Um ponto de vista conservador
Petróleo para a guerra
Napoleão, de forma memorável, disse que um exército marcha
sobre o seu estomago. Isso pode ter sido verdade no século XIX. Mas as
modernas forças militares americanas marcham a jet-fuel e muito.
Hoje o soldado médio americano (GI) no Iraque gasta 20,5 galões
(77,6 litros) de combustível a cada dia, mais do que o dobro do volume
diário consumido pelos soldados americanos no Iraque em 2004. Assim, a
fim de defender o terceiro mais rico país do planeta, os militares dos
EUA estão a queimar enormes quantidades de petróleo. E quase
toda a gota deste combustível é importado para dentro do Iraque.
Estas maciças exigências de combustível mais de 3
milhões de galões (11,4 milhões de litros) por dia para a
Operation Iraqi Freedom, segundo o Defense Energy Support Center do
Pentágono são uma razão chave para a
ascensão do custo do esforço de guerra.
Historicamente, controlar o petróleo do Iraque foi um factor vital no
envolvimento da América naquele país e sempre foi um elemento
crucial dos planos da administração Bush para a era
pós-Saddam. Naturalmente, não foi assim que a guerra foi vendida
ao povo americano. Uns poucos meses antes da invasão, o
secretário da Defesa Donald Rumsfeld declarou que a guerra que se
aproximava "nada tem a ver com petróleo, literalmente nada a ver
com petróleo". A guerra era necessária, afirmavam seus
planeadores, porque Saddam Hussein apoiava o terrorismo e, deixado por
verificar, ele desencadearia armas de destruição em massa sobre o
Ocidente.
No entanto, o petróleo era o principal foco estratégico para os
militares americanos no Iraque. Os primeiros objectivos das forças
invasoras incluíam a captura de terminais petrolíferos chave do
Iraque e dos seus campos petrolíferos. Em 20 de Março de 2003, a
Navy SEAL (seal, air and land) travaram o primeiro combate da guerra quando
lançaram uma invasão surpresa dos terminais cargueiros de
petróleo de Mina al-Bakr e Khor al-Amaya, no Golfo Pérsico. Umas
poucas horas depois, o tenente Therral Childers tornou-se o primeiro soldado
americano a morrer em combate na invasão ao combater pelo controle do
campo petrolífero de Rumaylah, no sul do Iraque.
O petróleo também foi o primeiro objectivo quando as
forças americanas chegaram a Bagdad em 8 de Abril. Embora a Biblioteca
Nacional do Iraque, os Arquivos Nacionais e o Museu Nacional de Arqueologia
fossem todos saqueados e em alguns casos queimados, o edifício do
Ministério do Petróleo mal foi danificado. Isto aconteceu porque
um destacamento de soldados americanos e uma meia dúzia de
veículos de assalto foram designados para a guarda do ministério
e dos seus registos.
Afinal de contas, os arquitectos da guerra haviam prometido que o dinheiro do
petróleo haveria de reconstruir o Iraque depois de os militares
americanos tomarem o controle. Em Março de 2003, Paul Wolfowitz disse
num painel do Congresso: "Os rendimentos do petróleo daquele
país poderiam trazer entre US$50 e US$100 mil milhões ao longo
dos próximos dois ou três anos. Agora, há um bocado de
apetites sobre aquele dinheiro, mas ... estamos a tratar com um país que
pode realmente financiar a sua própria reconstrução e
relativamente em breve". Tal como Michael Gordon e Bernard Trainor
explicaram no seu livro de 2006, Cobra II, "O Pentágono prometeu
que a reconstrução do Iraque seria 'auto-financiada', e a
preservação da riqueza petrolífera do país era a
componente mais bem preparada e provida de recursos do plano de Washington para
o pós-guerra".
Após a invasão, quando os inspectores fracassaram na descoberta
de quaisquer armas de destruição em massa, Bush e seus apoiantes
mudaram a sua estória, afirmando que os EUA haviam invadido o Iraque
para difundir a democracia no Médio Oriente. Quando a democracia deixou
de se materializar, Bush declarou que os EUA não podiam "tolerar um
novo estado terrorista no coração do Médio Oriente com
grandes reservas de petróleo que poderiam ser utilizadas para financiar
suas ambições radicais ou para infligir danos económicos
ao Ocidente".
