Estado de alarme e desviacionismo "progressista": travão
à luta de classes
por Ernesto Martín
Na realidade, não escapam a quase ninguém as terríveis
consequências laborais e sociais da recessão que se avizinha. De
fato, ainda não voltamos à "nova normalidade" e
já começam a se suceder as demissões massivas. Trata-se de
toda uma engenharia patronal para ficar com as ajudas recebidas e reduzir o
número de empregados das unidades fabris e, sobretudo, para reduzir os
direitos trabalhistas dos empregados que restem.
Se alguém pensava que o choque que estamos vivendo faria com que
até os apologistas da "economia de mercado" trocassem de
credo, já pode ir mudando de ideia. Em vez disso temos os escribas do
patronato editorializando que a saída está nas mãos da
iniciativa privada empresarial
, a qual deve antes ser
salva ou resgatada
previamente
pelo público.
E em paralelo, nada de proteger o trabalhador através do Estado, pois
o "que as empresas necessitam agora é mais flexibilidade
laboral"
[1]
, como nos ensina um tal de Íñigo Sagardoy, homem que sabe bem o
que necessitam os patrões-clientes do seu escritório de
advocacia, e que além disso é um catedrático na
matéria.
Assim, o livre mercado só é receitado para a força de
trabalho. Quanto à detestada intervenção estatal, esta
passa a ser objeto de culto se for para assegurar, de qualquer forma que seja,
o lucro empresarial e também para garantir a
"distância (repressiva) de classe". Aqueles que acreditavam que
o neoliberalismo vinha para acabar com o Estado agora poderiam decidir mudar de
ideias se não tiveram tempo para fazê-lo em 2008, quando estourou
o primeira grande terramoto da crise capitalista no próprio centro do
sistema.
Mas os escritórios de advocados não poderão salvar a todos
os clientes de alto nível. Pois os Estados também serão
utilizados para proteger o "meu" mercado e comer "o teu".
Assim vemos, para dar um exemplo, os grandes da UE salvando literalmente os
altos voos das suas companhias aéreas (o caso da Lufthansa). E quanto ao
Estado francês, vemo-lo todo indignado porque o Estado espanhol joga com
uma desescalada expressa a fim de "roubar" a sua clientela
nationale.
Então, se o que está acontecendo agora são navalhadas
para assegurarem-se lucros ao nível de economia produtiva de bens e
serviços, será que vamos acreditar, para além dos
anúncios propagandísticos contraditórios, que serão
solidários em compartilhar dívidas e que o endividamento
forçado dos países mais periféricos (também dentro
da UE) não vão se converter em arma de conquista, como aconteceu
já na Grécia, em meio a um "salve-se quem puder" e de
uma concorrência cada vez mais feroz?
Temos de ser totalmente claros ao expressar nossa convicção de
que a recessão brutal que se perfila da qual se vinha avisando e
que o ditoso coronavírus não fez nada senão acelerar e
agravar apenas deixa margens para concessões ao campo popular
caso não se adote uma política realmente contrária ao
capital e aos ditames da UE.
Há cada vez menos espaço político para as
situações intermediárias preconizadas a partir de
posições reformistas.
Um dos últimos a alertar sobre este cenário de "descida aos
infernos" foi o próprio governador do Banco da Espanha, que falava
da necessidade de um pacto político que fosse além de
várias legislaturas. Às declarações de Pablo
Hernández de Cos seguiu-se a ministra Calviño (que tem o
coração compartilhado entre o Executivo de Bruxelas e esses
"grandes da Espanha" que, não nos enganemos, não se
reduzem à "gente bem"), assegurando
"que começarão a fazer planos a médio prazo assim que
a Espanha passe à 'fase' econômica"
seguinte
[2]
: que Deus tenha piedade de nós.
Nesse pacto político de Estado o único papel que as classes
dominantes poderiam aceitar dos reformistas é o de
anestesista da mobilização popular.
