Um ponto de vista conservador
Petróleo para a guerra

por Robert Bryce [*]

Napoleão, de forma memorável, disse que um exército marcha sobre o seu estomago. Isso pode ter sido verdade no século XIX. Mas as modernas forças militares americanas marcham a jet-fuel — e muito.

Hoje o soldado médio americano (GI) no Iraque gasta 20,5 galões (77,6 litros) de combustível a cada dia, mais do que o dobro do volume diário consumido pelos soldados americanos no Iraque em 2004. Assim, a fim de defender o terceiro mais rico país do planeta, os militares dos EUA estão a queimar enormes quantidades de petróleo. E quase toda a gota deste combustível é importado para dentro do Iraque. Estas maciças exigências de combustível — mais de 3 milhões de galões (11,4 milhões de litros) por dia para a Operation Iraqi Freedom, segundo o Defense Energy Support Center do Pentágono — são uma razão chave para a ascensão do custo do esforço de guerra.

Historicamente, controlar o petróleo do Iraque foi um factor vital no envolvimento da América naquele país e sempre foi um elemento crucial dos planos da administração Bush para a era pós-Saddam. Naturalmente, não foi assim que a guerra foi vendida ao povo americano. Uns poucos meses antes da invasão, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld declarou que a guerra que se aproximava "nada tem a ver com petróleo, literalmente nada a ver com petróleo". A guerra era necessária, afirmavam seus planeadores, porque Saddam Hussein apoiava o terrorismo e, deixado por verificar, ele desencadearia armas de destruição em massa sobre o Ocidente.

No entanto, o petróleo era o principal foco estratégico para os militares americanos no Iraque. Os primeiros objectivos das forças invasoras incluíam a captura de terminais petrolíferos chave do Iraque e dos seus campos petrolíferos. Em 20 de Março de 2003, a Navy SEAL (seal, air and land) travaram o primeiro combate da guerra quando lançaram uma invasão surpresa dos terminais cargueiros de petróleo de Mina al-Bakr e Khor al-Amaya, no Golfo Pérsico. Umas poucas horas depois, o tenente Therral Childers tornou-se o primeiro soldado americano a morrer em combate na invasão ao combater pelo controle do campo petrolífero de Rumaylah, no sul do Iraque.

O petróleo também foi o primeiro objectivo quando as forças americanas chegaram a Bagdad em 8 de Abril. Embora a Biblioteca Nacional do Iraque, os Arquivos Nacionais e o Museu Nacional de Arqueologia fossem todos saqueados e em alguns casos queimados, o edifício do Ministério do Petróleo mal foi danificado. Isto aconteceu porque um destacamento de soldados americanos e uma meia dúzia de veículos de assalto foram designados para a guarda do ministério e dos seus registos.

Afinal de contas, os arquitectos da guerra haviam prometido que o dinheiro do petróleo haveria de reconstruir o Iraque depois de os militares americanos tomarem o controle. Em Março de 2003, Paul Wolfowitz disse num painel do Congresso: "Os rendimentos do petróleo daquele país poderiam trazer entre US$50 e US$100 mil milhões ao longo dos próximos dois ou três anos. Agora, há um bocado de apetites sobre aquele dinheiro, mas ... estamos a tratar com um país que pode realmente financiar a sua própria reconstrução e relativamente em breve". Tal como Michael Gordon e Bernard Trainor explicaram no seu livro de 2006, Cobra II, "O Pentágono prometeu que a reconstrução do Iraque seria 'auto-financiada', e a preservação da riqueza petrolífera do país era a componente mais bem preparada e provida de recursos do plano de Washington para o pós-guerra".

Após a invasão, quando os inspectores fracassaram na descoberta de quaisquer armas de destruição em massa, Bush e seus apoiantes mudaram a sua estória, afirmando que os EUA haviam invadido o Iraque para difundir a democracia no Médio Oriente. Quando a democracia deixou de se materializar, Bush declarou que os EUA não podiam "tolerar um novo estado terrorista no coração do Médio Oriente com grandes reservas de petróleo que poderiam ser utilizadas para financiar suas ambições radicais ou para infligir danos económicos ao Ocidente".