Contudo, os militares americanos e o novo governo de Bagdad não
conseguiram assegurar-se do estilhaçado sector petrolífero
iraquiano. Como disse A.F. Alhajii, economista da energia e professor na
Universidade de Ohio Norte, "seja quem for que controle o petróleo
do Iraque, ele controla o Iraque". Durante os últimos cinco anos
nunca foi exactamente claro quem controla o petróleo do Iraque. Disto
isto, a principal indústria do país está vagarosamente a
aumentar a produção. Em Janeiro, a produção
diária atingiu 2,4 milhões de barris por dia, o mais alto
nível desde a invasão americana.
Mas a presença da América no Iraque não está a
fazer uso das riquezas locais. Na verdade, pouco, se é que algum,
petróleo iraquiano está a ser utilizado pelos militares
americanos. Na verdade, o grosso do combustível necessário aos
militares americanos está a ser transportado por camião da
distante refinaria de Mina Abdulla, a umas dezenas de quilómetros ao sul
da cidade do Kuwait. Só em 2006, o Defense Energy Support Center
comprou US$909,3 milhões em combustíveis para motores à
empresa estatal Kuwait Petroleum Corporation. Além do
combustível do Kuwait, os militares americanos transportam em
camião combustível da Turquia. Mas uma parte daquele
combustível turco tem origem em refinarias tão distantes quanto a
Grécia.
Só em 2007, os militares americanos no Iraque queimaram mais de 1,1 mil
milhões de galões (4,2 mil milhões de litros) de
combustível (as Forças Armadas americanas geralmente utilizam uma
mistura de jet fuel conhecida como JP-8 para mover tanto aviões como
automóveis). Cerca de 5500 camiões cisterna estão
envolvidos no esforço iraquiano de transportar combustível. A
frota de camiões é extremamente custosa. Em Novembro de 2006, um
estudo produzido pela U.S. Military Academy estimava que entregar um
galão (3,78 litros) de combustível a soldados americanos no
Iraque custa US$ 42 aos contribuintes americanos e isso não
inclui o custo do próprio combustível. Àquela taxa, cada
soldado americano no Iraque está a custar US$840 por dia em custos para
a entrega de combustível, e os EUA estão a gastar US$923
milhões por semana com a logística relacionada com o
combustível a fim de manter 157 mil soldados no Iraque. Uma vez que a
Guerra do Iraque agora está a custar cerca de US$2,5 mil milhões
por semana, apenas os custos do petróleo representam cerca de um
terço de todas as despesas militares americanas no Iraque.
A ascensão dos custos do combustível são em grande medida
resultado do facto de que as forças americanas foram forçadas a
defenderem-se contra dispositivos explosivos improvisados (improvised explosive
devices, IED). A maioria das baixas americanas no Iraque foi devida a ataques
IED, primariamente ao motor dos veículos. Os militares americanos
gastaram mihares de milhões de dólares em contra-medidas
electrónicas para combater estes dispositivos mortais, mas estas
contra-medidas em grande parte fracassaram. Ao invés disso, as tropas
tiveram de confiar no aço já fora de moda. Desde o
princípio da guerra, o Pentágono introduziu numerosos programas
para acrescentar "peles" blindadas na sua frota de Humvees.
Mas mesmo os Humvees blindados mais novos, que pesam cerca de seis toneladas,
não têm sido suficientes para proteger soldados contra os
explosivos mortais. No ano passado, o Congresso, a Casa Branca e o
Pentágono acordaram um plano de quatro anos para gastar cerca de US$20
mil milhões numa frota de 23 mil veículos resistentes a minas e
com protecção contra emboscadas (mine-resistant ambush protection
vehicles, MRAPs). Em Agosto último o Pentágono encomendou 1520
destes veículos a um custo de US$3,5 milhões cada um.
78,3 LITROS AOS 100 KM
A utilização dos MRAPs significa ainda maior procura por
combustível por parte das tropas americanas no Iraque. Um Humvee
blindado talvez faça 8 milhas por galão (29,37 litros aos 100 km)
de combustível. Uma versão do MRAP, o Maxxpro, pesa cerca de 40
mil libras (18 toneladas) e, segundo uma fonte interna militar, faz 3 milhas
por galão (78,31 litros aos 100 km). A procura acrescida de
combustível provocada pelos MRAPs é acompanhada pela necessidade
de um conjunto inteiramente de pneus, correias de ventoínha,
para-brisas, alternadores e outras coisas.
