Maximizar a renda petroleira
por Alejandro Nadal
Depois da queda de Tenochtitlán, uma enorme frustração se
apossou da tropa espanhola. O ouro e outras riquezas que haviam podido reunir
não chegavam para aplacar a sua cobiça. Durante meses os
espanhóis suspeitaram que o ouro dos mexicanos havia sido escondido ou
lançado na laguna. Era preciso realizar explorações em
águas profundas para encontrá-lo.
A narrativa de Bernal Díaz del Castillo é reveladora: os
funcionários da Real Hacienda, e especialmente o tesoureiro
Julián de Alderete, desconfiavam tanto de Cortés como de
Cuauhtémoc. Por isso pressionaram para que se aplicasse o
suplício ao imperador caído e a Tetlepanquetzal, senhor de
Tacuba, cujos pés foram molhados em azeite fervente e em seguida
colocados directamente no fogo. Conta Díaz del Castillo que
Cuauhtémoc resistiu e nem a tortura pôde arrancar-lhe a
localização do tesouro dos mexicanos. Seu estoicismo
converteu-se em lenda.
Mas a cobiça de Juan de Alderete ganhou nova vida, empenhado como
está o governo em sacar sumo às jazidas de hidrocarbonetos. A
prova está no diagnóstico sobre a Petróleos Mexicanos
(Pemex) da Secretaria de Energia (Sener). Ali se diz que "a
administração das reservas é um elemento crucial para
manter os níveis de produção e maximizar a renda
petroleira ao longo do tempo".
De onde tiraram Calderón e companhia o conceito de "renda
petroleira"? É uma pergunta obrigatória porque não
se encontra na legislação federal. A lei regulamentar do artigo
27 constitucional no ramo do petróleo assinala que a indústria
petrolífera é de utilidade pública, isso é tudo. E
a Lei Orgânica da Petroleos Mexicanos estabelece que esta empresa
"tem por objecto exercer a condução central e a
direcção estratégica de todas as actividades que abrange a
indústria petrolífera estatal nos termos da lei regulamentar do
artigo 27 constitucional no ramo do petróleo". É claro: a
noção de renda petroleira não é um conceito legal.
Mas se a noção de renda petroleira não existe na
legislação de maior hierarquia nesta matéria, que sentido
tem a sua maximização? Em 1931 Harold Hotelling publicou um
simples modelo matemático para analisar taxas de
exploração de recursos naturais não renováveis. Em
síntese, o modelo diz que se os preços do recursos não
aumentarem, os dos da jazida maximizariam sua renda aplicando a maior taxa de
extracção possível a fim de depositar seu dinheiro num
banco (supondo uma taxa de juros constante).
Certa vez Hotelling disse que a sua regra não era para explicar o mundo
real. É lastimável que os economistas de várias
administrações da Pemex não o tenham ouvido. Desde
há anos a exploração de hidrocarbonetos no México
parece comportar-se tal como assinala o modelozinho de Hotelling, apesar de que
no mundo real a tecnologia, o acervo de reservas a nível mundial e os
preços terem estado a experimentar mudanças significativas.
O mais importante é que a regra de Hotelling torna-se não
manejável ao expandir-se a trilha tempo-reservas-preços. Por
isso é melhor abandonar a visão estreita de maximizar uma renda
petroleira e pensar em como utilizar o recurso de maneira inteligente. Talvez
isso seja pedir muito aos funcionários federais. Ao invés de
pensar em optimizar fluxos financeiros dever-se-ia ter desenvolvido uma maior
capacidade de refinação e ter-se-ia levantado a
petroquímica, apoiando-se na Pemex, para construir uma base industrial
no sector de bens de capital e uma capacidade tecnológica
endógena. Isso, claro, teria exigido uma política
energética, industrial e tecnológica lúcida.
Ai, não, isso nem que o mande Deus, clamam os novos Alderetes:
há que maximizar a renda petroleira. Sua limitada visão
financeira impede-os de pensar como economistas. Para eles, a
função da Pemex não é para uma estratégia de
desenvolvimento e sim para pagar onerosos passivos que só beneficiaram
um punhado de corruptos.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/04/09/index.php?section=opinion&article=025a1eco
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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