Plano Estratégico de Transportes
A terapia da cura por emagrecimento
por João Cerqueira
O Plano Estratégico de Transportes (PET) apresentado pelo governo
procura encontrar respostas a um sector cujas empresas públicas
apresentam défices crónicos e um endividamento galopante,
submetendo-se também às imposições do Memorando de
Entendimento assinado com a Troika. Contudo, no domínio do planeamento
estratégico do sector é mais um documento onde transparece o
vazio de ideias e de soluções credíveis.
O Plano Estratégico de Transportes estabelece os princípios
orientadores do governo para este sector no decurso da actual legislatura.
Embora este fale dum vasto programa de reformas estruturais a concretizar no
período de 2011-2015, tendo em vista tornar o sector financeiramente
equilibrado, alavancar a competitividade, o desenvolvimento económico e
assegurar a mobilidade e acessibilidade a pessoas e bens, o PET não
passa duma manta de retalhos, com cortes cegos, enviesado por uma ideologia
primata e economicista, onde o processo de reestruturação das
empresas passa apenas por fusões e pela exploração dos
serviços de transporte público de passageiros aberto à
voragem de menos de meia dúzia de grandes operadores nacionais e
internacionais.
Numa análise transversal, o PET com os seus actuais contornos pode por
em risco, não só um serviço público capaz de
satisfazer as necessidades de mobilidade dos cidadãos, mas também
desafiar a sua capacidade económica de poder continuar a pagar este
mesmo serviço.
Confrontadas com uma dívida acumulada superior a 17 mil milhões
de euros, dificuldades de acesso ao crédito e graves riscos de
sustentabilidade financeira, as empresas estatais de transportes
públicos enfrentam hoje um conjunto de desafios altamente
comprometedores. Porém, até o mais inocente dos cidadãos
ficará verdadeiramente arrepiado durante uma leitura mais ou menos
interessada do Plano do governo. O vazio de ideias, o espírito saneador,
o dedo acusatório sempre em riste e os rasgos ideológicos
impregnados dum dogmatismo salazarento, são bem capazes de revolver as
entranhas ao mais incauto dos leitores, para além de nada de bom
deixarem antever em qualquer ponto do horizonte.
Mais penoso ainda é ouvir a forma como o secretário de Estado das
Obras Públicas, Transportes e Comunicações tem defendido o
PET nos mais diversos actos públicos. A voz trémula e raivosa, as
faces enrubescidas, os olhos esbugalhados, a postura castrense, os mesmos
slogans repetidos vezes sem conta até à exaustão. É
um ser verdadeiramente anacrónico, faz-nos viajar no tempo, regressar
aos anos trinta do século passado, aos episódios da juventude
hitleriana, às películas a preto e branco. Mas será mesmo
que só há dois caminhos. O da redenção e o da
desgraça?
Mas como o estilo de cada um é como o de cada qual, debrucemo-nos sobre
o documento e o que nele de mais significativo o governo se propõe fazer
e porquê. Em jeito de diagnóstico, é apontado às
empresas de infra-estruturas e transportes do Estado défices de
exploração elevados, uma dívida acumulada de grandes
proporções que gera pesados encargos com juros e numerosos riscos
associados aos encargos futuros. Logo, urge dimensionar os sistemas de
transporte dentro das capacidades financeiras do país, descentralizando
parte da actual organização dos sistemas de transportes
públicos para as autarquias, alienando também a favor dos
privados os serviços e trajectos mais lucrativos. Quanto aos
serviços e rotas de maior prejuízo, uns são para acabar e
outros para continuar a ser suportados pelo Estado. Na calha também
estão algumas privatizações.
São igualmente previsíveis despedimentos nas empresas de
transportes públicos terrestres e da infra-estrutura ferroviária,
uma vez que o documento defende que estes subsectores se encontram
sobredimensionados em matéria de quadros de pessoal.
Abrir caminhos à operação dos privados
Na Área Metropolitana de Lisboa é proposta a fusão da
Carris com o Metro de Lisboa, dando origem à Empresa de Transportes de
Lisboa, processo esse que já está em curso, e também da
Transtejo com a Soflusa, mantendo-se a denominação Transtejo.
À Carris é apontado um passivo acumulado de 938 milhões de
euros e capitais próprios negativos de 776 milhões de euros, o
que fez com que em 2010 os encargos financeiros com a dívida ascendessem
aos 30 milhões de euros. No relatório e contas de 2010, o Metro
de Lisboa apresentava um passivo acumulado de 1.179 milhões de euros,
capitais próprios negativos de 658 milhões de euros e encargos
financeiros com juros de dívida a atingirem 52 milhões de euros.
Quanto ao transporte público entre as duas margens do Tejo, é
apontado ao Grupo Transtejo um passivo de 190 milhões de euros e
encargos com juros na casa dos 4,7 milhões de euros. Sabe-se que os
franceses do Grupo Veolia Transdev já manifestaram publicamente
interesse na exploração dos serviços fluviais assegurados
pela Transtejo e pela Soflusa, tendo estabelecido para o efeito um memorando de
entendimento com o Grupo ETE, que prevê uma comparticipação
fifty/fifty. Pretendem igualmente integrar nesta concessão o
serviço da CP entre o Barreiro e Setúbal. Mas como é
prática habitual nestas empresas, a possibilidade de negócio fica
logo à partida condicionada a que o Estado assuma na totalidade o
passivo do Grupo Transtejo. Pressupõe-se que sejam mantidas rendas como
as habituais indemnizações compensatórias.