E as únicas concessões que poderiam admitir, num primeiro
momento, são aquelas capazes de apagar o fogo da raiva dos
miseráveis, como começou a advertir a mesmíssima Ayuso,
presidente da municipalidade de uma Madrid que é campeã em
"filas de fome". Por certo que não apenas ela teme que a
distância social se transforme violentamente numa
aproximação traumática de classe. Assim, para não
irmos tão longe, até o catedrático anteriormente
mencionado, apologista da flexibilização trabalhista, defende o
rendimento mínimo! Pois é preciso "
evitar a todo custo a exclusão social
". Claro que esse rendimento mínimo deve estar "
centrado em vinculá-lo à busca ativa de emprego
"; ou seja, o rendimento deve ser a minimamente necessário (em
quantidade e tempo) para sufocar de antemão qualquer rescaldo de
indignação ativa ou até que o seu Estado-policial dê
garantias de assegurar-lhes a sua tranquilidade parasitária.
O caso é que não faltam, nas classes dominantes, quem peça
por uma ou outra medida assistencialista ante o medo de verdadeiros
explosões de insurreição. Não em vão, algo
sabem de história e conhecem que a paralisia social pode se transformar
muito rápido uma vez desencadeadas chispas aqui e ali e
não apenas em solo pátrio, como estão advertindo
relatórios dos serviços de inteligência de diversos
países.
Aludimos que a crise é de tal profundidade que não pode deixar de
provocar tensões e brigas a nível da própria UE. Mas elas
igualmente se produzem na "arena nacional". Tensões que se
dão também por acúmulo de poder político real,
coisa importante no momento de assegurar as intervenções estatais
necessárias para garantir os "meus" negócios (antes que
os dos outros). E tensões que igualmente se adentram no estrito campo da
institucionalidade política, isto é, para se repartir poder de
decisão e privilégios dentro do regime de 78. Efetivamente, a
situação é de tal calibre que o mesmo corpo social
está inclinado a se descontrolar, exacerbando-se a luta entre suas
expressões políticas.
Temos advertido que o patronato tem até posições
governamentais "progressistas", ainda que no fundo não deixam
de agradecer seu trabalho de contenção e não estamos
tão seguros de que pensem que os
dobermans
das várias direitas fossem fazer melhor em gerir as filas da fome e,
sobretudo, em controlar que elas não se desalinhem. É insensato
pensar que as grandes fortunas preferem em
petit comité
um governo "progre" que no fim não deixa de estar
constantemente se autolimitando (incluso em suas posses) pelo ladrar daquela
matilha? É precisamente esse trabalho de contenção
"da rua" a carta com que mais que nada joga a ala uni-podemita
(Unidos-Podemos) para tomar lugar num tabuleiro que, como dissemos, é
impossível que não se agite ante os estreitamentos das margens de
manobra deixadas pela ditadura de fato do grande capital, não só
estatal como internacional.
O certo é que, em relação a resolver de forma consistente
as problemáticas sociotrabalhistas que afetam a uma imensa "maioria
social", nada mais longe dos interesses dessa maioria seria entrar no jogo
politiqueiro. O que conta realmente é
colocar a perspectiva do poder.
Tudo o que nos afaste disso é de fato reacionário no sentido
estrito do termo. Nesse aspecto, é uma tarefa militante de primeira
ordem a contribuição para o aprofundamento da luta de classes e,
em consequência, a mobilização que, como mantemos na nossa
organização, é a fonte ativa principal de
conscientização prática de grandes setores, como um
caldeirão para forjar a necessária unidade combativa.
Pois bem,
dois são os obstáculos de envergadura
que
nesta tessitura histórica
encontramos nessa perspectiva de conscientização, de
mobilização e unidade. Por um lado,
o estado de alarme
ou os sucedâneos que nos querem decretar à sua medida. Por outro,
o desviacionismo
de nossas reivindicações que pretende substituir a luta contra o
sistema no seu conjunto começando por identificar os que
detêm o poder real pela luta entre as direitas e uma ala progre
que de fato aspira, não a derrubar o regime de 78, e sim a inserir-se
nele. Evidentemente pretende inserir-se nele com a conversa de dar uma rebocada
na fachada institucional que antes de ser feita já escorre a umidade
podre do estábulo imundo que a crise sistêmica reservou para o
nosso país.
