Carros para a elite
Veículos eléctricos, o fetiche de Obama
Imagine um presidente americano que durante uma conferência de imprensa
exaltasse a importância de carros fabricados pela Mercedes Benz ou pela
BMW. A reacção, em particular na Fox New, é facilmente
imaginada: ultrajados gritos de "elitista" e
"insensibilidade" persistiriam durante dias ou mesmo meses
após.
Isso, basicamente, foi exactamente o que fez o presidente Barack Obama
quarta-feira última. Obama reconheceu o abalo colossal que os democratas
tiveram nas eleições de 2 de Novembro e prosseguiu para discutir
a necessidade de mais veículos totalmente eléctricos, dizendo em
certa altura:
"Há bastante acordo quanto à necessidade de assegurar que os carros eléctricos sejam desenvolvidos aqui nos Estados Unidos"
.
Óptimo. Tanto a Mercedes como a BMW fabricam carros nos EUA. Mas aqui
há dois pontos essenciais: Cada um destes fabricantes de
automóveis controla aproximadamente a mesma percentagem do mercado
interno de carros que os analistas da indústria automobilística
acreditam que terão os carros eléctricos em 2020. Segundo, e
talvez mais importante: as mesmas pessoas que compram Mercedes e BMWs os
ricos são aquelas que mais provavelmente comprarão um novo
carro eléctrico.
O fetichismo do veículo eléctrico reflecte muito da inanidade das
nossas discussões acerca da energia. A ideia de que petróleo
é mau e que devemos portanto lançar vastas somas de dinheiro em
esforços destinados a alimentar a nossa frota automobilística com
alguma outra coisa qualquer coisa ignora tanto as realidades
económicas como a miríade de problemas inerentes aos
veículos eléctricos (VEs).
Primeiro, as realidades económicas. No princípio deste ano, a
Deloitte Consulting divulgou um
relatório sobre VEs
o qual revelava que
a mais parte dos prováveis compradores são pessoas com
rendimentos familiares "de mais de US$200 mil " e "que já
possuem um ou mais veículos". Além disso, a Deloitte espera
que tais compradores estarão "concentrados em torno da
Califórnia do Sul onde o tempo e a infraestrutura facilitam a posse de
VEs".
A Deloitte concluía que os EUA têm agora cerca de 1,3
milhão de consumidores que se "ajustam aos perfis
demográficos e psicográficos" dos esperados compradores de
VEs. E prosseguia dizendo que a adopção em massa dos VEs
"será gradual" e que em 2020 talvez 2 por cento do mercado de
carros dos EUA poderia estar receptivo aos VEs. O relatório
também diz que as chaves para "a adopção em massa
são 1) redução no preço; e 2) uma experiência
de condução em que o VE seja equivalente ao motor de
combustão interna".
Pense acerca destes números. Dos 300 milhões de americanos,
talvez 1,3 milhão deles com muitos dos quais a viverem em
áreas em torno de Los Angeles e San Diego seja provável
que comprem um VE.
As projecções da Deloitte são exactamente as mesmas que
avançou recentemente a Johnson Controls Inc, uma companhia que fabrica
baterias para carros e está a construir duas novas fábricas a fim
de abastecer o mercado do VE. No mês passado, o
Wall Street Journal
informava que a investigação da Johnson Controls "descobriu
que o conjunto dos clientes dos EUA para os quais um carro eléctrico tem
sentido financeiro aqueles que viajam muitas milhas por ano, mas em
viagens curtas é muito pequeno,
cerca de três por cento dos condutores
".
Hummm. Três por cento dos condutores? Em 2009 e 2010,
a Mercedes e a BMW, cada uma, controlavam cerca de 2 por cento do mercado automobilístico dos EUA
.
Por que os VEs serão brinquedos para os ricos? A resposta é
simples: a história dos VEs é um século de fracasso
após fracasso. Considere esta citação: Em 1911, o
New York Times
declarou que o carro eléctrico "foi há muito reconhecido
como a solução ideal" porque "é mais limpo e
mais silencioso" e "muito mais económico" do que carros
alimentados a gasolina.
