Preços em ascensão das
commodities
denunciam desvalorização do dólar
por Jephraim P. Gundzik
[*]
A espantosa recuperação dos preços das
commodities
[1]
durante os últimos 12 meses foi uma surpresa para maior parte dos
analistas, economistas e investidores. Ao invés de uma mudança
dramática na relação entre a oferta e a procura para cada
commodity,
a ascensão dos preços das
comodities
foi conduzida pela desvalorização do mais importante marcador de
valor internacional das
commodities
o dólar americano. No meses pela frente, a
desvalorização do dólar registará um crescimento em
relação às principais divisas. Os fundamentos em
rápida deterioração da economia estadunidense,
políticas discutíveis do Federal Reserve, aumento da
instabilidade política e extrema instabilidade geopolítica global
podem disparar uma fuga significativa de capital estrangeiro dos Estados Unidos.
BREVE HISTÓRIA DOS PREÇOS DA
COMMODITIES
Em fins de 2005, o vasto índice de preços das
commodities
do Commodity Research Bureau, conhecido como CRB Index, ultrapassou
silenciosamente os altos níveis registados no princípio da
década de 1980. Na terceira semana de Maio de 2006, o CRB Index
aumentou mais 12 por cento. Por trás do aumento deste ano no CRB Index
há as corridas de preços sem precedentes em determinadas
commodities.
Nos primeiros cinco meses de 2006, os preços do petróleo bruto
aumentaram uns 14 por cento, seguido por ganhos no milho e no trigo da ordem
dos 10 por cento. Os ganhos de preço para as demais
commodities
ultrapassaram de longe os ganhos do petróleo e dos cereais.
Os preços do zinco duplicaram nos últimos cinco meses, os
preços do cobre subiram 80 por cento, a prata ascendeu 60 por cento e o
paládio, estanho, ouro, alumínio e platina ganharam
respectivamente 50 por cento, 40 por cento, 39 por cento, 36 por cento e 35 por
cento. Os preços para as demais
commodities,
incluindo chumbo, ferro e sucata de ferro seguiram um padrão
semelhante ao longo deste ano. Apesar destas
commodities
terem os mais variados usos possíveis, desde a indústria
à produção alimentar, todas elas têm uma
característica comum são cotadas e comercializadas
internacionalmente em dólares dos EUA.
É altamente discutível que o crescimento económico global
tenha subitamente atingido um ponto em que a procura mundial haja, de forma
esmagadora e simultânea, ultrapassado a oferta mundial de todas estas
mercadorias. Em 2005, o crescimento económico real a nível
global enfraqueceu para cerca de 3,2 por cento quando em 2004 fora
aproximadamente de quatro por cento. O enfraquecimento do crescimento
económico global foi conduzido pelo crescimento económico real
mais fraco nos Estados Unidos, o qual desacelerou de 4,2 por cento em 2004 para
3,5 por cento em 2005. A procura global por
commodities
estava realmente a declinar quando os seus preços começaram a
galopar em 2005.
QUEDA DO VALOR DO DÓLAR
Se bem que o crescimento económico real americano e global houvesse
acelerado no primeiro trimestre de 2006, esta aceleração
está longe de ser suficiente para justificar o novo ascenso dos
preços das
commodities
nos primeiros cinco meses deste ano. Ao invés de ser a procura a
empurrar para cima o valor das
commodities
nos últimos 18 meses, foi a desvalorização do
dólar contra as
commodities
que empurrou os preços das mesmas para alturas récord. Por
outras palavras, não são os preços do zinco, do cobre e da
prata que estão a subir; é o valor do dólar que esta a
declinar contra estas
commodities.
A desvalorização do dólar contra as principais divisas
mundiais está a ser induzida pelo crescimento excepcional da oferta
mundial de dólares durante os últimos dois anos. O crescimento
da oferta de dólares mundial ocorreu através de duas fontes
primárias: o aumento internacional dos preços do petróleo
e o muito grande e crescente défice comercial estadunidense.
O aumento internacional do petróleo durante os últimos dois anos
aumentou dramaticamente a procura por dólares e a oferta de
dólares, os quais são utilizados para comprar petróleo
bruto. Estes dólares acabam nas mãos dos produtores de
petróleo mundiais, os quais investiram uma parte deste golpe de fortuna
em títulos do U.S. Treasury, de agências e corporativos.
Analogamente, nos últimos dois anos o défice comercial americano
despejou dólares sobre muitos países que produzem
exportações destinadas aos Estados Unidos. Mais uma vez, a maior
parte desta chuva de dinheiro foi investida em títulos do U.S. Treasury,
de agências e corporativos.
Para ter uma ideia da magnitude do crescimento da oferta de dólares no
mundo durante os últimos dois anos deve-se calcular o valor do
dólar decorrente do aumento dos preços do petróleo bruto e
acrescentar a isto o tamanho do défice comercial americano. Em 2004, a
procura global por petróleo bruto cresceu cerca de quatro por cento.