O que está em jogo é nossa independência de classe. A
verdadeira luta que nos interessa desenvolver aqui é a de classes
perante a situação herdada e aquilo que se avizinha. A respeito,
qual é o panorama em que nos encontramos no que se refere ao ativismo
social realmente existente, esse que se forjou em boa medida ou que recebeu
novo vigor na década passada?
Sejamos novamente claros sobre isso. Sabemos que para garantir ao menos um
primeiro impulso de mobilização, se requer que haja um ativismo
social e político avançado que atue a partir dessa
independência de classe e a preserve. Essa independência de classe
inclui, hoje, não estar alinhado com a agenda do governo progre, sobre
tudo com a dos recém-chegado "das praças". A
constituição deste governo progre está desempenhando um
verdadeiro papel de anestesista, para continuar empregando a expressão
que utilizamos acima. E essa falta de independência a respeito da agenda
progre-governamental começa por se refletir já na
falta de unidade dentro do ativismo realmente existente para impulsionar as
mobilizações que timidamente começam a verificar-se.
Referimo-nos principalmente a que parte das cúpulas deste ativismo vem
tecendo interesses eleitoreiros com as "forças de
mudança" institucionais (e por isso governamentais) que,
além do mais, tem se dividido em várias famílias.
Inclusive não falta nesse ativismo aqueles que pretendem reforçar
a dose de nossa anestesia com o argumento da fragilidade da
posição podemita no governo ante a agressividade dos do "
vivan las caenas"
; uma fragilidade que, pelo visto, estaríamos convocados a opor-nos
sendo cuidadosos nas nossas exigências e na nossa prática
mobilizadora. Dessa forma, há dentro desse ativismo orgânico
aqueles que só veem no horizonte justificação para se
mobilizar caso seja de forma calculada e quando as "forças de
mudança" nos peçam ajuda para manter sua
posição institucional ameaçada.
Não é a primeira vez no nosso país que acontece
substituirem-nos a luta contra o sistema no seu conjunto por
reclamações vindas de dentro do regime de 78 para nos envolver em
disputas internas. Vale a pena que nos detenhamos um pouco nisso.
Comecemos por reparar no que já ocorreu no próprio parto do dito
regime pouco depois da morte de Franco. Aquele parto se confrontou contra as
ruas que pediam a ruptura, obrigando-nos a nos contentar com uma mera reforma
da ditadura invocando o medo a alguns setores do franquismo que haviam se
bunkerizado
e juravam vingança (e, de fato, a exerciam) ante o cadáver ainda
fresco de seu "salvador da Espanha". Foi assim que começou a
Transição.
Primeiro marco da utilização da "ameaça dos
fascistas"
para chegar a acordos com eles.
A Transição culminaria "de repente" de modo oficial,
anos mais tarde, reforçando ainda mais seus aspectos de
transição entre os reformistas e, por outro lado, o aparato da
ditadura e os que se aproveitaram do "triunfo nacional" em 39 para
fazer seus negócios oligárquicos. Seria um tal de Tejero quem
fizera crível o medo que havia de ter ao "ruído de
sabres" que vinha soando desde anos atrás. Estávamos ante a
segunda edição da utilização da ameaça da
ultradireita;
desta vez, para terminar de parir o regime de 78, que se estabilizaria nada
menos que da mão de um governo socialista que fez, em matéria de
regressão trabalhista, o que desde logo não poderiam ter feito
nem um Fraga nem um Suárez com as ruas ainda quentes. Depois se
comprovou que tampouco Felipe González repugnava os conluios com os
golpistas. A verdade é que estabilizou o regime por um bom punhado de
anos sem fraquejar e, se era preciso, frequentemente utilizando as mesmas
cloacas com as quais "lhe obrigaram" a contemporizar.
Finalmente, quando três décadas mais tarde a crise sistêmica
brindou particularmente no Estado espanhol a oportunidade de questionar
(novamente) o regime de 78, e incluso "produziu" aqueles que
asseguravam que
podiam
fazê-lo, resultou que no final esses também mudam de rumo e o que
nos pedem é que lhes ajudemos a renovar o verniz do ex-desonrado regime,
obviamente desde dentro. Mas não nos deixemos enganar: não
é que se esqueceram que não são casta; não,
"é que repare como estão estes do Vox e a democracia
está em perigo
".