Todas as vezes que ouvir acerca das maravilhas do novo Chevrolet Volt
híbrido-eléctrico, o qual a US$41 mil por unidade
custa o mesmo que o novo Mercedes-Benz C350
, considere esta avaliação de um
repórter crédulo: "Os preços dos carros
eléctricos continuarão a cair até estarem ao alcance da
família média". Esta linha apareceu no
Washington Post
no Halloween, 1915.
E desde que o Volt está a ser construído pela GM, pondere esta
pequena notícia declarando que aquele fabricante havia descoberto
"um avanço revolucionários em baterias" que "agora
tornam os carros eléctricos comercialmente práticos". As
baterias proporcionarão a "autonomia de 100 milhas [161 km] que os
executivos da General Motors acreditam ser necessária para vender com
êxito veículos eléctricos para o público". Esse
artigo foi publicado no
Washington Post
em 26 de Setembro de 1979.
O problema hoje é o mesmo de 1911, 1915 e 1979: a densidade de energia
insignificante das baterias. Numa base gravimétrica, a gasolina tem 80
vezes a densidade de energia das melhores baterias de iões de
lítio. Naturalmente, os apoiantes do carro eléctrico
imediatamente retorquirão que os motores eléctricos são
cerca de quatro vezes mais eficientes do que os motores de combustão
interna. Mas mesmo com esta vantagem de quatro vezes em eficiência, a
gasolina ainda terá 20 vezes a densidade de energia de baterias. E isso
é uma vantagem essencial quando se trata de automóveis, em que
peso, espaço de armazenagem, e naturalmente a autonomia, são
considerações críticas.
Apesar da longa história de fracassos do automóvel inteiramente
eléctrico, apesar do facto de que os VEs provavelmente serão
apenas jóias nas garagens dos ricos, a administração Obama
está a proporcionar mais de US$20 milhões de subsídios
[NR]
e isenções ficais para o desenvolvimento e a
produção de carros que utilizam electricidade ao invés de
refinados de petróleo.
Na verdade, a administração continua a desperdiçar
dinheiro com VEs apesar de um
relatório de Janeiro de 2009 publicado pelo Office of Vehicle Technologies do Departamento da Energia
(DOE), o qual
afirma que apesar dos enormes investimentos feitos em veículos
híbridos-eléctricos de ligar na tomada
(plug-in)
e em baterias de iões de lítio, quatro barreiras chave barram o
caminho da sua comercialização: custo, desempenho,
tolerância ao mau uso e tempo de vida. O problema chave, segundo os
analistas do DOE, era como seria de esperar o sistema da bateria.
O relatório concluía que baterias baseadas no lítio,
às quais considera "a química mais prometedora",
são três a cinco vezes mais caras, falta-lhes densidade de energia
e "não são intrinsecamente tolerante a
condições de uso abusivas".
Recordam de quando Barack Obama, como candidato presidencial, repreendia a
administração Bush por não dar atenção
à ciência? Em Dezembro de 2008, logo após ser eleito para a
Casa Branca, ele declarou: "É tempo de colocarmos outra vez a
ciência no topo da nossa agenda e trabalharmos para restaurar o lugar da
América como o líder mundial em ciência e tecnologia".
Restaurar a liderança da América em ciência e tecnologia
é um objectivo meritório. Mas com a tentativa de escolher
vencedores no negócio do carro comprovadamente a mais competitiva
indústria do mundo a administração Obama
está a esquecer a história e a panóplia de problemas que
tem mantido os VEs na garagem desde os dias de Thomas Edison. Já
é tempo de desligar esta indústria subsídio-dependente e
deixar o mercado livre actuar.
11/Novembro/2010
[NR] Em Portugal, o governo do sr. Sócrates oferece 25 milhões de
euros do dinheiro dos contribuintes para o financiamento de VEs. O programa
Mobi-E estabelece que serão dados 5000 euros a cada uma das primeiras
5000
compras de VEs.
[*]
Autor de
Power Hungry: The Myths of "Green" Energy and the Real Fuels of the Future
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/bryce11112010.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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