Preços mais elevados, que avançaram 34 por cento, e a procura por
petróleo combinaram-se para aumentar a oferta mundial de dólares
em US$ 330 mil milhões. Em 2005 os preços internacionais do
petróleo ganharam outros 35 por cento e a procura global por
petróleo cresceu apenas 1,6 por cento. No entanto, a oferta mundial de
dólares aumentou mais uma vez em US$ 460 mil milhões.
O défice comercial americano foi de US$ 666 mil milhões em 2004 e
US$ 782 mil milhões em 2005. Assim, em 2004 a oferta mundial de
dólares cresceu em mais de US$ 1 milhão de milhões, a qual
foi eclipsada em 2005 quando esta cresceu mais uma vez em US$ 1,2 milhão
de milhões. Mesmo reduzindo estes números a fim de evitar a
dupla contagem da porção do défice comercial dos EUA
ligado às importações de petróleo bruto, o
crescimento médio anual da oferta mundial de dólares ainda
apresenta um excesso de US$ 1 milhão de milhões por ano em 2004 e
2005. Segundo dados do Tesouro dos EUA, os estrangeiros investiram cerca de
US$ 900 mil milhões em valores mobiliários
(securities)
americanos tanto em 2004 como em 2005. No fim de 2005, os estrangeiros
possuíam cerca de US$ 4 milhões de milhões da
dívida americana em
securities
e um valor de cerca de US$ 2 milhões de milhões de
equities
[2]
dos EUA.
A oferta mundial de dólares também foi, naturalmente, empurrada
para cima nestes últimos dois anos pela ascensão dos
preços de outras
commodities
denominadas em dólar, tais como zinco, cobre, prata, paládio e
estanho, dentre outras. Embora a maior parte do aumento na oferta mundial de
dólares desde 2004 tenha sido reabsorvida por títulos e
equities
dos EUA, até US$ 600 mil milhões permanecem fora dos mercados
activos americanos. Uma parte desde dinheiro sem dúvida descobriu o seu
caminho no mercados activos de outros países. A maior parte dele,
contudo, foi parqueado em investimentos alternativos tais como
commodities.
Ao invés de uma bolha nos preços das
commodities,
como pelo menos um conhecido economista asseverou, os preços recentes
das
commodities
são a indicação de uma bolha crescente na oferta mundial
de dólares.
A DESVALORIZAÇÃO DO DÓLAR CONTRA OUTRAS DIVISAS
Apesar de já ser grande em si mesma, a bolha do dólar que
está a reduzir o valor do dólar contra as
commodities
ainda é pequena em relação à bolha dos
dólares que está parqueada em valores da dívida americana.
Em 2005, esta bolha manteve as taxas de juro americanas a longo prazo
excepcionalmente baixas. O excesso de oferta comercial e de
petro-dólares pressionaram para cima todos os preços de
títulos denominados em dólar, incluindo preços de
títulos arriscados
(risky junk)
e títulos de mercados emergentes. Curiosamente, a poderosa tempestade
nos preços das
commodities
em 2006 foi acompanhada por um declínio igualmente poderosos nos
preços de todos os títulos denominados em dólar,
empurrando os seus rendimentos abruptamente para cima.
Como os rendimentos de títulos americanos elevaram-se, o valor do
dólar tanto contra o yen como contra o euro declinou, assinalando que a
fuga do capital estrangeiro dos EUA já começou. O dólar
depreciou cerca de oito por cento contra o euro e cerca de cinco por cento
contra o yen entre 1 de Janeiro e 22 de Maio de 2006. A venda de
títulos denominados em dólares pelos estrangeiros está a
transferir a bolha global do dólar de volta para a oferta
monetária americana. Esta liquidez acrescida sem dúvida ajudou a
promover o crescimento económico americano no primeiro trimestre de
2006. Esta também aumentou as já crescentes pressões
inflacionárias nos Estados Unidos.
Quando o investimento de risco nos EUA, historicamente benigno, começar
a aumentar durante os próximos vários meses, a fuga do capital
estrangeiro poderia intensificar-se dramaticamente, estimulando a
desvalorização do dólar contra outras divisas importantes.
O enfraquecimento dos fundamentos económicos, passos equivocados do
U.S. Federal Reserve, aumento da instabilidade política e extrema
instabilidade geopolítica global são factores que poderiam
facilmente pressionar o investimento de risco nos Estados Unidos a alturas
extraordinárias, remetendo os investidores estrangeiros em
direcção à saída.
Os preços em ascensão da energia estão finalmente a
começar a empurrar os indicadores da inflação americana
muito mais para cima. Quando começar o verão, a procura de
energia nos Estados Unidos aumentará, levando os preços do
petróleo e dos combustíveis a níveis muito mais altos.
