O resultado da cimeira Biden-Putin, uma avaliação

The Saker [*]

Retirada de Napoleão da Rússia.

Comecemos por declarar o óbvio: aqueles que agora afirmam que a Cimeira de Biden Putin não produziu nada tangível e foi, na melhor das hipóteses, uma perda de tempo estão claramente errados, principalmente porque compreenderam mal o que estava realmente em jogo (e o que ainda está em jogo após a Cimeira).

O que demonstra isto?

O primeiro e mais óbvio sinal de que algo muito real aconteceu é a reacção absolutamente histérica do Partido de Guerra (o qual defino da seguinte forma: todos os media dos EUA, os Neocons, a quadrilha MAGA-GOP [1] no Congresso, a "quadrilha não-Biden" dentro do Partido Democrata, o sector energético dos EUA, o complexo industrial-militar dos EUA, todo o "estado profundo" dos EUA, o lobby de Israel, o lobby dos Ukies, o lobby do Reino Unido, o lobby da Polónia, etc). A administração Biden está sob ENORME pressão do Partido de Guerra para continuar a ameaçar a Rússia com todo o tipo de sanções e "consequências", a menos que a Rússia se afaste da sua actual posição "ameaçadora" e desista do "sonho" de Putin de invadir a Ucrânia e "restaurar a União Soviética". O facto de nada desta verborreia ter qualquer ligação com a realidade não é um impedimento para o Partido de Guerra. Poder-se-ia dizer que o Partido de Guerra é um coro que só sabe cantar uma canção.

[Nota lateral: num programa recente na Rússia TV um convidado observou que é verdadeiramente hilariante ver o Ocidente ameaçar a Rússia com as "sanções do inferno" quando estas últimas são uma piada absoluta em comparação com a crise devastadora a que a Rússia sobreviveu nos anos 90, quando o Ocidente estava a "ajudar" a Rússia. Ele tem toda a razão. Acrescentaria também que um país que perdeu 27 milhões de pessoas ao invés de se curvar e aceitar tornar-se uma colónia da "Europa Unida" (de Hitler) é pouco provável que seja dissuadido por ser desligado do SWIFT, especialmente porque fazê-lo iria prejudicar muito mais a UE do que a Rússia!]

Segundo, há sinais indirectos mas consistentes de uma luta interna muito séria dentro da administração "Biden". Isto não é novidade, tudo começou com Obama, continuou sob Trump e ainda hoje acontece: quando um Presidente é muito fraco, as várias agências e departamentos começam a desenvolver as suas próprias políticas, quase privadas, estrangeiras (e internas). Sob Obama e Trump, esta não foi uma questão muito importante, uma vez que nenhum dos presidentes estava disposto ou capaz de negociar seriamente com o Kremlin (que foi quando os russos começaram a falar dos seus homólogos norte-americanos como "não capazes de chegar a acordo"). Desta vez, porém, “Biden” fez claramente um esforço concertado para tentar iniciar algum tipo de diálogo, portanto desta vez há algo muito real em jogo.

Em terceiro lugar, o tom na Rússia mudou de forma dramaticamente. Basta ler a transcrição da entrevista do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Ryabkov: é particularmente espantoso ouvir esse tipo de linguagem vindo de um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros (os diplomatas russos são muito do velho estilo e raramente usam uma linguagem tão directa). O mais marcante nesta entrevista é o profundo pessimismo de Ryabkov sobre o facto de os EUA poderem realmente chegar a um acordo negociado com a Rússia sobre praticamente tudo.

Então, o que está realmente em causa aqui?

Primeiro, é preciso notar que ainda não sabemos o que realmente se passou entre Putin e Biden. Tudo o que sabemos é que ambas as partes concordaram em continuar o seu diálogo a nível de peritos. Contudo, podemos fazer algumas suposições plausíveis com base na forma como ambos os lados se têm comportado desde a Cimeira.

Em segundo lugar, há sinais claros de que a Administração "Biden" ainda está aparentemente a tentar não ceder completamente ao Partido de Guerra. O problema é que esta postura é apenas parcial (diferentes funcionários exprimem opiniões frequentemente divergentes) e hesitante (até o próprio Biden parece estar a fazer ziguezague sobre o que realmente se está a passar entre os EUA e a Rússia). A maior parte dos analistas ocidentais vêem o seguinte como as questões-chave entre a Rússia e os EUA:

Penso que todas elas são apenas questões secundárias, pretextos.

Mais uma vez, esta é a única canção que o coro do Partido de Guerra sabe cantar, então porquê esperar qualquer outra coisa da parte deles?

Então, o que está realmente em causa aqui?