Este inchaço da logística cria ainda um outro problema para os
militares: um aumento no abastecimento por camiões a circular nas
estradas, o que exige ainda mais combustível e proporciona aos
insurgentes uma maior amplitude de alvos para atacar.
Enquanto os militares americanos perseguem a sua própria cauda
combustível no Iraque, um país que assenta sobre 115 mil
milhões de barris de petróleo cerca de 9,5 por cento do
total mundial a indústria global da energia está a correr
em direcção a novas alianças e acordos, muitos dos quais
teriam sido impensáveis antes da invasão. Tais alianças
tem significado de extremo alcance para a política externa e de energia
da América. O mercado de petróleo mundial já não
é mais moldado pelo poder militar dos EUA. Os mercados estão a
vencer o militarismo. Como disse recentemente um analisa, os dólares
estão a substituir as "balas como modeladores do quadro
geopolítico".
A importância deste ponto é óbvia: quando a efectividade
do militarismo no controle das tendências energéticas globais
está a declinar, os EUA estão a gastar milhares de milhões
de dólares por semana na Mesopotâmia num esforço de guerra
que se John McCain estiver certo poderia drenar o tesouro
americano durante as próximas décadas. Enquanto isso, os rivais
da América, China e Rússia em particular, estão a utilizar
a sua influência para forjar alianças económicas que
estão a realinhar o equilíbrio global de poder. Eles
estão a criar um mundo multi-polar no qual a influência da
América estará substancialmente diminuída.
Este realinhamento é particularmente vantajoso para países que
são grandes exportadores de energia, tais como Rússia, Abu Dhabi,
Arábia Saudita, Qatar e, naturalmente, o Irão. Estes Estados
estão a tirar vantagem dos preços mais elevados da energia
provocados pela sempre crescente procura global de energia e pelo estreitamento
da oferta. Se bem que a administração Bush tenha tentado
diminuir a influência de países como o Irão e a
Rússia, há pouco, se é que alguma coisa, que os EUA possam
fazer para reduzir a tendência. A miríade de contratos para a
exploração e a produção de energia que os iranianos
assinaram nos últimos meses prova este ponto.
Enquanto isso, o mamute russo controlado pelo Estado, a Gazprom, consolidou o
seu poder sobre mercado europeu do gás natural. Acrescente-se o poder
financeiro maciço dos fundos de riqueza soberanos de apenas três
países Abu Dhabi, Arábia Saudita e Kuwait, que possuem
activos conjuntos de US$1,4 milhões de milhões
(trillion)
e a mudança no poder torna-se ainda mais evidente.
Preços mais elevados da energia são a principal diferença
entre a primeira Guerra do Iraque e a segunda, diz Jeff Dieter, director
administrativo da Simmons & Company International, um banco de investimento com
sede em Houston especializado no sector da energia. "É um
resultado completamente diferente do da primeira Guerra do Iraque, o qual foi
realmente uma demonstração de perícias militares. Ela foi
rápida e decisiva, em contraste com a actual situação no
Iraque, que é lenta, cara e tensa".
Os curdos foram rápidos na exploração de novas
oportunidades no mercado do petróleo em rápida
mutação. Em desafio directo ao fraco governo central de Bagdad,
o Governo Regional do Curdistão assinou 15 contratos para a
exploração de petróleo com 20 companhias de 12
países. Aumentar a produção de petróleo beneficia
os curdos. Isto também ajuda a Turquia, a qual prepara-se para recolher
mais rendimentos do pipeline de Kirkuk a Ceyhan, o qual transportará
grande parte da nova produção. Uma companhia norueguesa, DNO
ASA, já construiu um pipeline do seu campo de petróleo de Tawke,
ao norte de Mosul, para um ponto de interconexão imediatamente a seguir
ao pipeline Kirkuk-Ceyhan.
