A traição

por Juan Torres López

Imaginemos que por qualquer das nossas fronteiras penetrassem uns quantos batalhões de tanques destruindo na sua passagem fábricas e edifícios de empresas, hospitais, escolas... e todo tipo de instalações e inclusive provocando danos pessoais a milhares de indivíduos.

O que pensaríamos se o governo, ao invés de tratar de travá-los dispondo frente a eles os militares que juraram defender sempre a integridade da Pátria, se submetesse aos seus diktats e permitisse que continuassem a destruir a nossa riqueza?

Sem dúvida, creio, nós o condenaríamos como criminoso e o povo teria então todo o direito de se levantar contra ele e impor outro fiel à Nação e não traidor dos interesses dos seus cidadãos.

Salvaguardando as distâncias, isso é o que se tem passado há meses, não só desde que Rajoy é presidente do governo.

Não nos enganemos. Todo o mundo sabe que são interesses estrangeiros e alguns nacionais espúrios que estão a impor medidas que destroem nossa riqueza. Só uma ingenuidade infinita pode fazer crer que essas medidas são o resultado do exercício livre do nosso poder soberano como Nação. Por muito que se dissimule, como faz o ministro de Guindos , quando diz que são tomadas "por convicção", é muito evidente que respondem a uma extorsão continuada de especuladores que chegou a ser qualificada, com toda a razão, como "terrorismo financeiro" pelo presidente da Junta da Andaluzia. Ex presidentes europeu nada suspeitos como Delors, Schmidt, Santer... reconheceram que são os mercados financeiros os que nos governam. E o próprio Rajoy declarava há dias que nem a ele nem aos seus ministros lhe agradavam os orçamentos que apresentaram.

É uma evidência: nossa Nação está a ser submetida a um ataque sem misericórdia a partir do exterior que vem produzindo um dano gigantesco. O Inspector da Fazenda, Interventor e Auditor do Estado Agustín Turiel acaba de demonstrar que a dívida ilegítima que o Estado espanhol suporta (excluindo a das Comunidades Autónomas e Entidade Locais) em consequência de ter que enfrentar compromissos derivados das políticas que lhe são impostas pelo "mercados" é nada mais nada menos que 120.842 milhões de euros. Uma quantia fabulosa à qual haveria que acrescentar a do custo incalculável que produz a perda de milhões de postos de trabalho, a destruição de milhares de empresas e dos património de outros milhares de empresários e trabalhadores em consequência também das reformas sucessivas e dos cortes de gasto associados às políticas mal chamadas de austeridade e de apoio à banca que os mercados impõem.

Nada, nenhum país, nenhum exército, nenhum general, nenhum governo, nenhum ser humano tem a garantia de ganhar todas as batalhas que se lhe deparam mas todos eles têm a obrigação de travá-las quando ele mesmo ou a Nação que representa é atacada e ferida. E é traidor quem em lugar de servi-la submete-se simplesmente a que a ataca e destrói e que em lugar de defender a sua população submete-a a sacrifícios severos e desnecessários para satisfazer àqueles que só desejam vencê-la para aumentar as suas riquezas à sua custa.

Os governos da Espanha, tanto o anterior como o actual, tiveram e têm diante de si uma dupla opção, a da dignidade ou a da rendição covarde. E estão a optar por esta última para simples satisfação dos bancos e dos grandes capitais. Nosso governo poderia dar um soco na mesa da Europa e gritar com firmeza "Já basta!" e afirmar com força que já chega de imposições absurdas que estão a condenar toda a Europa a um dramático futuro de depressão e mal-estar. A Espanha não é uma partícula de pó na União Europeia e poderia fazer valer com êxito a sua presença, entre outras coisas porque seus interesses coincidem com os de outros muitos sócios. Nosso governo poderia reclamar que o Banco Central Europeu actue como um autêntico banco central e garanta o financiamento aos Estados e à economia sem submeter os governos, os cidadãos e as empresas que criam emprego à escravidão insensata dos bancos que provocaram crise e que se mostram incapazes de cumprir a função que lhe cabe. Poderiam exigir um programa pan-europeu de estímulo e, enfim, as soluções alternativas que até os próprios peritos liberais estão começando a pedir perante a insensatez das autoridades europeias, presas do poder financeiro, e que permitiram fazer frente com mais fortuna ao abismo perante o qual nos encontramos.

Em lugar disso, como disse, continuam a preferir obedecer aos poderosos e sacrificar os interesses nacionais inclusive da maneira tão vergonhosa e tosca com que anunciaram o corte adicional de 10.000 milhões de euros em serviços essenciais de saúde e educação, apenas uma semana depois de haver apresentado os Orçamentos ditados pelos especuladores.

Não é lícito que o governo de Rajoy se ponha arrogante diante de outro país para defender uma multinacional tão pouco exemplar como a Repsol e que na realidade tem muito pouco de espanhola para fazer crer que tem dignidade e fortaleza. Não. O governo espanhol deve-se por firme, como exige a Constituição, para defender o Estado e não os interesses particulares, por poderosos que sejam.

Renunciar a defender a Espanha e limitar-se a dar como bons os cortes e as reformas que impõem os mercados para que se encham o bolsos dos grandes proprietários de capital, dos banqueiros e dos especuladores à custa de sacrifícios cada dia maiores para a imensa maioria dos espanhóis, como vem ocorrendo, é trair a Pátria que dizem amar e estar dispostos a defender até o último suspiro... mas parece que só arvorando bandeiras e com a boca pequena.

13/Abril/2012

O original encontra-se em http://juantorreslopez.com/impertinencias/la-traicion/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
15/Abr/12