Terceira edição do medo ultra.
Dessa vez se utiliza o medo ultra até para que entrem com efeito
retroativo no quadro do regime de 78 aqueles que não o fizeram
décadas atrás.
Será a terceira não-vencida? Pois dependerá de nos
convencermos de que não temos nada a perder
salvo nossas derrotas
anteriores.
Desde já, hoje o cenário é bem distinto para impulsionar
réplicas dos Pactos da Moncloa. Ainda que este assunto da
comparação histórica em relação aos intentos
de elaborar pactos dessa índole mereça uma análise mais
precisa, limitemo-nos agora a pontuar que em sua primeira edição,
por volta de 1978, a Espanha se encontrava em uma situação de
atraso estrutural muito particular e ainda havia uma margem para
integrá-la ao mercado comum europeu, enquanto atualmente o
cenário de crise é compartilhado a nível internacional e a
Espanha é objeto de partilha em meio a uma grande concorrência
entre grupos de poder que não podem deixar de se deslocar para a
própria "classe política".
É certo que nessa linha já avançaram um Acordo Social que,
desde a área do movimento obreiro de nossa organização,
tem se caracterizado como uma ferramenta para a "nossa
submissão" . Desde logo que a esse respeito se impõem
sinalizar o caráter timorato das medidas de apoio social (em
relação a brutal degradação que já
está se manifestando e, sobre tudo, se se compara com as que
estão tomando para salvar os capitalistas) e de sua falta de
aplicação real. Ainda que em nosso acompanhamento
pedagógico do povo não nos oporemos "a
princípio" a qualquer medida "de alívio", mas
colocaremos em evidência a quantidade de setores que estão em
completo abandono trabalhista e social. Pensemos nos setores mais precarizados
incluindo os da economia informal (entre eles, os milhões de
trabalhadores das terceirizadas industriais, os imigrantes no campo, as
centenas de milhares que trabalham no serviço doméstico). E,
acima de tudo, desde um ponto de vista estratégico do impulso da luta de
classes, se torna primário se opor a utilização
política dessas medidas a fim de obstaculizar a acumulação
de forças importantes que se necessita para resistir a bateria de cortes
que está à espreita.
Uma bateria de cortes que está destinada, tal como temos
avançado, a esvaziar o conteúdo das próprias medidas que
estão concedendo agora, o que refletiria o caráter desmobilizador
das mesmas nessa tessitura histórica. E a questão do (não
perder) tempo na luta de classes é vital. Quem disse que essas medidas
não serão inúteis tendo em vista que se desaproveitou um
tempo precioso para se organizar no interesse de responder mais eficazmente aos
ataques que virão do conjunto, e até de partes, do sistema?
Por isso, concluamos dizendo que o mais inteligente é não
abandonar em nenhum momento uma posição revolucionária
integral. Esta passa por:
Exigir medidas urgentes, muito mais amplas, e mobilizar-se nesse sentido
para consegui-las e as manter.
Desmascarar o estado policial de alarme ou suas consequências ou
sucedâneos que impeçam a mobilização requerida.
E promover em todas as lutas o lema orientador supremo de
"salvam-se eles ou nós". Não há
conciliação possível. Ou se salva os grandes
monopólios financeiros e empresariais ou se salva o povo
[4]
, na mais que provável perspectiva de fortíssimos cortes, de uma
dívida em disparada, de uma emergência social alarmante e de uma
degradação (mais outra) do mercado trabalhista.
Para isso urge reativar a mobilização social sem truques
trapaceiros que valham. Somente assim será possível que a
terceira seja a (nossa) vitória.
[1]
www.expansion.com/economia/2020/05/26/5ecc3862e5fdea56408b45bf.html
[2]
www.eleconomista.es/...
[3]
redroja.net/comunicados/el-acuerdo-social-en-defensa-de-la-sumision/
[4]
redroja.net/comunicados/hacia-un-frente-de-salvacion-popular/
O original encontra-se em
redroja.net/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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