Entrevistas com veteranos do Iraque
Qual o estado de espírito entre os militares americanos?

por John Catalinotto [*]

Autocarro do IVAW que circulou junto a bases militares nos EUA. Depois de mais de quatro anos de ocupação fracassada do Iraque e de um regime estado-unidense que se recusa a abandoná-lo, há duas questões que se tornaram vitais: Qual é a força da resistência iraquiana? Qual é o estado de espírito entre os soldados rasos dos EUA? Este artigo analisa apenas esta última questão.

Os registos do Exército mostram que, numa tropa de meio de milhão de homens, houve 3.196 deserções em 2006 — um aumento considerável em relação aos 2.543 desertores de 2005.

Em 19 de Agosto o New York Times publicou uma declaração na qual sete soldados alistados na 82ª Divisão Aerotransportada estacionada no Iraque ousaram desafiar toda a cadeia de comando com a sugestão de que a melhor coisa que os EUA podiam fazer era cair fora.

O recrutamento caminha para baixo entre os afro-americanos e é contestado em todo o Porto Rico. Os militares estão a conseguir recrutas de uma base cada vez mais estreita – pequenas cidades dos EUA e imigrantes desesperados por um caminho mais rápido para a obtenção do status legal. As tropas do Exército, Marinha e Guarda Nacional são enviadas para múltiplas e cada vez mais longas estadias no Iraque e no Afeganistão.

Enquanto isso, organizadores do movimento anti-guerra dos soldados (GIs) reuniram-se em St. Louis de 15 a 19 de Agosto nas convenções dos Veterans for Peace e dos Iraq Veterans Against the War (IVAW). Durante a convenção do IVAW foi eleita uma nova direcção e esta seleccionou por consenso um dos primeiros resistentes à guerra, o antigo sargento Camilo Mejia, como seu novo presidente eleito.

A fim de investigar estes desenvolvimentos, entre 25 de Agosto e 1 de Setembro Workers World efectuou entrevistas individuais pelo telefone com quatro membros da direcção do IVAW e outros organizadores. O que se segue resume estas conversações:

Workers World: O que a convenção conseguiu para o IVAW?

Mejia: Cada vez que o IVAW realiza uma conferência ou convenção a organização torna-se mais forte. Reunimo-nos e interagimos para um objectivo. Neste caso efectuámos eleições. Também conversámos acerca da estratégia. Nós nos concentraremos numa campanha de luta – a que chamamos "verdade no recrutamento" – que se focalizará nos jovens que estão a considerar aderir às forças militares. Também queremos fazer algo como a audição Winter Soldier feita durante a Guerra do Vietnam [onde veteranos testemunharam acerca das suas experiências], com veteranos do Iraque e do Afeganistão.

Margaret Stevens de Newark, N.J., veterana da Guarda Nacional (1997-2004), nova tesoureira do IVAW: Tem significado político que Mejia seja popular na organização e respeitado como um resistente à guerra. Isto diz muito acerca do que as pessoas pensam ser o caminho correcto para enfrentar o problema. Camilo afirmou há três anos atrás: "Eu não quero participar. É uma guerra má e eu não quero colaborar". Foi um posição muito corajosa. Ele ganhou as suas chicotadas.

Mejia: Agora existem 575 membros do IVAW, o dobro do número que existia na última convenção. Pelo menos 10 novos membros estão a aderir por mês.

WW: Alguns dos relatos do media dizem que o IVAW alterou a sua posição e agora apoia aqueles que se recusam a servir no Iraque. Isso é assim?

Mejia: O IVAW apoiará a resistência entre os militares. Isto não significa que estejamos a encorajar resistência, mas se soldados dizem que têm objecções a participar no plano da consciência, nós os apoiaremos.

Ex-marinheiro Liam Madden, organizador do IVAW em Boston, co-fundados do "Apelo para a correcção" ("Appeal for Redress"): Nós sempre apoiámos resistentes à guerra e temos educado soldados e membros dos serviços quanto aos seus direitos. O IVAW quer que os soldados e membros dos serviços tomem decisões fundamentadas. Estamos já em vias de avançar para a organização dos que estão no serviço activo.