Contudo, os militares americanos e o novo governo de Bagdad não conseguiram assegurar-se do estilhaçado sector petrolífero iraquiano. Como disse A.F. Alhajii, economista da energia e professor na Universidade de Ohio Norte, "seja quem for que controle o petróleo do Iraque, ele controla o Iraque". Durante os últimos cinco anos nunca foi exactamente claro quem controla o petróleo do Iraque. Disto isto, a principal indústria do país está vagarosamente a aumentar a produção. Em Janeiro, a produção diária atingiu 2,4 milhões de barris por dia, o mais alto nível desde a invasão americana.

Mas a presença da América no Iraque não está a fazer uso das riquezas locais. Na verdade, pouco, se é que algum, petróleo iraquiano está a ser utilizado pelos militares americanos. Na verdade, o grosso do combustível necessário aos militares americanos está a ser transportado por camião da distante refinaria de Mina Abdulla, a umas dezenas de quilómetros ao sul da cidade do Kuwait. Só em 2006, o Defense Energy Support Center comprou US$909,3 milhões em combustíveis para motores à empresa estatal Kuwait Petroleum Corporation. Além do combustível do Kuwait, os militares americanos transportam em camião combustível da Turquia. Mas uma parte daquele combustível turco tem origem em refinarias tão distantes quanto a Grécia.

. Só em 2007, os militares americanos no Iraque queimaram mais de 1,1 mil milhões de galões (4,2 mil milhões de litros) de combustível (as Forças Armadas americanas geralmente utilizam uma mistura de jet fuel conhecida como JP-8 para mover tanto aviões como automóveis). Cerca de 5500 camiões cisterna estão envolvidos no esforço iraquiano de transportar combustível. A frota de camiões é extremamente custosa. Em Novembro de 2006, um estudo produzido pela U.S. Military Academy estimava que entregar um galão (3,78 litros) de combustível a soldados americanos no Iraque custa US$ 42 aos contribuintes americanos — e isso não inclui o custo do próprio combustível. Àquela taxa, cada soldado americano no Iraque está a custar US$840 por dia em custos para a entrega de combustível, e os EUA estão a gastar US$923 milhões por semana com a logística relacionada com o combustível a fim de manter 157 mil soldados no Iraque. Uma vez que a Guerra do Iraque agora está a custar cerca de US$2,5 mil milhões por semana, apenas os custos do petróleo representam cerca de um terço de todas as despesas militares americanas no Iraque.

A ascensão dos custos do combustível são em grande medida resultado do facto de que as forças americanas foram forçadas a defenderem-se contra dispositivos explosivos improvisados (improvised explosive devices, IED). A maioria das baixas americanas no Iraque foi devida a ataques IED, primariamente ao motor dos veículos. Os militares americanos gastaram mihares de milhões de dólares em contra-medidas electrónicas para combater estes dispositivos mortais, mas estas contra-medidas em grande parte fracassaram. Ao invés disso, as tropas tiveram de confiar no aço já fora de moda. Desde o princípio da guerra, o Pentágono introduziu numerosos programas para acrescentar "peles" blindadas na sua frota de Humvees.

MRAP. Mas mesmo os Humvees blindados mais novos, que pesam cerca de seis toneladas, não têm sido suficientes para proteger soldados contra os explosivos mortais. No ano passado, o Congresso, a Casa Branca e o Pentágono acordaram um plano de quatro anos para gastar cerca de US$20 mil milhões numa frota de 23 mil veículos resistentes a minas e com protecção contra emboscadas (mine-resistant ambush protection vehicles, MRAPs). Em Agosto último o Pentágono encomendou 1520 destes veículos a um custo de US$3,5 milhões cada um.

78,3 LITROS AOS 100 KM

A utilização dos MRAPs significa ainda maior procura por combustível por parte das tropas americanas no Iraque. Um Humvee blindado talvez faça 8 milhas por galão (29,37 litros aos 100 km) de combustível. Uma versão do MRAP, o Maxxpro, pesa cerca de 40 mil libras (18 toneladas) e, segundo uma fonte interna militar, faz 3 milhas por galão (78,31 litros aos 100 km). A procura acrescida de combustível provocada pelos MRAPs é acompanhada pela necessidade de um conjunto inteiramente de pneus, correias de ventoínha, para-brisas, alternadores e outras coisas.