Pense na recente Cimeira para a Democracia e pergunte-se: o que era tudo isto? Certamente não se tratou de democracia ou direitos humanos, não com o comparecimento de países como Israel ou a Letónia, ambos inegavelmente Estados Apartheid. Sem mencionar o que os EUA e o Reino Unido estão a fazer a Julian Assange cuja vida, aparentemente, é muito menos valiosa do que a da Navalny. Todo esse disparate é apenas RP, nada mais.

Como mencionei no meu artigo sobre esta cimeira, o seu verdadeiro objectivo era emitir certificados:   os convidados eram certificados como Negros leais da Casa ( House Negroes), ao passo que os não convidados eram rotulados como maléficos e perigosos Negros do Campo ( Field Negroes). Agora, considerando a extrema fraqueza e vulnerabilidade dos Estados Unidos, é bastante claro que o valor real do certificado de "bom Negro da Casa" era muito limitado para aqueles que o receberam. Assim, não é de todo acerca de negros, era acerca do Mestre da casa e da sua necessidade de mostrar que ele ainda era o mestre e que ainda podia comandar uma força considerável de escravos simpáticos e obedientes para fazer a sua vontade. Por outras palavras, era uma demonstração de força para o (um tanto desesperado) tio Shmuel.

Isto é absolutamente crucial:   para um império morto e uns EUA mortos, as aparências são muito mais importantes do que a realidade. Como já mencionei anteriormente, o Império Anglo-sionista morreu a 8 de Janeiro de 2020 quando os iranianos atacaram as bases dos EUA com mísseis e os EUA não fizeram absolutamente nada; ao passo que os EUA, pelo menos como os conhecíamos, morreram a 6 de Janeiro de 2021 (estes dois acontecimentos tiveram quase exactamente um ano de diferença, o que me faz pensar o que mais poderia acontecer em Janeiro de 2022?). O principal objectivo da Cimeira para a Democracia era esconder o mais possível estas realidades e o próprio facto de os EUA terem de organizar um evento tão tolo para tentarem parecer ainda relevantes diz-nos tudo o que realmente precisamos de saber sobre a verdadeira condição do Império e dos EUA (ambos mortos).

À luz do acima exposto, vejamos agora o diálogo actual (ainda que ténue) entre os EUA e a Rússia.

Posição dos EUA: primeiro, e acima de tudo, a Casa Branca precisa de evitar dar a impressão de que a Rússia e os EUA estão a negociar em pé de igualdade. Este desejo de manter uma aparência de superioridade é tornado ainda mais difícil pela dura realidade que mostra que, longe de ser igual, a Rússia é a parte mais forte nesta negociação, e por uma grande margem (militarmente, claro, mas também social, política e economicamente). Esta é a chave do dilema dos EUA: como negociar com um adversário mais forte, mantendo a aparência da sua própria superioridade (inexistente)?

Posição russa: o Kremlin está pronto a negociar, mas só se os EUA aceitarem que ambos os lados têm direitos e obrigações iguais. Por exemplo, se os EUA declararem que têm "interesses" a milhares de quilómetros de distância de casa, então a Rússia pode declarar que ela também tem "interesses", especialmente em países junto à sua própria fronteira.

Claramente, estas duas posições são mutuamente excludentes.

Além disso, ambos os lados reconhecem isso.

O método dos EUA para lidar com este problema é fazer uma coisa ao mesmo tempo que diz o seu oposto, ou seja, aceitar calmamente a posição russa nas negociações, negando publicamente este facto.

O método russo é ainda mais simples:   não fazer nada e simplesmente esperar. Esperar que a UE congele, esperar que os EUA continuem a afogar-se nas suas muitas e muito graves crises internas e esperar que o país 404, o "pão mofado", para usar a expressão muito precisa de Dmitri Orlov, simplesmente apodreça. Eis como a grande maioria dos analistas e responsáveis russos vêem a situação:

E quanto às forças russas próximas (relativamente) da fronteira ucraniana?

Na verdade, vários generais russos reformados explicaram repetidamente do que se trata. Esta força não é simplesmente suficientemente grande para considerar uma invasão (e subsequente ocupação!) da Ucrânia. O seu verdadeiro objectivo é bastante simples: são bastante capazes de impedir qualquer invasão Ukronazi das LDNR caso as defesas das LDNR desabem. E para esta missão muito mais limitada, esta força é mais do que suficiente para executá-la rapidamente e com êxito. Não menos importante é que a presença de tal "força de segurança" é uma mensagem muito clara para o regime nazi em Kiev: não há absolutamente nenhuma maneira de invadir as LDNR – experimente isto e nós moveremos as nossas forças para as LDNR, os desarmaremos e reconheceremos as LDNR como estados independentes.

Aqui é importante repetir algo mais uma vez: não é o pior pesadelo do Ocidente que a Rússia possa invadir a Ucrânia. O pior pesadelo do Ocidente seria a Rússia não mover um único soldado através da fronteira. Esse é o "pesadelo da paz" que o Partido de Guerra quer, e precisa, evitar a qualquer custo.

