De volta à escola
por Jim Kunstler
Os maus documentos financeiros, tal como a ferrugem, nunca dormem.
Podemos estar na tradicional zona do torpor do último Verão,
quando todo o país vai em férias, mas os vermes ainda
estão ali transformando em composto resmas do alfabeto da dívida
titulada (MBSs, CDOs, CLOs, etc) por trás do vidro dos
arranha-céus bancários em lugares como Wall Street, Londres,
Frankfurt e Shangai, e o cheiro de todo este lixo a espalhar-se por todo o
mundo fica mais forte a cada dia que passa.
As transfusões de empréstimos-para-cobrir-perdas feitas pelo
Federal Reserve permitiram aos The Big Fund Boyz (BFBs) que passassem um
último fim de semana ou dois a esfregarem cotovelos no Hamptons com
seres transcendentais como Diddy e Kelly Ripa
[1]
. Os Boyz reúnem-se nas dunas ao crepúsculo, com bongos na
mão, para contemplar a Ilha dos Hedge Funds, a assomar no mar distante
na neblina cinzenta do Atlântico, e eles percebem algo alarmante: a
ilha, que os BFBs construíram para si próprios ao longo dos
últimos dez anos, parece estar ou a flutuar no mar ou talvez apenas a
afundar!
Os maços de milhares de milhões de dólares e euros que os
bancos centrais despejaram recentemente dentro das goelas das perdas
serão apenas papel sobre o problema essencial durante, no máximo,
mais umas poucas semanas. O dano às finanças globais
estruturadas foi feito, e ele pode ser declarado de forma muito precisa: um
reconhecimento generalizado de que não é possível obter
alguma coisa por nada, afinal de contas. E que quando você possui um
bocado de papel que foi obtido em troca de nada, e o coloca à venda,
nada será oferecido por ele. Oh, que supresa.
A tarefa das pessoas que têm poder no sector financeiro (o que em si
mesmo pode ser uma mera presunção) é administrar a
rápida dissolução da riqueza alucinada de um modo tal que
tão poucas pessoas quanto possível percebam que x-triliões
em pixels denominados em dólares desvaneceram-se dos discos duros. Mais
cedo ou mais tarde, de qualquer forma, milhões de toscos (shlubs)
dependentes de cheques de pensão, ou anuidades, ou pagamentos mensais de
qualquer espécie, perceberão que alguma coisa parou de aterrar na
sua caixa de correio. Os homens da retomada de bens, com cabelos mal aparados
e tatuagens, estarão a conduzir os carros de outras pessoas para o local
do leilão. Jovens habituados a estimulantes dias de pagamento
descobrirão que os seus serviços não são mais
necessários no negócio das hipotecas, e ao invés disso
terão de memorizar dúzias de fórmulas excruciantes para
diferentes espécies de bebidas mais ou menos baseadas no café.
Milhões de correctores de imóveis entrarão na sua segunda
infância quando tiverem de mudar outra vez para a casa do Papá e
da Mamã, os quais por sua vez deverão mudar os seus planos, pois
não é mais possível mudar daquela casa-rancho em Hempstead
para comprar aquele condomínio de meio milhão em Maui.
A realidade é perspicaz. Tal como a pequena marmota capturada nas
mandíbulas mortíferas do Lobo Cinzento, o corpo simplesmente
rende-se e a graça de Deus do choque físico amortece a
translação da alegre criatura com vontade de viver em carne
morta. É onde estamos nós agora nos últimos dias de
Agosto de 2007. Segue-se a digestão. Os Big Fund Boyz e todos os seus
apaniguados acabarão como mero material de vermes nas resmas de composto
global acima mencionadas.