Este inchaço da logística cria ainda um outro problema para os militares: um aumento no abastecimento por camiões a circular nas estradas, o que exige ainda mais combustível e proporciona aos insurgentes uma maior amplitude de alvos para atacar.

Enquanto os militares americanos perseguem a sua própria cauda combustível no Iraque, um país que assenta sobre 115 mil milhões de barris de petróleo — cerca de 9,5 por cento do total mundial — a indústria global da energia está a correr em direcção a novas alianças e acordos, muitos dos quais teriam sido impensáveis antes da invasão. Tais alianças tem significado de extremo alcance para a política externa e de energia da América. O mercado de petróleo mundial já não é mais moldado pelo poder militar dos EUA. Os mercados estão a vencer o militarismo. Como disse recentemente um analisa, os dólares estão a substituir as "balas como modeladores do quadro geopolítico".

A importância deste ponto é óbvia: quando a efectividade do militarismo no controle das tendências energéticas globais está a declinar, os EUA estão a gastar milhares de milhões de dólares por semana na Mesopotâmia num esforço de guerra que — se John McCain estiver certo — poderia drenar o tesouro americano durante as próximas décadas. Enquanto isso, os rivais da América, China e Rússia em particular, estão a utilizar a sua influência para forjar alianças económicas que estão a realinhar o equilíbrio global de poder. Eles estão a criar um mundo multi-polar no qual a influência da América estará substancialmente diminuída.

Este realinhamento é particularmente vantajoso para países que são grandes exportadores de energia, tais como Rússia, Abu Dhabi, Arábia Saudita, Qatar e, naturalmente, o Irão. Estes Estados estão a tirar vantagem dos preços mais elevados da energia provocados pela sempre crescente procura global de energia e pelo estreitamento da oferta. Se bem que a administração Bush tenha tentado diminuir a influência de países como o Irão e a Rússia, há pouco, se é que alguma coisa, que os EUA possam fazer para reduzir a tendência. A miríade de contratos para a exploração e a produção de energia que os iranianos assinaram nos últimos meses prova este ponto.

Enquanto isso, o mamute russo controlado pelo Estado, a Gazprom, consolidou o seu poder sobre mercado europeu do gás natural. Acrescente-se o poder financeiro maciço dos fundos de riqueza soberanos de apenas três países — Abu Dhabi, Arábia Saudita e Kuwait, que possuem activos conjuntos de US$1,4 milhões de milhões (trillion) — e a mudança no poder torna-se ainda mais evidente. Preços mais elevados da energia são a principal diferença entre a primeira Guerra do Iraque e a segunda, diz Jeff Dieter, director administrativo da Simmons & Company International, um banco de investimento com sede em Houston especializado no sector da energia. "É um resultado completamente diferente do da primeira Guerra do Iraque, o qual foi realmente uma demonstração de perícias militares. Ela foi rápida e decisiva, em contraste com a actual situação no Iraque, que é lenta, cara e tensa".

Os curdos foram rápidos na exploração de novas oportunidades no mercado do petróleo em rápida mutação. Em desafio directo ao fraco governo central de Bagdad, o Governo Regional do Curdistão assinou 15 contratos para a exploração de petróleo com 20 companhias de 12 países. Aumentar a produção de petróleo beneficia os curdos. Isto também ajuda a Turquia, a qual prepara-se para recolher mais rendimentos do pipeline de Kirkuk a Ceyhan, o qual transportará grande parte da nova produção. Uma companhia norueguesa, DNO ASA, já construiu um pipeline do seu campo de petróleo de Tawke, ao norte de Mosul, para um ponto de interconexão imediatamente a seguir ao pipeline Kirkuk-Ceyhan.

