EUA, o titã epiléptico
Perigoso como uma fera ferida
por Christophe Trontin
Desde o 11 de setembro de 2001 os EUA deixaram de ser como eram. Com a
eleição de Donald Trump, continuam a sua descida aos infernos. Os
EUA triunfantes, imperiais, dominadores, às vezes generosos,
estão irreconhecíveis. Vejam-se debates no Youtube, entrevistas
na Fox News, na CBS, na HBO... A paranóia atingiu níveis
desconhecidos desde a época do macarthismo.
O mundo é visto ao contrário através do espelho da
duplicidade de critérios: os carrascos, erigidos em vítimas.
Fazendo pirataria informática desde há décadas em
servidores e routers por todo o mundo, a empresas e Estados, aliados ou
inimigos, eles queixam-se agora de "cyber-ataques" russos e chineses;
patrocinam centenas de grupos terroristas e ONGs subversivas, mas temem os
ataques da Al-Qaeda e do Daesh. Campeões da manipulação de
eleições estrangeiras, fulminam Putin que teria alterado a sua.
Rumores, afirmações, relatos interpretados e reinterpretados
até à náusea... O síndroma das
conspirações e complôs alastra como um cancro desde as
camadas mais modestas até às castas mais privilegiadas de
Washington. Barack Obama cedeu ao ambiente de histeria e denúncia sem
provas, a "mão de Moscovo", que teria feito eleger Donald
Trump (sem, no entanto, veja-se o disparate, ter influenciado o voto ou a
contagem dos votos, de acordo com o relatório da CIA e com o FBI a
reservar a sua posição).
Expulsão de diplomatas, reforço das sanções,
demonização mediática sem precedentes do presidente Putin,
tudo isto leva a medidas desesperadas, mesmo que ineficazes, para interferir
tanto quanto possível nas relações da futura
administração com o Kremlin. Mesmo antes da entrada em
funções do bilionário o populismo assentou arraiais na
Casa Branca, o futuro poder vai abertamente ser uma luta entre os magnatas do
petróleo e os membros da família.
Nepotismo, corrupção, histeria dos media: o colapso do
império.
As eleições de novembro de 2016 revelaram a amplitude do
mal-estar. Durante a campanha, muitos americanos lamentaram as escolhas
desastrosas em que estavam envolvidos. Num país cheio de pessoas
criativas, carismáticas e talentosas, esta alternativa entre a peste e a
cólera que o sistema primário lhes tinha deixado foi algo de
surreal, escandaloso.
Os EUA abordam uma fase crítica de sua história e o mundo inteiro
com eles. O risco é enorme: perigosos como uma fera ferida, vêem
inimigos nos quatro cantos do mundo. Envolvidos numa lógica cheia de
contradições, entregam-se a uma guerra implacável, por
interpostos aliados. Cegos pelas suas dores, atormentados por um terror
impotente, reagem com exagero, golpeiam, descontrolam-se, parecem prontos para
arrastar o resto do mundo a qualquer momento para uma guerra mundial suicida.
Observando os violentos discursos que grassam nos ecrãs americanos,
é como se revíssemos os do fim da União Soviética.
A dimensão da catástrofe não é a mesma (ainda), mas
a síndrome é semelhante. Um país acostumado à
supremacia, a uma obediência incondicional dos seus vassalos, ao temor
respeitoso dos seus inimigos, acorda e vê-se de repente a nu, endividado,
ridicularizado. Em todas as frentes onde alguma vez dispôs a sua
força incomparável, apareceram inimigos ou reforçaram-se
os que desafiavam a sua supremacia. A sua superioridade militar é
disputada, o seu domínio económico não é mais do
que uma memória. O privilégio exorbitante do dólar,
coração do sistema está ameaçado.
Mas há pior. As políticas de curto prazo, a
corrupção maciça, os gastos irresponsáveis causados
pelas aventuras militares recentes, causaram um caos interno bem analisado por
alguns observadores estrangeiros e completamente ignorados pela maior parte dos
analistas dos EUA, num curioso exercício de negação nos
media. Bernie Sanders foi o único a fazer soar o alarme, e mesmo que
tenha sido ouvido por um grande número de cidadãos das classes
pobres, foi rapidamente afastado por Clinton e a elite liberal do Congresso
democrático.
Endividamento maciço dos estudantes, superpopulação
prisional, polícia perseguindo impunemente os cidadãos,
desbragado populismo dos juízes, devastação social pelos
empréstimos usurários às camadas populares, ausência
de protecção social para os trabalhadores pobres, desigualdade de
rendimentos e patrimónios superior a todos os registos históricos
conhecidos, retorno das tensões raciais... A sociedade dos EUA
está doente, a sua condição deteriora-se e a
presença de armas de fogo em cada armário ou gaveta do
país é uma bomba relógio que espera a sua hora. De um
momento para o outro, aparentemente assim que Donald Trump tiver esgotado sua
capacidade já muito limitada de promover a unidade, o desespero
irá explodir e o país dividir-se.
As consequências serão terríveis para os EUA e para o
mundo. Os humoristas associam-se a esta ideia e sugerem que Donald Trump
não seria o 45º, mas o último presidente dos EUA. E se
estiverem certos?
Muito se divagou sobre a periculosidade de Saddam Hussein ou Kim Jong-un. Sobre
a necessidade de desarmar o Irão. Sobre a ameaça chinesa, sobre o
intervencionismo de Putin. Deve notar-se que essas ameaças e riscos
são apenas bagatelas face a uns EUA desestabilizados lutando contra seus
fantasmas, querendo tratar todos os problemas com bombardeamentos e projectando
o seu caos num número crescente de países. Quem o trará
à razão? Quem o vai desarmar? Quem provocará uma
indispensável mudança de regime... em Washington?
Mais que ridicularizar os infortúnios da ex-primeira potência, o
resto do mundo faria melhor em se preocupar com as consequências
catastróficas do seu agora provável colapso. Tomar tal como a
China, a Rússia e sem dúvida outros, discretas medidas
preventivas para ficar na medida do possível longe das convulsões
do titã epiléptico.
16/Janeiro/2017
O original encontra-se em
www.legrandsoir.info/les-etats-unis-dangereux-comme-un-fauve-blesse.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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