O papel do IVAW é lançar luz quanto às implicações políticas da guerra e o que ela significa para os que a combatem. Nós explicamos porque os EUA estão ali no Iraque. Com efeito, estamos a dar às tropas no serviço activo as ferramentas de que precisam para resistir, mas no fim a decisão cabe ao soldado.

WW: Qual é o estado de espírito agora entre as tropas no serviço activo?

Paul Foley, organizador civil no café Different Drummer, em Watertown, N.Y., próximo a Fort Drum, base da 10ª Divisão de Montanha, a qual tem enviado suas brigadas múltiplas vezes para o Iraque e o Afeganistão:

Agora há uma filial (chapter) do IVAW em Ft. Drum. Em 23 de Agosto reunimo-nos no Different Drummer. Ambos os oradores, Eli Israel [que se recusou aos deveres enquanto estava no Iraque, recentemente – WW] e Camilo Mejia, falaram bem e tinham uma mensagem poderosa.

Phil Aliff, da direcção do IVAW, em Fort Drum. No Exército há três anos atrás, se bem que muitos dos soldados rasos fossem cépticos quanto à guerra no Iraque, eles continuavam a cumprir com a sua missão. Agora, após a "ascensão" ("surge") e a deterioração cada vez maior da situação no Iraque, um número maior está a resistir, especialmente em Ft. Drum.

Madden: Mais de um ano atrás um inquérito dizia que 70 por cento queria que os EUA começassem a retirar do Iraque dentro de um ano. Agora aquele ano está ultrapassado. Isto é agravado pela duração mais longa das estadias, a falta de um intervalo real entre as estadias, o tempo operacional acelerado. As tropas estão envolvidas num conflito onde verificam que pouco progresso é efectuado. E eles vêem uma aguda contradição entre a razão que lhes dizem de a tropa estar ali e o que é a reacção dos iraquianos.

Foley: Muitos dos membros do IVAW estão na Primeira Brigada, a qual está a embarcar para o Iraque uma segunda vez. A Terceira Brigada acaba voltar este Verão do Afeganistão. A Segunda Brigada deve voltar a Ft. Drum em Novembro, após uma extensa estadia no Iraque a fazer buscas casa por casa. Agora há mais brigas na cidade de soldados que entram em perturbação porque estão realmente inquietos. Eles atravessaram um mau bocado.

Aliff: O número de tropas ausentes sem licença (absent without leave, AWOL) e de desertores está a aumentar. Há mais utilização de droga, pessoal a escapar. Eles querem deixar a instituição militar e estão a descobrir muitos meios para isso. A maioria não quer voltar ao Iraque. Isto está a significar um preço alto demais na cadeia de comando – as altas patentes descobrem que têm posicionar pessoas que normalmente estariam desengajadas. Por outro lado, há um ressentimento crescente em relação às altas patentes.

Sinto que estamos à beira de um êxodo em massa. As pessoas estão a deixar as suas bases ou a deixar o Exército porque não querem voltar ao Iraque e fazer parte da ocupação. Estamos à beira de alguma coisa significativa porque após quatro anos e meio a guerra está a tornar-se extremamente má.

WW: Será que o IVAW também confrontará os recrutadores?

Stevens: O IVAW terá uma abordagem de três pontas: verdade no recrutamento; mobilização de soldados no serviço activo; defesa dos resistentes à guerra.

Madden: A campanha "verdade no recrutamento" do IVAW é concebida para proporcionar uma ligação forte às comunidades que são vulneráveis ao recrutamento dos militares. Ao fazer isso nós não dizemos às pessoas o que fazer — os adolescentes já têm bastantes pessoas a lhes dizerem o que fazer — mas nós as ajudaremos da tomar uma decisão informada.

