Basta de falsas ilusões!
A "revolução" da pequena burguesia
Na sempre complicada gestão das alternativas políticas num mundo
em convulsão e em crise, são muitos os fenómenos que se
mostram sob um aspeto bem diferente do que é a sua verdadeira realidade.
Trataremos neste texto desmascarar algumas das verdadeiras identidades desses
movimentos emergentes que se apresentam como a alternativa necessária
à ordem dominante, mas que no essencial reivindicam um falso movimento
aparente que não altera em nada as bases materiais desta ordem que, eles
mesmos, reconhecem como profundamente injusta.
Indo mais fundo, como se de um palimpsesto se tratasse, no seu programa
permanentemente alterado e nos seus frágeis princípios
modificados à força das declarações dos seus
líderes, tentando conseguir alguma identidade real de suas propostas e
objetivos, chegamos rapidamente à conclusão de que a sua
verdadeira tarefa histórica se limita ao que tão claramente
define o filósofo e membro de Podemos, Santiago Alba Rico, ao afirmar
numa entrevista recente que
"faz falta uma revolução, uma revolução que
não acabará com todas as fontes de opressão e
alienação, mas que nos permitirá ser, finalmente, algumas
vezes reformistas e quase sempre conservadores".
Uma definição magistral que, além de marcar os limites
reais da sua proposta política, evidencia com meridiana clareza o seu
caráter de classe. Uma pequena e média burguesia não
oligárquica, condenada à extinção num acelerado e
progressivo processo de concentração capitalista e que, sofrendo
na própria pele a multiplicidade de contradições sociais
que um capitalismo decadente cria e agrava, pondo em causa a própria
existência da vida no Planeta, trata de menosprezar a História e
negar as necessidades do capitalismo para continuar a reproduzir-se como
sistema hegemónico. Um capitalismo com rosto humano, de livre
concorrência, onde os monopólios se verguem às necessidades
dos lojistas e comissionistas e em que estes, em benefício da
convivência entre cidadãos brancos e iguais, cedam parte dos seus
lucros, através de impostos progressivos diretos, para que se mantenham
uns bons serviços sociais e doações significativas para as
ONG para, com isso, tentar conter a onda de famintos que nos destroem o
bem-estar burguês e a patriarcal mesa familiar de domingo, com o facto de
saltarem a cerca de Melilla ou de se afogarem no Mediterrâneo. Idealismo
interessado que, em concorrência direta com as necessidades
históricas da classe que tudo produz, é aproveitado e/ou
originado pela inteligência do sistema para se perpetuar, reproduzindo
ilusões de alternativa social real e possível à margem da
acumulação progressiva de forças na luta de classes e da
tomada do poder pela classe operária.
O Podemos é isto, esta nova social-democracia que temos vindo a analisar
e que, com seu omnipresente círculo roxo, tanto nos faz lembrar as
famosas revoluções coloridas que, desde a Geórgia
até à Venezuela, passando pela Bielorrússia e a
Ucrânia, refletiram a estratégia do imperialismo nas chamadas
primaveras árabes, nas quais, com diferenças significativas entre
o que aconteceu no Egito, Tunísia, Líbia e Síria, ao fim e
ao cabo foi o povo que sofreu os mortos, enquanto o imperialismo saiu
reforçado na sua posição geoestratégica. Uma
tática impossível, com um percurso tão curto como o dos
seus irmãos gregos, negociando com a Comissão Europeia e o BCE, e
que, para sobreviverem, mais cedo que tarde, terão de assumir as
estratégias da oligarquia e do imperialismo para poderem manter-se como
alternância possível dentro do sistema.
Na tese defendida por Esteban Hernández no seu livro
O fim da classe média
e resumida pelo próprio Alba Rico em que esta, a classe média,
se converte num obstáculo económico e ideológico para o
desenvolvimento do capitalismo e que a esquerda é obrigada a considerar
e orientar com cariz libertador, no caráter "resistente" e
"conservador" desta classe média, que já não
serve para nada, encontra-se a mãe ideológica desta corrente
política que transita por todo o mundo ganhando adeptos à mesma
velocidade com que aumenta a sua presença nos ecrãs de
televisão e a desideologização do movimento
operário e das suas organizações políticas e
sindicais.