A Addax Petroleum, com sede em Genebra, é outro grande jogador no
Curdistão. Durante uma apresentação numa
conferência sobre petróleo e gás em Connecticut, em
Setembro, o responsável chefe das finanças da companhia, Michael
Ebsary, disse que o potencial das reservas da Addax no Curdistão podem
ser tão grandes quanto 2,7 mil milhões de barris de
petróleo. (O parceiro da Addax no projecto é a Gnerl Enerji, uma
subsidiária do Cukorova Group, um dos maiores conglomerados da Turquia).
"Toda a gente se a região curda como uma área que tem de
ser desenvolvida. Há toneladas de petróleo ali", disse
Ebsary. "Ele tem de ser extraído".
O mesmo se pode dizer quanto ao petróleo e gás iranianos. Uma
das consequências inesperadas da Guerra do Iraque foi fortalecimento da
influência iraniana na região. Só em 2007, os iranianos
assinaram contratos no valor talvez de uns US$50 mil milhões ao
longo das próximas décadas com companhias da
Grã-Bretanha, Espanha, Brasil, China, Áustria, Turquia e
Malásia. Além destes projectos, o governo iraniano ainda
está a negociar formulas de preço para o há muito
discutido e adiado Peace Pipeline, no valor de US$7 mil milhões, com
1600 milhas (2574 km) de condutas para transportar gás iraniano para o
Paquistão e a Índia. Em 2005, Susil Chandra Tripathi, o
secretário do Ministério do Petróleo e do Gás
Natural da Índia, prometeu que o acordo acabaria finalmente iria
concretizar-se. Ele contou-me que os EUA podem "querer isolar o
Irão, mas isso não significava que o Irão deixaria de
produzir petróleo e gás, ou que nós cessássemos de
comprá-lo".
Uma outra indicação da mudança de poder pode ser vista ao
olhar a nova Bolsa de Mercadorias de Dubai (Dubai Mercantile Exchange), que em
Junho último começou a comerciar o Contratos de Futuro do
Petróleo Bruto de Oman (Oman Crude Oil Futures Contract). Ao entrar
dentro do negócio dos futuros de energia, o Dubai está a
assegurar que o petróleo bruto que sai do Golfo Pérsico tem o seu
próprio preço de referência (benchmark) o qual
não está dependente de padrões ocidentais de
petróleo bruto como o West Texas Intermediate e o Brent do Mar do Norte.
Isto também coloca o Dubai em competição com os
tradicionais centros de actividade comercial em Nova York e Londres. Em Julho
de 2006, Gary King, o presidente da bolsa de Dubai, contou-me que a
emergência da bolsa e os novos contratos de futuros indicavam que o Golfo
Pérsico é "o centro da maior província mundial de
hidrocarbonetos. O maior crescimento no consumo de petróleo está
na Ásia-Pacífico. Assim, é natural a mudança no
centro de gravidade. O nosso timing é muito oportuno para estar neste
centro de gravidade".
Esta mudança não pode ser travada ou ignorada. No mundo
multi-polar de hoje, o que predomina são interesses económicos e
não força militar. "Costumava acontecer que o lado com mais
armamento vencia", diz o soldado Wilson, um coronel recentemente reformado
do Marine Corps, que tem escrito muito sobre terrorismo e guerra
assimétrica e passou 15 meses a combater no Iraque. Hoje, diz Wilson,
"o lado com mais armas vai à bancarrota".
Desde a Segunda Guerra Mundial, a América aderiu à ideia de que o
controle do fluxo de petróleo que sai do Golfo Pérsico deve ser
garantido à ponta de de um rifle M-16. Mas o custo daquela abordagem
tem sido incapacitante. Quando os militares americanos prosseguem a sua
ocupação do Iraque com os custos em combustível a
aproximaram-se de US$1000 milhões por semana é
óbvio que os EUA precisam repensar a suposição de que
fontes de energia seguras dependem do militarismo. O tema que emerge no
negócio da energia no século XXI é o aumento do poder dos
mercados. Os EUA podem tanto adaptar-se como seguir no caminho da bancarrota.
[*]
Editor da revista
Energy Tribune.
Seu terceiro livro,
Gusher of Lies: The Dangerous Delusions of "Energy Independence"
, foi publicado a 10 de Março.
O original encontra-se em
http://www.amconmag.com/2008/2008_03_10/cover.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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