Biden à Rússia: Não se atreva a comer este pão mofado!

Dmitry Orlov [*]

Biden, macho como John Wayne.

Recebi uma enxurrada de emails de pessoas preocupadas com a irrupção da Terceira Guerra Mundial a qualquer momento. A maior parte das preocupações tem uma única causa:   as loucuras impressas e difundidas pelos media ocidentais. Mas gostaria de sugerir que a imprensa ocidental é que é o problema, não qualquer conflito militar incipiente envolvendo a Ucrânia. A imprensa ocidental é uma piada:   não havia armas de destruição maciça;   freon não faz buracos na camada de ozono;   Trump não era um agente russo;   a Síria não usou armas químicas contra o seu próprio povo;   as emissões de dióxido de carbono causam arrefecimento global, não aquecimento global (mas não muito);   não há tropas russas no Donbass; e...   a Rússia não está em vias de invadir e anexar a Ucrânia. Além disso, nenhum número de engodos ou provocações pode levar a Rússia a querer fazê-lo. Ela simplesmente não quer incómodos com aquela terra miserável e arruinada.

Suponha que está numa negociação tensa com alguém. E suponha que esse alguém põe um prato em cima da mesa. Nesse prato está um pãozinho. Ele tem manchas verdes e cabelos brancos por cima, está a escorrer gosma acastanhada, tresanda a amoníaco e até as moscas se recusam a pousar sobre ele. E suponha que então alguém diz:   se você comer este pãozinho, é a guerra! Trata-se de uma posição negocial difícil, não é? Afinal de contas, isso é realmente estabelecer a lei, dando um ultimato, sem “ses” ou “mas”. Ao adoptar esta posição, Biden consegue apenas ser uma fração mínima de John Wayne, com uma gabarolice em vez do seu habitual tropeço precário. Por um breve e brilhante instante, Biden consegue falar com um líder mundial real e parecer presidencial ao invés de um tolo esquivo que tem um inútil traste tóxico como ajudante.

Foi essencialmente o que fez Biden. Ele disse a Putin em termos inequívocos:   Se invadir a Ucrânia, então haverá as sanções do Inferno. (não sei como seriam as sanções do Céu, mas, não importa, os EUA são o Inferno e os russos parecem concordar com isso). Biden teve o cuidado de salientar que os EUA não viriam em auxílio da Ucrânia, porque a Ucrânia não é membro da NATO e, por isso, os EUA não têm obrigação de correr quaisquer riscos por sua causa, mas tenha a certeza de que iria bufar e de que iria soprar e ameaçar deitar abaixo a casa de Putin se ele invadisse. E se ele não invadisse, então voltaria para "Ei, Vlad, é óptimo ver-te! É o teu amigo Joe, lembras-te de mim?".

Mas será que Putin alguma vez se sentiria tentado a "comer aquele pãozinho"? Não, certamente! A Ucrânia está com um aspecto muito desagradável. Desde a sua independência, há três décadas, tem sido progressivamente desmantelada por uma oligarquia voraz, a sua indústria vendida para sucata e as suas infraestruturas decaem a níveis realmente perigosos.

Os seus principais activos são os seguintes:

O seu passivo inclui um nível muito elevado de dívida externa que é pouco provável que alguma vez venha a ser reembolsado utilizando receitas de exportação, assim como um grande plantel de idiotas neo-nazis com sangue nas mãos. A Rússia já obteve quase tudo o que queria da Ucrânia, que é a Crimeia e o Donbass.

A única coisa que a Rússia quer dos EUA relativamente à Ucrânia é uma garantia de segurança por escrito de que a Ucrânia nunca fará parte da NATO, nem terá tropas ou sistemas de armas da NATO no seu território, nem lhe será permitido entrar em quaisquer outras alianças anti-russas que possam surgir caso a NATO definhe e expluda. Putin pediu aos EUA que assinassem documentos legais vinculativos que bloquearão qualquer nova invasão em terras que fazem fronteira com o território russo. Isto reduziria o risco de uma guerra acidental e permitiria à Rússia concentrar menos força militar na sua fronteira ocidental.

Contudo, tais garantias de segurança não são algo que Biden possa providenciar sem sofrer uma perda de face maciça e sem destruir qualquer sentido de propósito que a NATO tem lutado em vão para cultivar desde o colapso da URSS há três décadas. Mas, por vezes, fazer apenas uma exigência é quase tão bom como tê-la acolhida. Se os EUA não ajudarem a Rússia a satisfazer as suas exigências de segurança perfeitamente razoáveis, então isso desata as mãos da Rússia a fazê-lo sem a ajuda dos EUA, deixando os americanos livres para simplesmente ignorarem a situação (algo que eles sabem fazer bastante bem) para evitar embaraços.

E essa é uma boa opção, uma vez que tal como está não faltam embaraços para a administração Biden. A inflação dos preços no produtor nos EUA já está nos 25% e é provável que se traduza numa inflação dos preços no consumidor de 12-15% até ao próximo Verão, mas qualquer tentativa de esmagar a inflação aumentando as taxas de juro ao estilo de Paul Volcker provocaria o colapso instantâneo de todo o esquema da pirâmide financeira. Neste momento, as finanças da nação estão num estado que em breve necessitará que o Congresso aprove um projecto de lei a declarar que a expressão "orçamento equilibrado" é um discurso de ódio. Dada a experiência no Afeganistão, repatriar todas as tropas norte-americanas estacionadas no estrangeiro antes de o dinheiro acabar, a fim de evitar que fiquem encalhadas em terras distantes sem qualquer reabastecimento, vai ser um pouco estúpido. As eleições intercalares do próximo Outono irão provavelmente tornar Biden um pato coxo nos dois anos restantes do mandato pois o número de pessoas dispostas a votar no seu partido será provavelmente ultrapassado pelo número de pessoas que querem dar a Biden uma outra colonoscopia.

Contra este pano de fundo, torna-se óbvio porque Biden estava visivelmente ansioso por falar com Putin e até levantou as mãos num abraço de teleconferência, pois aqui está um líder nacional cujo maior problema nacional dos últimos tempos é um certo parlamentar desleal (Rashkin , dos comunistas) que disparou sobre um alce sem obter previamente a licença de caça. Não importa que Putin se tenha referido à sua teleconferência com Biden como um "evento protocolar" e proferido as palavras "Sr. Biden" com uma mistura equilibrada de exasperação e resignação. Foi tudo num dia de trabalho para Putin, pelo que provavelmente deveria encontrar algo mais com que se preocupar porque a Terceira Guerra Mundial sobre a Ucrânia está afastada. Não há grand finale para a América; apenas muita dor, e depois, claro... o colapso.

10/Dezembro/2021

[*] Escritor. Algumas das suas obras constam aqui.

O original encontra-se em thesaker.is/biden-to-russia-dont-you-dare-eat-this-moldy-bagel/

Este artigo encontra-se em resistir.info

11/Dez/21