Economia americana:
Requiescat in Pace
por Paul Craig Roberts
[*]
A economia dos EUA continua a morrer lentamente diante dos nossos olhos, mas os
economistas, os decisores políticos e a maior parte do público
estão cegos diante desta cambaleante terra de oportunidades.
Em Agosto os empregos nas indústrias produtoras de bens declinaram em 64
mil. A economia americana perdeu 4000 empregos no total. O sector privado
criou uns meros 24 mil empregos, todos os quais podem ser atribuídos
aos 24.100 novos empregos para empregadas de mesa e barmen. O sector
governamental perdeu 28 mil empregos.
No século XXI a economia americana cessou de criar empregos em
indústrias de exportação e em indústrias que
competem com importações. O crescimento do emprego nos EUA ficou
confinado aos serviços domésticos, principalmente em
serviços alimentares e estabelecimentos de bebidas (empregadas de mesa e
barmen), educação privadas e serviços de saúde
(cuidados de saúdo ambulatórios e serventes de hospital), e
construção (o qual agora afundou). A falta de crescimento do
emprego com produtividade mais alta, ocupações com pagamentos
mais elevados associadas às classes média e alta americana
acabarão finalmente por matar o mercado consumidor dos EUA.
A taxa de desemprego mantem-se firme, mas isto é porque em Agosto
último 340 mil americanos incapazes de encontrar emprego caíram
força de trabalho. Os EUA medem o desemprego apenas entre a
força de trabalho activa, a qual inclui aquele à procura de
postos de trabalho. Aqueles que estão desencorajados e abandonaram a
procura não são contados como desempregados.
Com indústrias produtoras de bens em declínio a longo prazo
quando cada vez mais produção de firmas americanas é
movida para além mar, as profissões de engenharia estão em
declínio. Os empregos administrativos estão limitados
basicamente ao comércio a retalho e serviços financeiros.
Os franchises e as cadeias reduziram as oportunidades para negócios
familiares independentes, e a política de abertura de fronteira do
governo americano nega os trabalhos não qualificados aos membros
deslocados da classe média.
Quando companhias americanas deslocalizam a sua produção para os
mercados americanos, as consequências para a economia dos EUA são
altamente negativas. Uma delas é que o trabalho estrangeiro é
que o trabalho estrangeiro substitui o trabalho americano, resultando num
encolhimento de oportunidades de carreira e crescimento do rendimento nos EUA.
Uma outra é que o Produto Interno Bruto americano é transformado
em importações. Ao transformar marcas americanas em
importações, a deslocalização tem uma
consequência duplamente infeliz sobre o défice comercial dos EUA.
Simultaneamente, as importações ascendem na
proporção da produção deslocalizada, e a oferta de
bens manufacturados declina na mesma proporção.
Os EUA agora tem um défice comercial com todas as partes do mundo. Em
2006 (o dado anual mais recente), os EUA tiveram um défice comercial que
totalizava os US$838.271.000.000.
O défice comercial dos EUA com a Europa foi de US $142.538.000.000. Com
o Canadá o défice foi de US$75.085.000.000. Com a América
Latina de US $112.579.000.000 (dos quais US$67.303.000.000 foi com o
México). O défice com a Ásia e o Pacífico foi de
US $409.765.000.000 (dos quais US$233.087.000.000 foi com a China e
US$90.966.000.000 com o Japão). Com o Médio Oriente o
défice foi de US $36.112.000.000, e com a África de
US$62.192.000.000.
A preocupação pública durante três décadas
com o défice de petróleo dos EUA criou a falsa impressão
entre os americanos de que a auto-suficiência da América é
impedida só pela dependência do petróleo do Médio
Oriente. A verdade é que o défice total dos EUA com a OPEP, uma
organização que inclui muitos países fora do Médio
Oriente, é de US$106.260.000.000, ou cerca de um oitavo do défice
comercial anual americano.
