por
El Tiempo
(editorial)
Víctor Sánchez Rincones, fotógrafo colombiano a
serviço de uma revista espanhola, na semana passada foi vítima de
uma agressão brutal em Madrid. Aos gritos de "Sudacas de m...,
fora da Espanha!", mais de cem jovens espanhóis atacaram,
pisotearam e sovaram Sánchez quando cobria o funeral de um madrilenho
assassinado a punhaladas pelo membro dominicano de um bando. A partir daquela
tarde, muitos habitantes do bairro Villaverde, uma zona conflituosa de classe
baixa, estão em pé de guerra contra os imigrantes. E apesar de
uma manifestação posterior ter condenado toda violência e
recusado a xenofobia, o episódio constitui um sinal de alarme acerca de
uma situação que poderia generalizar-se.
Este foi o mais grave, mas não o único, caso de repúdio
aos estrangeiros que se apresentou naquela que Sánchez e milhões
de outros latino-americanos chamam Mãe Pátria. A
situação deve-se a várias causas. Para começar,
que a Espanha, exportadora de nacionais há mais de cinco séculos,
pela primeira vez modifica a sua condição de nação
imigrante pela de país receptor. Nos últimos lustros
estabeleceram-se no seu território mais de um milhão de
estrangeiros, a maioria vindos à procura de trabalho. Exigiram-se
três processos de regularização de indocumentados a fim de
vincular centenas de milhares de pessoas à vida normal. O
último, terminado domingo passado, permitiu retirar das clandestinidade
700 mil imigrantes. Mesmo assim, a Espanha continua a ser um dos países
com a mais baixa porcentagem de estrangeiros na Europa: 3 por cento, em
contraste com a França (5), Bélgica (20) e Alemanha (24). Muitos
cidadãos nacionais, entretanto, não se habituam [à ideia]
de que o mundo é mais amplo do que Castilla e receiam aqueles que
revelam outra pronúncia ou cor de pele. Mentes primitivas costumam
generalizar a todos as faltas ou os delitos de uns poucos, e negam-se a
reconhecer que a maioria dos imigrantes trabalha de forma eficaz, silenciosa e
muitas vezes subvalorizada.
Cabe aos últimos governos a responsabilidade por este estado de coisas.
O conservador, com José María Aznar à testa, deixou
crescer o problema da marginalidade imigrante se proporcionar
soluções. E o socialista de José Luís
Rodríguez Zapatero enfrentou com realismo a situação e
estendeu papeis aos ilegais, mas assume uma atitude defensiva e tímida
frente aos seus próprios actos. Limitou-se a justificar a
imigração a partir de uma perspectiva neoliberal, mostrando
números sobre o robustecimento da segurança social e dos impostos
graças à legalização dos trabalhadores. Mas
não explica aos cidadãos da Espanha país
mestiço desde a sua origem mais remota que a
imigração é antropologicamente positiva, que incorporar
gentes de outras culturas enriquece a sociedade e que várias cidades
ibéricas são hoje mais atraentes e variadas graças
à mistura de vozes, cores, comidas e perspectivas vitais que trazem os
imigrantes. Deveria reiterar-lhes, além disso, que sem este sangue novo
um país demograficamente estancado não poderá no futuro
sustentar os seus aposentados, dentre os quais contar-se-ão esses jovens
energúmenos que hoje golpeiam estrangeiros.
Domingo, no campo do Real Madrid, um gigantesco cartaz pendurado por
vândalos rancorosos fomentava o ódio contra os latino-americanos.
"Estão a invadir-nos", dizia. Os estádios
converteram-se em focos de racismo. É o momento de alguém
recordar a estes amnésicos que os "invasores" não
estão fazendo outra coisa senão regressar à terra dos seus
antepassados, do seu sangue e da sua língua. Respondem assim a um nexo
de mais de três séculos de domínio ibérico na
América. A Espanha deve actuar rapidamente e com inteligência
contra os germens racistas e xenófobos nessa terra que sempre foi
acolhedora e generosa.
13/Maio/2005
O original encontra-se em
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Este artigo encontra-se em
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