Terríveis choques estão em vias de dilacerar o tecido
sócio-económico dos EUA quando virarmos a esquina depois deste
último Verão de estagnação. O fiasco do mau
endividamento não será contido. As escolhas para aqueles que se
encontram financeiramente abaixo da linha de água no fim de 2007
serão: 1) liquidação; 2) bancarrota; ou 3) destruir o
que resta da confiança no US dólar a fim de apagar dívidas
através da hiper-inflação. As pessoas que detêm o
poder não gostam das duas primeiras, as quais traduzem-se por
Depressão (vamos torná-la na maiúscula "D").
Quando um país se transforma numa liquidação final
(fire sale),
e os cidadãos em bancarrota nem mesmo têm suficiente dinheiro na
mão para comprar coisas desesperadamente baratas bem, isto
é uma Depressão. Toda a gente, desde responsáveis do Fed
até editores de noticiários, durante o último meio
século costumava preferir a expressão mais suave de
"recessão" pois implica uma simples pausa na marcha
inexorável do progresso rumo ao nirvana económico. Não
é nessa direcção que estamos a ir.
Haverá tanto activos à venda por todos os EUA nos meses e anos
pela frente que o próprio sol nos céus tomará um brilho
especial como o azul K-Mart. Casas com quilómetros de balcões de
granito. Automóveis clássicos, cruzadores com cabines que
queimam trinta galões [114 litros] de gasóleo por hora, e muito
mais. Haverá tanto material ligeiramente usado (ou muito pouco
"pré-possuído") à venda que fabricar uma outra
unidade de qualquer coisa (ou importá-la) parecerá uma
brincadeira de mau gosto. Ai de nós, pode haver muito poucos
compradores, pelo menos entre os nativos actuais da América do Norte. E
assim obtemos "novos níveis de preços" e uma espiral
mortífera para baixo.
Naturalmente, tudo isso cria um problema para as massas de seres humanos que
teoricamente sustentam-se através do trabalho na produção
de novas coisas de valor a serem compradas e vendidas. Mas vamos assistir ao
Nascar!
[2]
Vamos tomar o pouco que sobrar dos nossos rendimentos após o fisco (ou
da capacidade de juntá-los) e construir mais uma dúzia de
auto-estradas pelo país, e transformar os motores das frotas de carros
para aqueles que podem consumir etanol, e além disso vamos despejar
sobre os apreciadores da Little Debbie
[3]
biscoitos snack para que lambam os beiços. E vamos trazer a Britney
Spears ou a Paris Hilton a meio tempo (será que eles têm meio
tempo no Nascar?) e deixar que Justin Timberlake
[4]
corte os seus cabelos dentro de um Dodge Avenger
[5]
. Acredite-me, o público ficará tão delirantemente
hipnotizado pelo espectáculo que não perceberá seja o que
for que esteja acontecer nos bastidores do nosso país.
É assim que a América entra na Longa Emergência
[6]
num êxtase do Nascar, com Jesus a dirigir o pior possível
a tripulação e o Fantasma Sagrado a trabalhar o churrasco da
concessão.
Peço desculpas àqueles que durante esta semana receberam uma excessiva
verborreia de metáforas mistas, mas a extrema anormalidade dos
acontecimentos simplesmente levou-me a isso. O ponto principal, contudo,
é simples e linear: as coisas podem parecer normais por enquanto, mas
estamos a dirigir-nos para uma tempestade infernal tão certa como quando
os descendentes de Sam Walton
[7]
contratados para comprar cadernos de folhas móveis
espalharam-se por todo o país. América, estás prestes a
voltar à escola pelo caminho difícil.
27/Agosto/2007
Notas
[1] Actrizes.
[2] NASCAR: Associação nacional que promove corridas de carros.
[3] Fabricante de rebuçados.
[4] Cantor.
[5] Modelo de automóvel.
[6] Referência ao título do seu livro,
A longa emergência
.
O capítulo 4 do mesmo encontra-se
aqui
.
[7] Fundador da cadeia de lojas Wal Mart, que sempre proibiu a
sindicalização dos seus empregados.
O original encontra-se em
http://jameshowardkunstler.typepad.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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