São estas as chaves mestras para o debate que hoje deveria ser a
conversa de qualquer ativista anticapitalista; e é à
discussão destas chaves mestras que os e as comunistas convidam toda a
nossa classe e os outros setores populares, para se iniciar uma autêntica
contra-ofensiva contra o sistema que, para garantir a sua
reprodução, nos sonega tudo o que ganhámos pela luta. Este
quadro, que não contempla atalhos e que, sem dúvida, é
difícil e requer compromissos, é o único que nos
permitirá avançar no caminho da verdadeira
libertação social e o único capaz de incorporar todos os
embates colaterais que se expressam nesta sociedade, como fonte global da
Revolução e sustentáculos da principal
contradição entre o capital e o trabalho.
É por isto que, se consideramos que as ideias só se constituem
como força no momento em que penetram nas massas, temos de definir como
tarefa urgente dotar o movimento comunista internacional com a capacidade de
incorporar o projeto de luta pelo Socialismo e pelo poder operário e
popular em largas camadas da população objetivamente prejudicadas
pelo capitalismo na sua fase atual de desenvolvimento (imperialismo). Objetivo
que nos impele, na hora de intervir publicamente, a ultrapassar os nossos
próprios limites e, desde a defesa do nosso programa consequentemente
revolucionário, desenvolver uma tática que se sintonize
plenamente com o interesse humano geral (objetivamente anticapitalista) e
alcançar, assim, a incorporação real da classe
operária e dos setores populares na tarefa revolucionária, porque
a identificam com a defesa consequente das suas necessidades e interesses
concretos. Isto não tem nada a ver com o confusionismo
programático reformista, que, oferecendo novas e constantes
oportunidades ao sistema, apela aos trabalhadores e ao povo a que tomem parte
no projeto coletivo de gente que, sem sombra de dúvida, dirige
taticamente a pequena e média burguesia no imediato, mas norteiam e
definem estrategicamente o imperialismo e os grandes monopólios.
Obama, Syriza, Podemos, Hollande, Dilma, Maidan, Tahrir, Altamira, Homs,
Benghazi, cada qual com as suas características próprias,
dependendo do papel previamente planificado que o povo deveria desempenhar
(enchendo praças, derrubando sátrapas obsoletos, mudando governos
nas urnas, provocando golpes de estado ou pegando em armas), unem as suas vozes
sob o mesmo grito interclassista de
Yes We Can
para reformar o sistema e melhorar as condições de vida de toda
a "gente". Seria um bonito sonho não fosse o caso de no
capitalismo, em crise, a realidade nos demonstrar de imediato os limites das
reformas e obrigar cada um a desempenhar o papel atribuído, sem se
afastar um milímetro do previsto.
Desde 1789 que nas ruas da França revolucionária o povo encheu as
praças de cadáveres para levar a então burguesia emergente
no poder; já foram muitas as experiências, bem como os mortos, que
o povo trabalhador deu para benefício último da burguesia.
Acabemos com esta espiral destrutiva, na qual se instalaram todos os derrotados
que não concebem a possibilidade de, seguindo o caminho aberto pela
Comuna e confirmado em 1917, tomar o céu de assalto e levar a classe
operária ao Poder, com a missão histórica de destruir este
sistema e, sob as suas cinzas, construir o novo e verdadeiro paradigma
emancipador e libertador que tão urgentemente a Humanidade precisa.
Combatamos a nova social-democracia.
31/Março/2015
[*]
Do Partido Comunista dos Povos de Espanha (PCPE)
O original encontra-se em
www.unidadylucha.es/...
e a versão em português em
www.pelosocialismo.net
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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