Catalunha: nacionalismo burguês, ressurgências franquistas
por Andres B. Alonso
Domingo, 1 de Outubro, o governo regional da Catalunha (região com mais
de 8 milhões de habitantes a mais rica da Espanha) convocou os
catalães a votarem pela independência. O Estado central espanhol
havia decretado este referendo ilegal. Semanas antes o presidente do governo
espanhol, Mariano Rajoy, havia afirmado que esta votação
não iria se realizar. Sua promessa materializou-se na mesma manhã
pela intervenção do conjunto das forças da polícia
(polícia nacional e "Guardia Civil"), que desalojaram com
grande violência os ocupantes dos locais de votação.
A intransigência de um discípulo do franquismo
Jovens, pais de alunos, trabalhadores e reformados haviam ocupado desde
sexta-feira à noite as escolas onde se previa ter lugar o referendo. Os
polícias saíram à força a golpes de cassetete. Ao
assim fazer, Mariano Rajoy continua a erigir-se em bom discípulo de
Franco, resolvendo os diferendos nacionais atacando com a polícia.
A expressão nacionalista dos interesses da burguesia catalã
O movimento independentista catalão, apoiando-se numa língua e
numa cultura catalãs vizinhas mas diferentes das de Castilha, existe
hás vários séculos. O movimento independentista e
nacionalista modernos assumiu suas formas no século XIX, quando a
Catalunha se tornou um dos três principais pólos industriais da
Espanha.
Os interesses da burguesia industrial catalã desenvolveram-se num
sentido diferente dos interesses da burguesia rentista de Madrid. Foi esta
divergência que provocou o nascimento do movimento nacionalista que
perdurou ao longo do século XX. A repressão primária de
Franco contra a língua e a cultura catalãs alimentaram-na.
Após a morte de Franco, este movimento político assumiu uma outra
forma. O advento da democracia espanhola levou a uma
descentralização do Estado. À semelhança dos
nacionalistas do País Basco, a burguesia catalã considerou que
podia obter mais privilégios, em relação a outras
regiões do país, organizando-se como força política
nacionalista. Assim, a partir de uma justificação cultural, duas
organizações nacionalistas principais constituíram-se nos
anos 70: a CDC (Convergência Democrática da Catalunha, tornada
PDeCAT em 2016), de direita, e a ERC ("Esquerra Republicana de
Cataluña", esquerda republicana da Catalunha).
Catalunha: nacionalismo burguês, ressurgências franquistas
Estes grupos políticos são uma alavanca para a burguesia
catalã a fim fazer pressão sobre o governo espanhol. Eles
mostraram-se eficazes aquando da negociação dos financiamentos
regionais. Eles também permitiram fazer ceder o governo socialista de
Zapatero, em 2006, com um estatuto de autonomia ainda mais importante,
reconhecendo entre outras coisas, a Catalunha como uma nação,
estatuto que será invalidado em 2010. Em 2011, a chegada ao poder da
direita de Mariano Rajoy marcou o fim de toda negociação tendo em
vista mais autonomia à Catalunha. As partes entraram num impasse.
O contexto do espectáculo de Puigdemont e Junqueras (dirigentes
nacionalistas catalães)
O nacionalismo catalão sempre foi "sábio" na Espanha.
Pelo menos em comparação com o nacionalismo basco, mais
mediático, mais polarizado e violento com a ETA, durante o último
quartel do século XX. Os nacionalistas catalães, pela sua parte,
permaneceram em bons termos com os partidos espanhóis. Em 1996 eles
permitiram, nomeadamente, com os votos dos seus deputados no Parlamento, eleger
o chefe da direita do PP da época, José Maria Aznar, como
presidente do governo.
Mas a situação se precipita quando, em 2010-2011, a direita
nacionalista catalã (a CDC) consegue êxitos eleitorais,
aproveitando-se do afundamento dos socialistas do PSOE. Ela captura o governo
regional e várias municipalidades de Barcelona. Tudo isso num contexto
de profunda crise económica ao nível do país. A partir de
2011-2012, a região e as municipalidades devem aplicar cortes
orçamentais enormes. Elas cortam nomeadamente na educação
e na saúde, geridas, na Espanha, inteiramente pelas regiões.
Emergem movimentos de contestação muito amplos para tentar travar
estas políticas que provocam a cólera de todos os trabalhadores
da Espanha.
Para salvar a sua situação política, a direita
nacionalista pôs-se a agitar mais fortemente do que nunca a bandeira da
independência: um diversionismo destinado aos trabalhadores da Catalunha
que tão duramente atingiu com suas políticas anti-populares.
Seguiu-se uma consulta sobre o futuro político da Catalunha em 2014, por
iniciativa do presidente nacionalista do CDC, Artur Mas, a perguntar se a
Catalunha devia ser independente. Esta consulta desencadeará a
invalidação política de Mas por Madrid. No entanto, o
movimento independentista estava lançado. Nas eleições
regionais de 201, a direita nacionalista conseguiu ganhar o apoio de esquerda
nacionalista sob a bandeira do "sim" à independência.
Elas ganham as eleições e a direita e a esquerda formam em
conjunto um governo graças ao apoio da extrema-esquerda independentista
da CUP. Esta vitória eleitoral está na origem do referendo de 1
de Outubro de 2017, ressuscitando o espectro político da
independência da Catalunha.
Combater a divisão dos trabalhadores
Assim, a actualidade política da Espanha dos últimos meses foi
polarizada no referendo na Catalunha. Ela permitiu evacuar questões
fundamentais e graves da vida política espanhola, como a baixa dos
salários, a precarização do emprego, a subida do
desemprego após o Verão, os problemas decorrentes do turismo de
mas (sociais, ambientais, ...), o futuro bloqueado para a juventude, etc.
Além disso, este diversionismo serve para lançar os trabalhadores
uns contra outros, para ressuscitar a extrema-direita que vê claramente
ameaçada a divisa franquista ("Una, grande y libre").
12/Outubro/2017
PS de Bernard Gensaner:
Em 15 de Outubro de 1940 morria Lluís Companys. Ele fora presidente da
Generalitat da Catalunha desde 1934. Exilado na Bretanha após a Guerra
Civil espanhola, foi entregue ao regime franquista pela Gestapo, torturado e
executado em Montjuic. Na época de Companys, a direita catalã era
amplamente hostil a toda forma de autonomia.
Conheci o filho de Companys, Emmanuel, quando eu ensinava em Vincennes no
princípio dos anos 70. Ele era professor de didáctica e de
aprendizagem de línguas. Era um homem e um colega extremamente
simpático, profundamente marcado pelo drama familiar que havia vivido na
sua infância. BG
Ver também:
Independência e auto-determinação: Armas para a construção do império ou para a libertação nacional?
"Indépendance" de la Catalogne : derrière les apparences, quels enjeux cachés ?
O original encontra-se em
www.legrandsoir.info/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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