A Addax Petroleum, com sede em Genebra, é outro grande jogador no Curdistão. Durante uma apresentação numa conferência sobre petróleo e gás em Connecticut, em Setembro, o responsável chefe das finanças da companhia, Michael Ebsary, disse que o potencial das reservas da Addax no Curdistão podem ser tão grandes quanto 2,7 mil milhões de barris de petróleo. (O parceiro da Addax no projecto é a Gnerl Enerji, uma subsidiária do Cukorova Group, um dos maiores conglomerados da Turquia). "Toda a gente se a região curda como uma área que tem de ser desenvolvida. Há toneladas de petróleo ali", disse Ebsary. "Ele tem de ser extraído".

O mesmo se pode dizer quanto ao petróleo e gás iranianos. Uma das consequências inesperadas da Guerra do Iraque foi fortalecimento da influência iraniana na região. Só em 2007, os iranianos assinaram contratos — no valor talvez de uns US$50 mil milhões ao longo das próximas décadas — com companhias da Grã-Bretanha, Espanha, Brasil, China, Áustria, Turquia e Malásia. Além destes projectos, o governo iraniano ainda está a negociar formulas de preço para o há muito discutido e adiado Peace Pipeline, no valor de US$7 mil milhões, com 1600 milhas (2574 km) de condutas para transportar gás iraniano para o Paquistão e a Índia. Em 2005, Susil Chandra Tripathi, o secretário do Ministério do Petróleo e do Gás Natural da Índia, prometeu que o acordo acabaria finalmente iria concretizar-se. Ele contou-me que os EUA podem "querer isolar o Irão, mas isso não significava que o Irão deixaria de produzir petróleo e gás, ou que nós cessássemos de comprá-lo".

Uma outra indicação da mudança de poder pode ser vista ao olhar a nova Bolsa de Mercadorias de Dubai (Dubai Mercantile Exchange), que em Junho último começou a comerciar o Contratos de Futuro do Petróleo Bruto de Oman (Oman Crude Oil Futures Contract). Ao entrar dentro do negócio dos futuros de energia, o Dubai está a assegurar que o petróleo bruto que sai do Golfo Pérsico tem o seu próprio preço de referência (benchmark) — o qual não está dependente de padrões ocidentais de petróleo bruto como o West Texas Intermediate e o Brent do Mar do Norte. Isto também coloca o Dubai em competição com os tradicionais centros de actividade comercial em Nova York e Londres. Em Julho de 2006, Gary King, o presidente da bolsa de Dubai, contou-me que a emergência da bolsa e os novos contratos de futuros indicavam que o Golfo Pérsico é "o centro da maior província mundial de hidrocarbonetos. O maior crescimento no consumo de petróleo está na Ásia-Pacífico. Assim, é natural a mudança no centro de gravidade. O nosso timing é muito oportuno para estar neste centro de gravidade".

Esta mudança não pode ser travada ou ignorada. No mundo multi-polar de hoje, o que predomina são interesses económicos e não força militar. "Costumava acontecer que o lado com mais armamento vencia", diz o soldado Wilson, um coronel recentemente reformado do Marine Corps, que tem escrito muito sobre terrorismo e guerra assimétrica e passou 15 meses a combater no Iraque. Hoje, diz Wilson, "o lado com mais armas vai à bancarrota".

Desde a Segunda Guerra Mundial, a América aderiu à ideia de que o controle do fluxo de petróleo que sai do Golfo Pérsico deve ser garantido à ponta de de um rifle M-16. Mas o custo daquela abordagem tem sido incapacitante. Quando os militares americanos prosseguem a sua ocupação do Iraque — com os custos em combustível a aproximaram-se de US$1000 milhões por semana — é óbvio que os EUA precisam repensar a suposição de que fontes de energia seguras dependem do militarismo. O tema que emerge no negócio da energia no século XXI é o aumento do poder dos mercados. Os EUA podem tanto adaptar-se como seguir no caminho da bancarrota.



[*] Editor da revista Energy Tribune.   Seu terceiro livro, Gusher of Lies: The Dangerous Delusions of "Energy Independence" , foi publicado a 10 de Março.

O original encontra-se em http://www.amconmag.com/2008/2008_03_10/cover.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
29/Mar/08