Mejia: Proporcionaremos informação acerca do que é realmente a vida entre os militares. Não diremos as pessoas para aderir. Mas sabemos que há recrutadores a contarem às pessoas acerca de benefícios e salários. Isto pode ser verdadeiro ou falso, mas representa apenas uma pequena parte do quadro.

Vamos contar-lhe acerca da guerra, acerca do Post Traumatic Stress Disorder, acerca das ordens que podem estender o seu contrato. Contar-lhes-emos o que é estar em combate. Isto é uma informação desagradável, mas isto constitui parte importante da experiência militar. Nós lhe dizemos: se aderir aos militares deveria tomar uma decisão informada.

Madden: Adam Kokesh [que é co-presidente da direcção – WW] está a organizar um Dia Nacional da Verdade no Recrutamento (National Truth-in-Recruiting Day) em 17 de Setembro.

WW: Será que a convenção alterou a orientação política do IVAW?

Madden: O que a convenção fez foi mostrar que os membros do IVAW estavam mais ou menos em sintonia.

Stevens: A declaração política que Mejia fez na convenção foi o que precisávamos para encarar a raiz do problema – não apenas a guerra, mas o sistema capitalista. As pessoas responderam positivamente a isto.

A minha própria posição é que movimento estará limitado se disser apenas: "Tirem as tropas do Iraque". O movimento dos soldados também deveria ser um movimento anti-racista. Deveria opor-se não só à intervenção americana no Iraque como também à intervenção americana no Sudão.

O que Hutto está a fazer é importante. Ele está entre os militares agora, no serviço activo. Ele está a dizer: "Estou a construir o movimento a partir de dentro".

A medida real da organização não estará nos líderes mas no que fazem as filiais (chapters). Estou a organizar uma filial do IVAW em New Jersey, no Essex Community College.

WW: Jon, você falou na convenção. O que foi a sua mensagem?

Marinheiro Jonathan Hutto, co-fundador do "Apelo para a Correcção" anti-guerra:

Apesar de mais de 2000 soldados assinarem o "Apelo para Correcção" e de comboios do IVAW cercarem bases militares e de o povo ter-se manifestado e votado contra a guerra, o governo tem sido inflexível na sua decisão de continuar esta guerra e a ocupação. Eu disse na convenção IVAW que quando o governo fecha os caminhos da correcção e frustra a vontade política, nessa altura as pessoas procurarão outros caminhos. Elas mover-se-ão para além de um apelo, para uma exigência. Isto é a história da Declaração da Independência.

Thomas Jefferson – que foi um proprietário de escravos – escreveu que quando um governo se torna destrutivo, então o povo tem a obrigação de substituir ou derrubar tal governo.

A frustração pode torná-lo cínico. Aprendi com Kwame Ture [Stokely Carmichael], 10 anos atrás na Howard University, como combater isto. Ele disse que você não se junta à luta para mobilizar em torno de uma questão imediata e então, uma vez resolvida esta questão, você actua o resto da sua vida. "A luta é eterna. Você tem de adoptar uma visão a longo prazo a fim de ser capaz de permanecer na luta".

Temos de encarar o que o movimento soldados/veteranos tem de ser. Ele não deveria ser apenas para acabar a guerra mas sim para combater todas as formas de opressão. Deveria estar interconectado com o combate ao racismo, ao sexismo e à luta dos povos oprimidos de todo o mundo. Todo o apelo para enviar as tropas de volta à casa é limitado a menos que também inclua reparações para o povo iraquiano. Os soldados devem entender que o soldado médio americano tem mais em comum com o povo do Iraque do que com o governo dos EUA.

Contactos: IVAW em www.ivaw.org , Hutto em appealforredress.org , Madden em BOSTON@IVAW.org , Foley em gicoffeehouseddc@yahoo.com .

[*] O autor foi um dos organizadores do American Servicemen's Union, em 1967-1971, que se opôs à guerra contra o Vietnam. Email: jcat@workers.org


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
07/Set/07