Além disso, os EUA obtêm a maior parte do seu petróleo fora
do Médio Oriente, e o défice comercial americano reflecte este
facto. O défice americano com a Nigéria, o México e a
Venezuela é 3,3 vezes maior do que o défice comercial com o
Médio Oriente apesar do facto de que os EUA venda mais à
Venezuela e 18 vezes mais ao México do que à Arábia
Saudita.
O que é impressionante acerca da dependência dos EUA das
importações é que diz respeito praticamente a tudo. O
montante da dependência dos americanos em relação às
importações de alimentos e bebidas estrangeiras é de
US$8.975.000.000.
Os americanos estão igualmente dependentes de importações
de bens e equipamentos industriais estrangeiros em US$326.459.000.000
mais de três vezes a dependência da OPEP.
Os americanos já não podem proporcionar o seu próprio
transporte. Estão dependentes de importações de
veículos automotivos, peças e montarem no montante de
US$149.4999.000.000, ou seja, 1,5 vezes mais do que a dependência em
relação à OPEP.
Além da dependência automóvel, os americanos são 3,4
vezes mais dependentes nas importações de bens de consumo
duráveis e não duráveis do que o são em
relação à OPEP. Os americanos já não podem
produzir o seu próprio vestuário, sapatos ou
electrodomésticos e têm um défice comercial em bens de
consumo manufacturados de US$336.118.000.000.
O "superpoder" americano tem um défice até mesmo em
bens de capital, incluindo maquinaria, equipamento de produção
eléctrica, máquinas-ferramenta, computadores e equipamentos de
telecomunicações.
O que quer dizer os EUA terem um défice comercial de US$800 mil
milhões?
Quer dizer que os americanos estão a consumir US$800 mil milhões
a mais do que aquilo que estão a produzir.
Como é que os americanos pagam por isso?
Pagam-no abandonando a propriedade de stocks de activos existentes, de
títulos, companhias, imóveis, commodities. A América
costumava ser um país credor. Agora a América é um
país devedor. Os estrangeiros possuem US$2,5 milhões de
milhões de activos americanos do que os americanos possuem de activos
estrangeiros. Quando estrangeiros adquirem a propriedade de activos
americanos, eles também adquirem a propriedade dos futuros fluxos de
rendimentos que estes activos produzem. Mais rendimentos afastam-se dos
americanos.
Por quanto tempo os americanos podem consumir mais do que produzem? O
super-consumo americano pode continuar por quanto tempo os americanos puderem
descobrir meios para aprofundar o seu endividamento pessoal a fim de financiar
o seu consumo e enquanto o dólar americano puder permanecer como a
divisa de reserva mundial.
O século XXI não trouxe aos americanos (excepto aos
administradores-presidentes, administradores de hedge funds e banqueiros de
investimento) qualquer crescimento real na mediana do rendimento familiar. Os
americanos aumentaram o seu consumo deixando cair sua taxa de poupança
para o nível da depressão de 1933 quando havia desemprego
maciço e isto através de gastos com o seus home equity e
cartões de crédito. A capacidade de uma população,
severamente afectada pela perda de bons empregos para estrangeiros devido
à deslocalização e vistos de trabalho H-1B e pelo
arrebentamento da bolha imobiliária, de continuar a acumular mais
dívida pessoal é no mínimo limitada.
Os estrangeiros aceitam dólares americanos em troca dos seus bens e
serviços reais, porque os dólares podem ser utilizados para
saldar todas as contas internacionais do país. Ao incidir um
défice comercial, os EUA asseguram o financiamento do défice
orçamental do seu governo quando os excedentes de dólares em
mãos estrangeiras são investidos em Títulos do Tesouro
americano e outros activos denominados em dólares.
A capacidade do dólar americano de manter o seu estatuto de divisa de
reservas está a desgastar-se devido aos contínuos americanos dos
défices orçamental e comercial dos EUA. Hoje o mundo está
literalmente inundado com dólares. Em tentativas de reduzir a taxas a
que estão a acumular dólares, governos estrangeiros e
investidores estão a diversificar com outras divisas negociáveis.
