por Jorge F. G. de Figueiredo
Depois da política energética e de transportes absurda e ruinosa
do governo anterior em que foram desperdiçadas quantias colossais
em projectos disparatados e que nunca poderiam ter pernas para andar
pensava-se que tudo o que viesse a seguir teria de ser necessariamente menos
mau para o sector. Essa esperança, no entanto, começa a ficar
frustrada.
O que é um bom governo do ponto de vista da energia e transportes? Para
nós é um governo que apoie e estimule os veículos a
gás natural. Mas, um ano volvido desde a sua tomada de posse, ainda
não se viu nada disso. O actual governo padece, nitidamente, de uma
falta de pensamento estratégico quanto à energia e transportes.
Ou talvez fosse preferível dizer que o governo navega ao sabor dos
ventos soprados pelas grandes empresas de energia. Se assim for, nunca
poderá haver um rumo coerente para o sector.
Contudo, esta ausência de rumo tem custos e estes podem ser pesados.
São os chamados
custos do não planeamento.
No campo da energia e transportes eles traduzem-se, por exemplo, em
importações petrolíferas para o país maiores do que
poderiam ser; em níveis de poluição ambiental urbana
maiores do que deveriam ser; em atritos escusados com operadores de transportes
acerca dos preços dos combustíveis; em ineficiências
generalizadas no sector e, sobretudo, em medidas desgarradas e pouco
lógicas.
As últimas notícias no campo da energia e transportes não
são animadoras. Vejamos algumas. Em primeiro lugar, o desastroso aumento
da taxa de IVA para o gás natural de 6% para 23% (01/Outubro/2011)
transmitiu aos operadores económicos do país a mensagem errada de
que não convém substituir petróleo por gás natural.
A reforçar essa mensagem errada, já em 2012, vieram os
anúncios de novos aumentos de preços do gás natural. Em
segundo lugar, o afastamento do anterior secretário de Estado da Energia
veio igualmente perturbar o sector dando a impressão de que o
governo ao invés de controlar é controlado por grandes empresas.
Em terceiro lugar, o anúncio da Secretaria de Estado dos Transportes de
fusões entre o Metro e a Carris de Lisboa e entre o Metro do Porto e a
STCP é de uma lógica não perceptível pois é
altamente discutível que tais fusões levem a uma
redução significativa de custos e, além disso, vêm
causar perturbações a empresas que funcionavam regularmente e com
razoável eficácia e eficiência. As ópticas puramente
financeiras costumam ser míopes nos sectores dos transportes e da
energia.
Por outro lado, audiências de que a APVGN participou na Assembleia da
República e os projectos de lei que ali tramitam revelam uma
considerável inconsciência quanto aos problemas que são
realmente importantes para o país. Foi aprovado, por exemplo, um diploma
que permite o estacionamento de veículos GPL em caves. A APVGN,
simpaticamente, apoiou a reivindicação dos seus
"primos" do GPL Auto ninguém poderá
acusá-la de sectarismo na defesa dos veículos a gás
natural. No entanto, em termos de política energética nacional,
trata-se de uma medida quase inócua. Ela em nada contribui para reduzir
o enorme rombo da factura energética portuguesa. Outra medida igualmente
inócua é a recente Resolução nº 85/2012 da
Assembleia da República, que "Recomenda ao Governo que tome medidas
no sentido imperioso de ver aumentada a presença e acessibilidade de
combustíveis líquidos não aditivados no mercado", os
chamados
low cost.
Mas por que dar tantos tiros fora do alvo? Será uma recusa a
atingi-lo? Serão jogadas diversionistas para fingir que se faz algo? Por
que essa insistência nos combustíveis líquidos?
Alguém pensa que os taxistas, por exemplo, que há pouco se
manifestavam contra o preço do gasóleo, ficarão
satisfeitos com a tal resolução dos aditivados? Ou os operadores
portugueses de frotas de camiões?
A resistência à boa solução do gás natural
nos transportes é espantosa nas terras lusitanas. Basta ver os Planos
Nacionais de Ação para as Energias Renováveis e
Eficiência Energética agora submetidos a consulta pública
(a APVGN emitiu um parecer, publicado neste número da
VGN).
Os ditos planos falam de tudo e mais alguma coisa em matéria de
transportes, mas em relação aos veículos a gás
natural os seus autores parecem atingidos por uma súbita cegueira
selectiva. Isto é altamente danoso pois os VGNs abrem caminho para o
biometano, uma energia renovável que está em desenvolvimento
acelerado por toda a Europa.
Enquanto isso, Portugal continua a importar um petróleo bruto que se
torna cada vez mais escasso no mundo. Em 2011 gastou 8618 milhões de
euros com importações de petróleo e em 2010 foram 6705
milhões de euros. Estas importações correspondem, grosso
modo, a cerca de um terço do défice da balança comercial
portuguesa. Este rombo poderia ser facilmente reduzido com uma política
inteligente de energia e transportes.
Enquanto isso, ainda, os habitantes dos municípios do Vale do Sousa e do
Vale do Ave continuam a sofrer a deterioração da qualidade do ar
que respiram. Mas, apesar da recomendação explícita feita
num estudo dirigido pelo Prof. Carlos Borrego, da Universidade de Aveiro,
nenhum desses municípios se decidiu a iniciar a
substituição dos seus parques automóveis por VGNs.
Verifica-se assim que Portugal anda ao arrepio da tendência mundial para
a generalização dos VGNs. Já há mais de 15
milhões de VGNs em circulação no mundo todo, número
que aumenta todos os anos mas em Portugal estamos estagnados. Em
consequência, estamos estagnados também em relação a
novas tendências como a produção de biometano e a novas
tecnologias como a liquefacção de biometano em pequena escala. Os
atrasos acumulam-se.
Com a actual estagnação da produção mundial de
petróleo, que já terá atingido o seu máximo
possível (~86 milhões barris/dia), o advento dos veículos
a gás natural torna-se uma tendência inelutável e que se
imporá cedo ou tarde por todo o planeta. Mas aqui em Portugal parece
haver interesses poderosos a pretender que a solução dos VGNs
seja adoptada antes mais tarde do que mais cedo. A recusa das autoridades
governamentais e dos actores económicos em abrir postos públicos
de abastecimento de gás natural comprimido (GNC) e gás natural
liquefeito (GNL) sugere isso.
Agosto/2012