O belicista-mor retrata Trump como um hippie pacifista
O livro de Bolton atirou Trump na lona, mas seu cáustico relato
pode, ao final, levantar o líder caído antes do próximo
round das eleições
por Pepe Escobar
Um belicista profissional se torna o queridinho dos liberais de limusine
só porque está ridicularizando o presidente dos Estados
Unidos.
O labiríntico espetáculo que atualmente se desenrola nos
sacrossantos salões do Império merece ser comparado ao enredo
mais demente do mundo da luta livre profissional já que tudo que
se refere a Donald Trump tem que ser entendido como um acúmulo de
enredos de telecatch. Aqui temos o ex-consultor de segurança nacional
John Bolton no papel de O Coveiro, enquanto Trump tenta brilhar como O Rochedo.
No entanto, quando olhamos em resolução 4 K para a figura da
suposta liderança do governo dos Estados Unidos mais suas
extensões no Beltway, atoladas em um pântano cheio de
víboras traiçoeiras, a luta mais parece uma briga patética
de unhadas e puxões de cabelo.
O consultor da Casa Branca para assuntos de comércio Peter Navarro
um demonizador hidrófobo da China foi quem descreveu
melhor as intenções de John Bolton em seu livro supostamente
revelador, negociado com uma editora por dois milhões de dólares:
a pornovingança do pântano Distrito de Colúmbia.
As memórias de 592 páginas de Bolton, a serem lançadas na
próxima terça-feira, foram convenientemente vazadas pela Simon &
Schuster para o
New York Times
e o
Washington Post,
e um trecho foi publicado pelo
Wall Street Journal.
Bolton escreveu: "Um presidente não pode fazer mau uso dos poderes
legítimos do governo da nação, definindo seus
próprios interesses pessoais como sendo sinônimos do interesse
nacional, nem inventar pretextos para mascarar interesses pessoais sob o
disfarce do interesse nacional".
Um picareta do
New York Times
escreveu: "Mr. Bolton tentou usar seus dezessete meses na Casa Branca
para alcançar objetivos políticos que
eram importantes para ele próprio
[os itálicos são meus], como por exemplo, retirar os Estados
Unidos de uma série de acordos internacionais que ele considerava
falhos, tais como o acordo nuclear com o Irã, o Tratado de Forças
Nucleares de Alcance Intermediário e outros".
Então, um belicista certificado com folha corrida fartamente
documentada pode, impunemente, "alcançar objetivos
políticos importantes para ele mesmo e, ao mesmo tempo, acusar o
Presidente de igualar seus "próprios interesses pessoais com o
interesse nacional".
O que realmente importa aqui para quem se descreve como um jornal factual e
confiável parece ser a singular oportunidade de citar livremente uma
fonte privilegiada cuja exatidão simplesmente não pode ser
checada. O fato de Bolton, como fonte, não ser mais confiável que
um boateiro qualquer do pântano Distrito de Colúmbia? Isso
é convenientemente varrido para baixo do tapete.
O
Washington Post,
de sua parte, gabou-se de que essa é, até o presente momento,
"a dissecção mais substantiva e mais crítica de um
presidente partindo de um integrante do governo", que retrata Trump como
um "comandante em chefe errático e surpreendentemente
desinformado".
O
Post
também confia na palavra de Bolton quando este diz que Trump age com
base em "instinto pessoal" e o descreve como "atuando para a
plateia de um reality show". Pelo menos Bolton parece perceber vagamente o
clima de telecatch que predomina no governo Trump, e percebe também o
óbvio: a única coisa que realmente importa acima de tudo para
Trump é a reeleição.
Onde fica a Finlândia?
Só quem passou os últimos anos trancado dentro de um iglu no Polo
Norte ficaria surpreso em saber que Trump pensa que a Finlândia é
parte da Rússia, não sabe que o Reino Unido é uma
potência nuclear e confunde os nomes de presidentes afegãos.
Afinal, ele é um espelho fiel da ignorância generalizada dos
americanos a respeito do mundo lá fora devidamente alimentada com
o pão e circo da "cultura de celebridade".