Em resultado, os preços dos dólares em euro, libra inglesa,
dólar canadiano, baht da Tailândia e outras divisas tem estado a
aumentar. No século XXI, o dólar americano declinou cerca de 33
por cento contra outras divisas. O dólar americano permanece a divisa
de reserva primariamente devido ao hábito e à falta de uma
alternativa clara.
Os dados utilizados neste artigo estão disponíveis gratuitamente.
Podem ser encontrados em dois sítios oficiais do governo americano:
www.bea.gov/international/bp_web/simple.cfm?anon=71&table_id=20&area_id=3
e
www.bls.gov/news.release/empsit.t14.htm
.
Os dados relativos ao emprego e à ausência de crescimento no
rendimento real da maior parte da população são
inconsistentes com relatórios do PIB e do crescimento da produtividade
dos EUA. Economistas toam como garantido que a força de trabalho
é paga consoante a sua produtividade. Uma ascensão na
produtividade traduz-se então numa ascensão no rendimento real
dos trabalhadores. Contudo, temos tido anos de relatados fortes crescimentos
da produtividade mas rendimentos das famílias estagnados ou em
declínio. E de certo modo o PIB está a ascender, mas não
os rendimentos da força de trabalho.
Alguma coisa aqui está errada. Ou os dados indicando produtividade e o
crescimento do PIB estão errados ou Karl Marx estava certo [ao afirmar]
que o capitalismo funciona para concentrar rendimento nas mãos de poucos
capitalistas. Pode-se apresentar uma justificação para ambas as
explicações.
Recentemente a economista Susan Houseman descobriu que a confiabilidade de
algumas estatísticas económicas dos EUA foi prejudicada pela
deslocalização. Houseman descobriu que reduções de
custos obtidas pelas firmas americanas que comutam para a
produção no exterior estão a ser erradamente calculadas
como crescimento do PIB nos EUA e que ganhos de produtividade obtidos pelas
firmas americanas quando elas transferem o desenho, investigação
e o desenvolvimento para o exterior são mostrados como aumentos na
produtividade americana. Obviamente, a produção e a
produtividade que se verificam no exterior não são parte da
economia interna dos EUA.
A descoberta de Houseman classificou-se como matéria de capa da
Business Week
de 18 de Junho último, mas o seu importante achado parece que já
se desvaneceu no buraco da memória. A profissão das C.
Económicas supercomprometeu-se com os "benefícios" da
deslocalização, do globalismo e da não existente
"Nova Economia". A descoberta de Houseman é uma ameaça
demasiado grande para os economistas do capital humano, para a
gratificações corporativas à investigação e
para a ideologia do mercado livre.
Os media portanto deixaram a notícia cair, porque na década de
1990 a administração Clinton e o Congresso permitiram a umas
poucas mega-corporações concentrarem nas suas mãos a
propriedade dos media dos EUA, cujas reportagens estão consonância
com os interesses corporativos e governamentais.
A situação para Marx é que a deslocalização
promoveu os rendimentos das corporações através da
redução dos custos do trabalho, concentrando dessa forma o
crescimento do rendimento nos proprietários e administradores do
capital. Segundo a revista
Forbes,
os 20 principais ganhadores entre administradores de private equity e hedge
funds estão a obter uma compensação anual média de
US$657.500.000, com quatro a obterem realmente mais de US$ 1 mil milhão
por ano. Os ainda assim excessivos pagamentos médios anuais de
US$36.400.000 dos 20 principais ganhadores entre os Chief Executive Officers
(CEOs) de companhias de propriedade pública parecem reles em
comparação. As perspectivas de carreiras e financeiras de muitos
americanos foram destruídas para que fossem alcançados estes
grandiosos rendimentos para uns poucos.
O orgulho arrogante impede a percepção de que os americanos
estão a perder o seu futuro económico juntamente com as suas
liberdades civis, e de que estão à beira da servidão.
12/Setembro/2007
[*]
Ex-secretário do Tesouro assistente na administração
Reagan. Foi editor associado da página editorial do
Wall Street Journal
e editor colaborador da
National Review.
É co-autor de
The Tyranny of Good Intentions
. Email:
PaulCraigRoberts@yahoo.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/roberts09122007.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|