou menos baseadas no café. Milhões de correctores de imóveis entrarão na sua segunda infância quando tiverem de mudar outra vez para a casa do Papá e da Mamã, os quais por sua vez deverão mudar os seus planos, pois não é mais possível mudar daquela casa-rancho em Hempstead para comprar aquele condomínio de meio milhão em Maui.

A realidade é perspicaz. Tal como a pequena marmota capturada nas mandíbulas mortíferas do Lobo Cinzento, o corpo simplesmente rende-se e a graça de Deus do choque físico amortece a translação da alegre criatura com vontade de viver em carne morta. É onde estamos nós agora nos últimos dias de Agosto de 2007. Segue-se a digestão. Os Big Fund Boyz e todos os seus apaniguados acabarão como mero material de vermes nas resmas de composto global acima mencionadas.

Terríveis choques estão em vias de dilacerar o tecido sócio-económico dos EUA quando virarmos a esquina depois deste último Verão de estagnação. O fiasco do mau endividamento não será contido. As escolhas para aqueles que se encontram financeiramente abaixo da linha de água no fim de 2007 serão: 1) liquidação; 2) bancarrota; ou 3) destruir o que resta da confiança no US dólar a fim de apagar dívidas através da hiper-inflação. As pessoas que detêm o poder não gostam das duas primeiras, as quais traduzem-se por Depressão (vamos torná-la na maiúscula "D"). Quando um país se transforma numa liquidação final (fire sale), e os cidadãos em bancarrota nem mesmo têm suficiente dinheiro na mão para comprar coisas desesperadamente baratas — bem, isto é uma Depressão. Toda a gente, desde responsáveis do Fed até editores de noticiários, durante o último meio século costumava preferir a expressão mais suave de "recessão" pois implica uma simples pausa na marcha inexorável do progresso rumo ao nirvana económico. Não é nessa direcção que estamos a ir.

Haverá tanto activos à venda por todos os EUA nos meses e anos pela frente que o próprio sol nos céus tomará um brilho especial como o azul K-Mart. Casas com quilómetros de balcões de granito. Automóveis clássicos, cruzadores com cabines que queimam trinta galões [114 litros] de gasóleo por hora, e muito mais. Haverá tanto material ligeiramente usado (ou muito pouco "pré-possuído") à venda que fabricar uma outra unidade de qualquer coisa (ou importá-la) parecerá uma brincadeira de mau gosto. Ai de nós, pode haver muito poucos compradores, pelo menos entre os nativos actuais da América do Norte. E assim obtemos "novos níveis de preços" e uma espiral mortífera para baixo.

Naturalmente, tudo isso cria um problema para as massas de seres humanos que teoricamente sustentam-se através do trabalho na produção de novas coisas de valor a serem compradas e vendidas. Mas vamos assistir ao Nascar! [2] Vamos tomar o pouco que sobrar dos nossos rendimentos após o fisco (ou da capacidade de juntá-los) e construir mais uma dúzia de auto-estradas pelo país, e transformar os motores das frotas de carros para aqueles que podem consumir etanol, e além disso vamos despejar sobre os apreciadores da Little Debbie [3] biscoitos snack para que lambam os beiços. E vamos trazer a Britney Spears ou a Paris Hilton a meio tempo (será que eles têm meio tempo no Nascar?) e deixar que Justin Timberlake [4] corte os seus cabelos dentro de um Dodge Avenger [5] . Acredite-me, o público ficará tão delirantemente hipnotizado pelo espectáculo que não perceberá seja o que for que esteja acontecer nos bastidores do nosso país.

É assim que a América entra na Longa Emergência [6] — num êxtase do Nascar, com Jesus a dirigir o pior possível a tripulação e o Fantasma Sagrado a trabalhar o churrasco da concessão.

Peço desculpas àqueles que durante esta semana receberam uma excessiva verborreia de metáforas mistas, mas a extrema anormalidade dos acontecimentos simplesmente levou-me a isso. O ponto principal, contudo, é simples e linear: as coisas podem parecer normais por enquanto, mas estamos a dirigir-nos para uma tempestade infernal tão certa como quando os descendentes de Sam Walton [7] contratados para comprar cadernos de folhas móveis espalharam-se por todo o país. América, estás prestes a voltar à escola pelo caminho difícil.

27/Agosto/2007

Notas
[1] Actrizes.
[2] NASCAR: Associação nacional que promove corridas de carros.
[3] Fabricante de rebuçados.
[4] Cantor.
[5] Modelo de automóvel.
[6] Referência ao título do seu livro, A longa emergência . O capítulo 4 do mesmo encontra-se aqui .
[7] Fundador da cadeia de lojas Wal Mart, que sempre proibiu a sindicalização dos seus empregados.


O original encontra-se em http://jameshowardkunstler.typepad.com/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
31/Ago/07