O mesmo se aplicaria ao fato de Trump supostamente ter dito que uma
invasão da Venezuela seria "bacana" já que
aquele país, na verdade, "é parte dos Estados Unidos"
e a Trump ter afirmado ao Presidente Xi Jinping que os americanos iam
adorar se ele mudasse a constituição americana para permitir que
ele governasse por mais de dois mandatos.
Aqui, também, o problema é a fonte. Deixemos de lado o fato de
que Bolton é um escritor extremamente medíocre se é
que o livro não foi escrito por um ghostwwriter. Eu o entrevistei anos
atrás em um de seus antros favoritos: a reunião anual da
Comissão de Assuntos Americano-Israelenses, no Distrito de
Colúmbia.
Em pessoa e relativamente relaxado eu não era um jornalista
americano e portanto ele não se sentia ameaçado a figura
de um psicopata se escondendo atrás de sorrisos forçados era
claramente visível. Seu senso de sua própria importância
tinha dimensões intergalácticas.
Então, há também a questão de uma possível
traição. Se Trump de fato cometeu toda essa litania de
"crimes", então por que Bolton não os comunicou ao
Congresso durante o fiasco que foi o impeachment conduzido pelos democratas?
Bem, ele precisava embolsar os dois milhões de dólares da venda
do livro.
Recapitulemos brevemente alguns dos "crimes" de Trump revelados por
Bolton.
Crimes suspeitos
Em uma reunião privada com Xi, na Cúpula do G-20 de junho de
2019, realizada no Japão, Bolton conta que Trump, "então, de
forma chocante, desvia a conversa para as futuras eleições
presidenciais dos Estados Unidos, aludindo à capacidade econômica
da China de afetar campanhas eleitorais e pedindo a Xi que assegurasse sua
vitória. Ele enfatizou a importância dos agricultores, dizendo que
o aumento das compras chinesas de soja e trigo afetaria o resultado das
eleições. Eu publicaria as palavras exatas de Trump, mas o
processo de revisão para republicação de documentos
oficiais decidiu em sentido contrário".
Caso isso seja verdade, temos aí a clássica arte da
negociação de Trump. Como "crime", é
inverificável.
Quanto a Xi ter defendido "a construção pela China de campos
de alojamento para até um milhão de muçulmanos uigur em
Xinjiang, Bolton escreve: "De acordo com nosso intérprete, Trump
disse que Xi deveria levar adiante a construção dos campos, com
os quais Trump concordava plenamente".
Qualquer um que conheça bem os rituais da diplomacia chinesa sabe que a
simples ideia de um presidente da China "confessar" a um presidente
americano detalhes de sua política interna em um caso
ultra-sensível como Xinjiang é ridícula e absurda.
Bolton, pelo menos, reconhece a vacuidade da política do governo em
relação à China: "Tínhamos um bom slogan, que
pedia um 'Indo-Pacífico livre e aberto'. Mas um adesivo de parachoque
não é uma estratégia, e nós fizemos todo o
possível para não sermos sugados pelo buraco negro que são
as questões comerciais Estados Unidos-China.
Quanto à Huawei e à [empresa chinesa de
telecomunicações] ZTE, Bolton se limita a recitar lugares-comuns
sem nenhuma prova: "O objetivo mais importante das 'empresas' chinesas
como a Huawei e a ZTE é o de se infiltrar nos sistemas de
telecomunicações e de tecnologia da informação,
principalmente a 5-G, e submetê-los ao controle chinês".
Sobre o notório toma lá dá cá entre Washington e
Kiev, Bolton conta que Trump "disse não ser favorável a
enviar a eles o que quer que fosse até que todo o material das
investigações russas relacionadas a [Hillary] Clinton e Biden
tivesse sido entregue".
Para a felicidade dos liberais da turma da limusine, Bolton confirma a
lógica do impeachment conduzido pelos democratas, e também do
Ucraniagate o Russiagate, a estas alturas, já havia sido
totalmente desmoralizado
.
Narrando uma conversa telefônica de maio de 2019 entre Trump e o
Presidente Putin, Bolton conta que Putin teria comparado o "líder
da oposição" venezuelana Juan Guaidó a Hillary
Clinton, no que Bolton chama de uma "brilhante exibição de
propaganda ao estilo soviético" para reforçar seu apoio a
Maduro. Putin "em grande medida, conseguiu convencer Trump".