Então, para onde vamos a partir daqui?

Tenho a sensação de que há algumas pessoas na Administração Biden que são suficientemente espertas para escolher uma "aterragem suave" para os EUA em vez de um cenário de "crash and burn". Eles estão bem cientes de todos os factos que descrevi acima e o que pretendem é uma retirada ordeira enquanto negociam os melhores termos possíveis para os EUA com a Rússia (e outros países, a propósito). O problema é que qualquer noção de uma retirada ordeira é apresentada pelo Partido de Guerra como uma rendição abjecta.

Nota lateral: este não é um problema unicamente dos EUA: desde que Putin chegou ao poder, houve quem chamasse os muitos recuos ordeiros russos como sinais de cedência ao Ocidente: disseram que Putin era um agente obediente de "Davos" ou de Israel e culparam-no pela sua alegada fraqueza e indecisão. A verdade é que tanto na política como na arte militar, as retiradas ordeiras são uma manobra muito difícil e, pior ainda, mesmo quando são executadas com êxito, muito raramente recebem qualquer elogio, mas, ao invés disso, recebem só acusações repugnantes de fraqueza que beira a traição. Os "generais de sofá" têm o luxo e o tempo para exigir um contra-ataque heróico, mas não têm de viver então com a responsabilidade das consequências inevitáveis de tal grandeza"heroica"].

Ainda assim, estou convencido de que há na Administração Biden pessoas que querem uma retirada ordeira, não em nome da paz, claro, mas a fim de ganhar tempo para reagrupar, reorganizar, rearmar, reciclar e, basicamente, fazer circular os vagões numa parte menor, mas mais bem protegida, do nosso planeta.

Para os dominadores dos EUA, é preferível ter o tamanho da sua plantação a diminuir, mesmo significativamente, do que ter alguma combinação de Negros do Campo a queimar completamente a sua casa. Assim, eles querem contentar-se com uma plantação mais pequena e menos Negros do Campo.

Tristemente, não vejo a Casa Branca de Biden capaz de sobrepujar os histéricos do Partido de Guerra, quanto mais não seja porque o Partido de Guerra compensa totalmente o que lhe falta em senso comum com uma determinação maníaca de prevalecer, até porque se "a paz se instalasse" eles perderiam os seus rendimentos. Espero sinceramente que esteja errado aqui, mas seria preciso um líder bastante carismático para ousar enfrentar abertamente o Partido de Guerra (todos nos lembramos de como o pântano rapidamente drenou o Trump ao invés de ser ao contrário).

A realidade derrota sempre as ilusões

A maior parte dos analistas vê que 2022 será o ano de uma enorme crise interna nos EUA, com inflação, crime, motins, carências, etc, tudo isto a aumentar dramaticamente. Os optimistas verão isso como um bom sinal (certamente os EUA não começarão uma guerra quando eles próprios estiverem num estado de quase guerra civil!) ao passo que os pessimistas verão isto como um sinal de que os EUA começarão certamente alguma espécie de guerra (a guerra é um truque velho e eficaz para evitar lidar com o colapso interno).

Aqui só podemos esperar (e rezar!) pelo melhor, enquanto nos preparamos para o pior.

Depois há o bando UK+3B+PU [2] que está absolutamente desesperado por algum tipo de guerra, esperançosamente curta e triunfante. Eles estão absolutamente horrorizados com a ideia de que esta guerra possa não acontecer. Sim, em teoria, os EUA têm peso suficiente para os levar ao calcanhar, mas o problema é que o próprio executivo americano está muito dividido (e, para não mencionar, muito corrupto). A Rússia não pode definitivamente impedi-los, porque para eles mesmo perder uma guerra para a Rússia é preferível a não haver guerra.

Em resumo:

Os EUA estão profundamente divididos e não podem dar sequer a aparência de aceitar a Rússia como um parceiro igual.

A UE é dirigida por uma classe de narcisistas infantis que estão totalmente desfasados da realidade.

O Partido de Guerra só aumentará a sua histeria ao ver a guerra como a única opção para permanecer relevante.

A Rússia fez tudo o que devia e podia ao forçar os EUA a uma retirada estratégica e tudo o que pode fazer agora é esperar.

A minha conclusão pessoal será sob a forma de um pequeno vídeo clip que mostra de forma eloquente o que aconteceu da última vez que o Ocidente quis esmagar a Rússia.

14/Dezembro/2021

[1] MEGA-GOP: "Make America Great Again" (slogan do Trump), Great Old Party (Partido Republicano)
[2] UK+3B+PU: Reino Unido + 3 Estados bálticos + Polónia

Ver também: O que Putin realmente disse a Biden

[*] Analista militar.

O original encontra-se em thesaker.is/assessing-the-outcome-of-the-biden-putin-summmit/

Este artigo encontra-se em resistir.info

16/Dez/21