Na Área Metropolitana do Porto é igualmente proposta a
fusão da Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) com o Metro
do Porto, dando origem à Empresa de Transportes do Porto.
A STCP apresenta um passivo de 390 milhões de euros e capitais
próprios negativos em 276 milhões de euros, enquanto o Metro do
Porto regista um passivo de 3.436 milhões de euros e capitais
próprios negativos da ordem dos 1.158 milhões de euros.
No sector ferroviário o cenário é ainda mais negro, com a
CP a exibir um passivo acumulado de 3.667 milhões de euros, capitais
próprios negativos de 2.247 milhões e encargos anuais com juros
na casa dos 161 milhões. Quanto à Refer, responsável pela
infra-estrutura, o passivo ascende aos 2.712 milhões de euros e o
passivo negativo anda nos 1.446 milhões.
O documento refere que o modo ferroviário é muito pouco eficiente
nos eixos de baixa procura, implementando o encerramento de vários
serviços com estas características, fenómeno a que
assistimos ininterruptamente desde o reinado de Ferreira do Amaral.
Reformas na rodovia passam pelo cancelamento de obras e a
introdução de portagens
No capítulo das infra-estruturas rodoviárias, os aspectos mais
relevantes prendem-se com a decisão de rever os contratos de
subconcessões em fase de construção. Esta revisão
pode passar pelo cancelamento da obra, pela sua suspensão ou pela
revisão de alguns troços. Abrange as subconcessões
Transmontana, Douro Interior, Litoral Oeste, Baixo Tejo, Pinhal Interior,
Algarve e Baixo Alentejo.
Outro dos problemas que está em cima da mesa é do endividamento
da Estradas de Portugal, que no final do ano passado ultrapassou os 2.000
milhões de euros e que, segundo o documento, chegaria aos 30.000
milhões em 2030 se nada fosse feito. O governo acredita que a
introdução de portagens em todas as SCUT, um processo que se
completou em Novembro último e outras reformas a implementar,
resultará numa redução do volume de endividamento desta
empresa para os 14.500 milhões de euros em 2030.
"Portugal Logístico" e TGV jazem de pé
Definitivamente morto e enterrado está também o "Portugal
Logístico" de Mário Lino e sua "
muchacha
", apresentado anos a fio com alarve propagandístico, onde
não faltaram sequer as tendas de campanha e a presença do
anterior primeiro, os vídeos promocionais e os croquetes de
ocasião. No PET é referido que importa rever os objectivos do
Portugal Logístico e a sua adequação à conjuntura
actual, dando prioridade ao desenvolvimento das plataformas logísticas,
cuja concretização seja realizada com recurso primordial à
iniciativa privada. Mais vago do que isto não é possível!
Enterrado também foi o TGV entre Lisboa e Madrid. Em alternativa,
será dada prioridade à ligação ferroviária
de mercadorias entre os Portos de Sines, Lisboa e Setúbal, a Plataforma
Logística do Poceirão e Madrid. Por saber fica, pelo menos para
já, se os fundos comunitários previstos para este projecto se
vão perder em definitivo.
Conseguirá o PET tornar as empresas sustentáveis?
As críticas mais comuns veiculadas pela oposição é
de que não se trata de um verdadeiro Plano Estratégico de
Transportes, mas tão somente um documento com orientações
de natureza financeira, centrando-se sobretudo na redução de
custos, nos aumentos tarifários e na diminuição de
carreiras.
Entre os agentes do mercado as críticas disparam de todos os lados,
começando pela falta de consultas ao sector, a própria forma como
têm estado a ser feitas as actualizações tarifárias,
as relações de promiscuidade, ora entre as empresas
públicas e o Estado ora entre estas e os privados, um fenómeno
conhecido que constitui um entrave à boa execução de
muitos dos pressupostos, sobretudo no capítulo da
alienação da exploração dos serviços. A
falta de credibilidade quanto à possibilidade das premissas do documento
poderem resolver o problema do défice gigantesco das empresas
públicas de transportes e torná-las sustentáveis, é
outra das análises mais frequentes.
Perante tudo isto que mais se pode dizer sobre este documento? Antes de mais
que filosofia é má, máximas como "é preciso
mudar de vida", "não há alternativas" ou pura e
simplesmente "vamos acabar com as regalias", são duma pobreza
franciscana e não contribuem para a resolução dos
problemas. Os condicionalismos impostos pelos imperativos da Troika são
péssimos, os actores medíocres e dos figurantes nem se fala,
muitos deles caras sobejamente conhecidas no sector, há décadas e
décadas a saltar do público para o privado e do privado para o
público, sempre serviçais e clientelistas, hoje criticando o
governo amanhã elogiando-o, ao ritmo das conveniências do momento.
Ver também:
Energia & transportes: Esperanças frustradas?
O original encontra-se na revista
Euro Transporte
, nº 68, Mar/Abril/2012,
http://www.facebook.com/eurotransporte
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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