Ah, esses soviéticos malvados.
Segundo o
Washington Post,
"Ao descrever sua experiência na Casa Branca com assuntos ligados
à Rússia, Bolton pinta o quadro de um presidente impulsivo, tosco
e consistentemente contrário a qualquer política norte-americana
destinada a desencorajar a agressão russa e a punir com
sanções o comportamento maligno de Putin".
Repetindo: Bolton pode acusar Trump impunemente, contanto que ele o retrate
como fraco em tudo o que se refira aos mantras do Deep State:
"agressão russa" e "comportamento maligno".
Escrevendo sobre a decisão de Trump, de novembro de 2018, de defender
incondicionalmente MbS, o príncipe-herdeiro da Arábia Saudita,
quanto ao assassinato do colunista do
Washington Post
Jamal Khashoggi, Bolton cita o presidente dizendo que tudo era apenas uma
tática diversionista para esvaziar uma matéria sobre Ivanka Trump
usar seu email pessoal para assuntos do governo dos Estados Unidos: "Isso
vai desviar a atenção de Ivanka. Se eu ler pessoalmente a
declaração, isso irá ofuscar totalmente essa
história sobre Ivanka".
Bem, Bolton não diz nada sobre o que realmente interessa: as conversas
no Whatsapp entre Jared e MbS visando a acelerar negociatas suspeitas no
Oriente Médio.
Chega de guerras
Bolton revela toda a extensão de seu belicismo quando se queixa de que
Trump estava sempre exigindo alguma retirada de tropas do Oriente
Médio, da África, da Europa: "Eu quero sair dessa coisa
toda".
Em algum momento de 2018, discutindo com o Cachorro Louco Mattis, Trump teria
dito a ele que a Rússia deveria cuidar do ISIS/Daesh: "Nos estamos
a sete mil milhas de distância, mas ainda assim somos o alvo. Eles
virão dar em nossas praias. É isso que eles dizem. É um
show de horrores. Em algum momento, teremos que sair".
Sobre o Afeganistão. Trump: "Isso tudo é obra de uma pessoa
estúpida chamada George Bush". E, ainda por cima, Mattis meteu os
pés pelas mãos: "Eu dei tudo o que você pediu.
Autoridade ilimitada, sem regras nem restrições. Você
está perdendo. Você está levando uma surra. Você
fracassou".
Tudo o que foi dito acima é factualmente correto. Trump estava apenas
cumprindo suas promessas de campanha. No entanto, o Deep State passou por cima
da autoridade do presidente, não apenas no Afeganistão, mas
especialmente na Síria. Bolton, é claro, ficou horrorizado e,
além de tudo, não conseguiu nenhuma de suas guerras favoritas
Irã, Venezuela e Coreia do Norte.
Um contrato de publicação de dois milhões de
dólares, é claro, serve para adoçar a
frustração de Bolton por não ter conseguido as guerras que
queria. Trump tuitou que Bolton é um "filhotinho doente". De
fato, o real papel de Bolton era o de um funcionário imperial de baixo
escalão, e apenas por um breve período de tempo. O Deep State
continua conseguindo tudo o que quer de Trump: o Império das Bases
continua intacto; não houve retirada de tropas, nem de terceirizados,
nem de mercenários; e a Rússia, a China e o Irã
consolidaram-se como "ameaças" existenciais.
O "filhotinho doente" é só um dano colateral. Em
seguida vem
Tulsa
onde Trump, em "clima sem lenço sem documento", mais
uma vez terá toda a liberdade para banhar-se na própria
glória.
Amarrando o enredo da luta-livre: e se tudo isso não passar de uma
elaborada encenação, de uma luta combinada? Comparado a um
belicista descartado, o Presidente pode agora emergir do pântano como um
hippie pacifista e moderado, pronto para ser abraçado pelas massas do
voto pendular. Nesse caso, quem está dando uma surra em quem?
21/Junho/2020
O original encontra-se em
asiatimes.com/2020/06/warmonger-paints-trump-a-peacenik/
e a tradução de Patrícia Zimbres em
www.brasil247.com/blog/o-belicista-mor-retrata-trump-como-um-hippie-pacifista
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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