Isto assoprará o fogo da inflação nos Estados Unidos. Ao
mesmo tempo, preços em ascensão começarão a
deprimir o crescimento tanto do consumo privado como do investimento,
enfraquecendo o crescimento económico americano. A
estagflação, embora não seja vista nos EUA desde o
princípio da década de 1970, poderia efectuar um retorno forte
nos próximos meses.
O último episódio de estagflação nos Estados Unidos
foi o resultado do embargo árabe de petróleo em 1973-1974. O
reaparecimento da estagflação poderia acelerar a fuga do capital
estrangeiro dos Estados Unidos. Conforme a maneira como a U.S. Federal Reserve
responder a esta combinação inabitual de inflação
ascendente e crescimento económico lento poderia ser acelerada a fuga do
capital estrangeiro. Com a inflação já a crescer e com o
crescimento económico americano muito acima de níveis
sustentáveis no primeiro trimestre deste ano, alguém poderia
facilmente argumentar que o Fed foi demasiado tímido no endurecimento da
política monetária ao longo dos últimos vários
meses.
Esta timidez pode ser atribuída a dois factores: a mudança na
presidência do Fed e a aproximação a médio prazo das
eleições americanas. O novo presidente do Fed, Ben Bernanke, foi
nomeado pelo presidente George W. Bush. Bernanke ficou sem dúvida sob
alguma pressão política a fim de adiar o novo endurecimento da
política monetária até depois das eleições
de 7 de Novembro para evitar uma desaceleração económica
(economic slowdown)
nos EUA. O fracasso do Fed em actuar decisivamente em face da
inflação ascendente poderia danificar a credibilidade do sistema
monetário americano, tornando a fuga de capital uma torrente.
A inundação do capital estrangeiro a partir dos Estados Unidos
podia ser amortecida pela instabilidade política. Inquéritos de
opinião pública indicam que o apoio popular ao presidente Bush
caiu para cerca de 30 por cento. O apoio popular ao vice-presidente Dick
Cheney está abaixo dos 25 por cento. O excessivamente fraco apoio
popular ao presidente e vice-presidente levanta questões acerca da
legitimidade de toda a administração Bush. A erosão da
legitimidade encorajou a repreensão pública de vários
responsáveis da administração, inclusive o
secretário da Defesa Donald Rumsfeld.
A erosão da legitimidade da administração de Bush
também minou o apoio popular ao Partido Republicano, produzindo uma
fractura larga entre o presidente e representantes do Partido Republicano no
Congresso. Esta fractura já está a provocar a ida a pique de
importantes iniciativas legislativas de Bush. Com o apoio público ao
Partido Republicano a cair em resultado das políticas da
administração Bush, pode emergir uma revolta contra o presidente
dentro do seu próprio partido. Em alternativa, o Partido Republicano
poderia ser batido pelos Democratas nas próximas eleições,
deixando os Democratas com o controle de pelo menos uma casa do Congresso e
Bush a definhar como um presidente incapaz.
Ainda outro factor que poderia produzir uma torrente de fuga de capital
estrangeiro dos Estados Unidos é a extrema instabilidade
geopolítica global. Historicamente, a instabilidade geopolítica
habitualmente provocava uma fuga para o refúgio seguro que era o
dólar americano. A instabilidade geopolítica, contudo, raramente
tem sido de tal proporção global e tão elevada. A
administração Bush está simultaneamente a aplicar
pressão sobre dois adversários muito fortes, o Irão e a
Coreia do Norte. A acção militar contra qualquer destes
países terá profundas consequências económicas e
geopolíticas globais negativas a longo prazo. Mesmo a ameaça da
acção militar ou da imposição de
sanções económicas contra o Irão ou a Coreia do
Norte teria consequências negativas semelhantes.
A bolha crescente na oferta mundial de dólares também mina o
porto seguro do valor do dólar. É precisamente por isso que os
preços dos metais preciosos estão em alturas récord. O
dólar é como qualquer outra
commodity
imprima demasiados dólares e o seu valor inevitavelmente
declinará. O declínio no valor do dólar já se
mostrou em relação às
commodities.
Ele também se tornará cada vez mais aparente em
relação às outras divisas importantes ao longo do
próximos meses.
26/Maio/2006
[1]
Commodities:
mercadorias homogéneas e padronizadas cotadas em bolsa.
[2]
Equity:
diferença entre o valor de uma propriedade e tudo o que for
exigível contra ela. Exs.: a
equity
do proprietário de um imóvel é o valor actual do mesmo
menos o montante da sua hipoteca; a de uma empresa é o valor do activo
que exceda o do passivo.
[*]
Presidente da
Condor Advisers, Inc.
, empresa que efectua análises de
risco em mercados emergentes para corporações transnacionais,
fundos mútuos e outras instituições. Colaborador do
Financial Times
e do
Asia Times.
O original encontra-se em
http://www.pinr.com/report.php?ac=view_report&report_id=497&language_id=1
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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